Teve um tempo, nem tão distante, em que os jornais procuravam figuras chamadas José Mindlin, Antônio Ermírio de Moraes, Mário Amato, Horácio Lafer Piva e Oded Grajew para que falassem em nome do que ainda chamam de empresariado.
Não há mais empresários equivalentes e com o protagonismo que eles tiveram. A maioria já morreu ou se afastou da esfera pública. O que sobrou, como voz assertiva e respeitada da elite empresarial brasileira, foi o véio da Havan. É o que temos.
Para contrapor a posição dos empresários mais reacionários ao avanço da PEC que acaba com a escala 6X1, a Folha de S.Paulo foi buscar essa figura de Brusque. Não é surpreendente.
Quem do mundo ultraconservador pode falar sobre uma PEC com esse impacto? É preciso que o escolhido seja a representação desse ambiente que se sentiu desconfortável com a decisão da Câmara e vê o apocalipse na esquina.
O véio da Havan, agora ativista moderado de extrema direita, é a síntese de quem se contrapõe à PEC que assegura folga de dois dias semanais aos trabalhadores. E que foi, na essência, uma conquista das mulheres do Congresso, lideradas pela deputada negra e trans Erika Hilton.

A PEC foi uma batalha conduzida por elas. Por Erika, autora da proposta, e por Maria do Rosário, Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna, Jandira Feghali, Benedita da Silva, Denise Pessôa e tantas outras.
E o que diz então com moderação o véio da Havan ao ser ouvido pela Folha como voz da elite empresarial? Que as empresas do varejo vão quebrar. Leiam esse trecho, que fala das mulheres:
“Ele (Hang) reclama, por exemplo, do artigo 386 da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), que prevê que mulheres tenham direito a ao menos uma folga em um domingo a cada 15 dias. A medida visa garantir o descanso às mulheres, visto que muitas assumem uma jornada dupla por atividades da casa e apoio à educação dos filhos. Esse direito estava previsto na CLT desde 1943, mas precisou ser ratificado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2023 após descumprimento da regra, especialmente com a implementação da reforma trabalhista de 2017.
“A Havan tem três turnos [de trabalho]. Há um tempo, inventaram que mulheres não podem trabalhar dois domingos em seguida. O que tu consegues com isso? Tu vais ter que contratar mais homens. […] Cada lei que não tem lógica, quem sofre é a própria pessoa para que foi feita a lei”, afirma. “Eu nunca vi, nesse país, tanto idiota para fazer leis burras.”
Pronto. É a opinião de um dos líderes do empresariado brasileiro, que se prepara, segundo ele, para abrir lojas agora no Paraguai. Porque aqui o varejo irá à falência com a PEC que acaba com a escala 6X1.
A reportagem não esclarece se as filiais paraguaias também terão as réplicas grotescas da estátua da liberdade. E também não diz que o sujeito agora moderado é investigado em três inquéritos sob coordenação de Alexandre de Moraes, que o definiu um dia como um cabo eleitoral de Bolsonaro fantasiado de verde periquito.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-vitoria-das-mulheres-da-camara-e-a-reacao-do-veio-da-havan-por-moises-mendes/

