Rainer Maria Rilke e Lou Salomé na Rússia com o poeta Spiridon Drozin em 1900. wikimedia commons
Lou Salomé nasceu na segunda metade do século 19 em São Petersburgo, na Rússia. Desde muito cedo, interessou-se por teologia, filosofia e arte. Como outras jovens russas de sua geração, mudou-se para a Suíça para estudar na Universidade de Zurique. Estabeleceu-se como romancista, ensaísta e crítica. As palavras já eram, então, a matéria de seu ofício.
Quando, em meados de 1911, aos 50 anos, se encontrou com a psicanálise, a relação de Lou com a linguagem se transpôs para a teoria e a clínica psicanalíticas. Ela foi leitora, teórica e praticante da ciência freudiana.
Testemunhos da intensidade de sua prática aparecem em pelo menos duas cartas notáveis de sua correspondência publicada: uma, trocada com Rainer Maria Rilke, e a outra, com Sigmund Freud. Quando escreve para Rilke em 4 de janeiro de 1922, Lou lhe conta que exerce a prática da escuta psicanalítica em seu consultório seis horas por dia, e oito horas diárias já na semana subsequente. Ela prossegue dizendo que, mesmo que fosse multimilionária, não abandonaria o trabalho psicanalítico, tão gratificante para ela. Da correspondência com Freud, temos a carta de 10 de maio de 1923, em que ele se diz horrorizado com as dez horas de análise diárias a que Lou se dispõe. Ela lhe responde que é afortunada por poder trabalhar exatamente com aquilo que quer.
Lou apresenta alguns dos seus casos a Freud por carta. As hipóteses clínicas que ela tece demonstram sua familiaridade com a teoria. Lou é versada nos conceitos e premissas estabelecidos pelo próprio Freud, mas também discute com desenvoltura as produções dos membros e dos dissidentes do movimento psicanalítico à sua volta. Seria um erro não considerar que estamos diante de alguém imbricada e fluente na teoria. Suas proposições não são ingênuas ou acidentais – tampouco sua clínica.
Freud lhe envia uma paciente em 1927. Creio que, a partir desse relato, podemos conhecer algo de Lou Andreas-Salomé enquanto clínica, entrevê-la num relance em sua poltrona.
A análise se estende por algumas cartas da correspondência, de pelo menos dois anos, trocada com Freud. O caso é apresentado fio a fio: linhas de investigação analítica que vão se oferecendo a Lou, a Freud e a nós conforme progride o tratamento.
Em carta de novembro de 1927, Lou agradece a Freud por uma indicação que ele lhe fez. Chega a Göttingen, onde a analista vivia desde 1904, uma família cuja filha, a quem Lou se referira pela letra K., busca tratamento. Após consulta preliminar com a jovem, decide receber também a mãe, evitando que pedisse mais relatos à filha. Os pais a ajudam a encontrar acomodações satisfatórias nas proximidades do consultório e então se vão.
A queixa de K. é de ataques repentinos quando em espaços fechados. A jovem também descreve ansiedade ante situações que possam deixar alguém indefesa, ameaçada de alguma forma, e situações que lhe evoquem violação ou destruição. Assim, é com surpresa que a psicanalista revela a Freud o fato de K. não apresentar inibição para encontros sexuais. Já havia tido alguns enlaces que viveu com satisfação e espontaneidade.
Guiada por uma hipótese de histeria com forte e ambivalente afeição pelo pai, Lou investiga o relato sobre esses homens e descobre que eram como o negativo da figura paterna. Quando eles exibiam mesmo uma semelhança com seu pai, o romance se tornava impossível.
Lou não encontra inibição nos encontros sexuais de K., um relatório que pode parecer bastante natural à leitora e ao leitor do século 21. É de se perguntar, entretanto, se os analistas a ela contemporâneos o veriam da mesma forma ou se tratariam essas relações como promiscuidade sintomática.
Ela dirige a investigação aonde a inibição enoda: a incapacidade da jovem de permanecer em aulas ou quaisquer outras reuniões em lugares fechados. Essa investigação leva K. à admissão de que seu temor era não conseguir controlar os próprios gases nesses lugares. A criação dada por um pai minucioso com relação ao decoro social funda proibições à analidade, ensejando essa expressão do sintoma, com o mesmo tipo de fantasia.
No decorrer da análise, Lou se interessa pelos peixinhos dourados de K. A diligência fervorosa da jovem no cuidado com os peixinhos, mesmo quando esse cuidado era pesado e inconveniente, leva a analista a relacioná-los a uma fantasia incestuosa com o pai. Isso acontece a partir de um sonho da analisanda, no qual os peixinhos dourados nadavam fora de uma banheira, que remetia a lembranças de infância em que K. nadava com o pai. O incesto permanece como pano de fundo para essa histeria fóbica.
Surpreende que os pequenos peixinhos dourados não evoquem em Lou os botões-joias que lhe foram fascinantes na infância, impregnados de erotismo. Lou conta, em sua obra publicada, sobre uma caixa de botões que, na infância, lhe parecia preciosa. Incrustados de pedras, os botões brilhantes serviram de contraponto ao dinheiro, às moedas divisíveis e comuns. Uma moeda pode ser dada pela metade, pode ser dividida com outrem. Uma pérola, não.
Os botões estavam em relação àquilo que lhe era mais íntimo e antigo, divino e interno. Eram assim como os peixinhos: indivisíveis. Como não se lembrou disso, Lou sugere a Freud que eles simbolizavam o pênis (metonimicamente, os seus amantes), mas ela admite que ainda não sentia que essa interpretação elucidava a paixão dos peixinhos de K.
Em outra carta, ela conta a seu destinatário sobre a faceta artística de K. Assim, há ocasião de falar da análise de artistas, um assunto a que Lou se dedicou mais de uma vez em sua obra. A jovem tinha aulas de pintura e, certa vez, comentou com a analista sobre sua dificuldade de pintar mãos. Não sabia o que fazer com elas, então as escondia nos vestidos. A analista interveio: se a cor dos vestidos sumisse, então as mãos poderiam ser vistas? A analisanda concordou, constrangida. A pergunta ensejou novas explorações na sessão. Veio à tona a proibição, longínqua e jamais enunciada, à masturbação. O mandato esquecido não tinha perdido seu poder, mas avançado para seu sucedâneo. As mãos representavam o ato proibido e, por isso, só apareceriam se o conflito fosse enunciado.
Dois dias depois, K. passou a pintar mãos, com uma maestria original que impressionou seu professor, um artista que Lou relatava ser talentoso. Ele pareceu incrédulo com o feito, já que julgava que a jovem não possuía aquela técnica. Lou achava que ela não deveria receber aulas para que preservasse sua originalidade.
Essa opinião, protetora da artista e de sua arte, revela o que ela pensava da psicanálise de artistas. Se, por um lado, a psicanálise pode dissolver as inibições e outros entraves à sublimação e servir ao artista, por outro, ao tatear no escuro, pode tocar o incognoscível da criação e deformar seu fruto. Como não é possível saber o que faz o artista criar, há algum perigo.
Aqui, creio que se possa dizer que temos um exemplo do primeiro caso. É apenas após o desvelamento das mãos feito em transferência que a jovem pode demonstrar seu talento.
O fim de uma psicanálise não corresponde ao fim das sessões. Lou fala a Freud da importância de, com o fim da análise, ainda haver algumas sessões em que se possa colher os frutos produzidos, retomar pontas que pudessem ter parecido soltas outrora e notar, a partir da nova disposição da analisanda, como elas faziam parte da armadilha da neurose. Uma chance de revisitar pequenos enigmas e produzir conhecimento sobre eles. K. tem essa chance que, observa Lou, também serve à dissipação da transferência.
Um ano após o último encontro entre analista e analisanda, ela escreve sobre K. mais uma vez. Em uma carta de 1930, retoma fatos do caso e os enreda em novas proposições teóricas.
O apego ao pai que atravessou todo o caso tinha se dado depois de anos em que a pequena K. atribuía a ele a capacidade de dar à luz. O pai sofria de hemorroidas, e os arranjos em seu assento feitos para lhe trazer conforto pareciam a ela a preparação para um parto.
Era o pai que sofria da flatulência que a deixava ansiosa. O som evocava nela ruídos de um filho que pudesse estar a caminho. Se os ruídos viessem dela, seriam então sinal de que roubara aquilo que era criativo no pai.
O amor de K. pelo pai, Lou conta a Freud, vem do engano de atribuir as gestações a ele, não de uma inveja do pênis. Acreditava ser o pai aquele capaz de gerar filhos vivos, enquanto a mãe, apenas fezes mortas. Em escrito teórico anterior a esse caso, Lou já havia proposto uma correspondência da inveja da gravidez (sentida pelos meninos) à inveja do pênis (sentida pelas meninas) trazendo à tona a importância da capacidade de gestar nas fantasias infantis. No caso clínico, faz uma última costura: a menina admira a gravidez, mas a supõe no pai a partir de fantasias anais. Seu amor por ele imbui a analidade das proibições que visariam à sua sexualidade edipiana “fálica” (clitoriana).
Lou propõe que, assim como na teoria freudiana os meninos supõem que todas as pessoas têm pênis, as meninas podem feminizar o pai. Freud responde à sua descoberta com surpresa e consente: talvez a multiplicidade de achados clínicos exceda as suas tentativas de propor fórmulas.
O caso da pequena K. nos mostra Lou como a analista que ela julgava que todos nós deveríamos ser. Primeiro, calcados na leitura de Freud. Segundo, atentos ao fato de que é aquele que fala quem irá livrar a si próprio do sofrimento, assim que puder abrir mão da impressão de que a doença é seu duplo.
As sessões finais do caso K. revelam esse desprendimento da analisanda, efeito de estar diante de uma analista. Essas posições, no limite, culminam na dissolução dessa transferência.
Afinal, é com isso que contamos. Lou, posteriormente, fará uma distinção oportuna em sua obra entre psicanálise, confissão e hipnose. A confissão é um apelo às capacidades conscientes daquele que confessa porque se entende em erro; sua educação seria equivalente à recuperação. Já a hipnose teria seu efeito quando suscitasse o automatismo psíquico e a sugestionabilidade útil ao hipnotizador.
A psicanálise não faz uso desses recursos. O analisando deve perceber que há algo de si de que não dispõe imediatamente e se intrigar com o inconsciente. A transferência que possibilita isso é da ordem do acontecimento, não da coerção ou do controle. Até porque Lou nos alerta: é impossível rastrear pelo seu avesso os fios coloridos que teceram a tapeçaria.
Lureen Asei é psicanalista e mestranda em psicologia clínica pela PUC-SP, com formação em psicanálise pelo Centro de Estudos Psicanalíticos
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/os-fios-e-a-trama-a-clinica-de-lou-andreas-salome/

