O carioca teme as milícias. Mas os bairros dominados por milícias do Rio, na maioria na zona oeste da cidade, ofereceram as maiores vitórias a Flávio Bolsonaro no primeiro turno. E Flávio, todos sabem, tem vínculos fortes e históricos com as milícias.
A zona da soja no Rio Grande do Sul, que tem a China como compradora de 70% dos grãos vendidos para o exterior, votou em massa em Flávio. E o governo chinês é mais amigo de Lula do que do Brasil. E a turma de Flávio abomina a China.
Nos municípios atingidos pelo tarifaço de Trump, em estados do Sudeste e do Sul, o maior vencedor também foi o candidato da extrema direita. E ele é defensor do tarifaço e amigo de Trump.
Os jovens, beneficiados por programas sociais e na área da educação desde os primeiros governos de Lula, são um dos novos e maiores contingentes conservadores do Brasil hoje. Quem vai entender?
O que está acontecendo com a desconexão entre realidade, interesses e conflitos entre grupos sociais e seus algozes? Por que as ciências sociais, os cientistas políticos e os estudiosos da mente não conseguem mais explicar o que se passa no Brasil? O que não funciona mais que funcionava no século 20? Chegamos ao cansaço das explicações que não servem mais para o entendimento dos humores do país.
Podem dizer, como andam dizendo, que as milícias que os cariocas tanto temem, porque ameaçam, fazem extorsão e matam, ajudaram Flávio a vencer a eleição no Rio porque dominam territórios, inclusive nas eleições. Será simples assim?
Também explicam que, no caso da região da soja, a votação maciça em Flávio, em Ijuí, Santo Ângelo, Santa Rosa, Panambi, Cruz Alta e municípios ao redor, foi provocada pela onda conservadora e moralista, da qual falaremos mais adiante. Grandes e pequenos agricultores preferem votar no inimigo da China, em nome de ‘valores’, mesmo que assim contrariem seus próprios interesses?
E os eleitores de municípios atingidos pelo tarifaço teriam culpado Lula pela decisão de Trump. Levantamento da Folha de S. Paulo mostrou que, dos 100 municípios mais afetados em várias regiões, inclusive no Rio Grande do Sul, Lula foi derrotado em 92.
Não há como buscar antigas coerências e racionalidades, muito menos na decisão de jovens de 16 a 25 anos de promover uma corrida, nos últimos meses, em direção ao candidato do bolsonarismo. Estudos mostram que o crescimento do conservadorismo se deu mais entre jovens, mulheres, moradores de capitais e nas regiões Norte e Centro-Oeste.
Eleitores que temem milicianos e votam no candidato amigo dos milicianos, agricultores que votam contra o candidato amigo do país que mais compra o que eles produzem e jovens que apostam em rupturas e grandes transformações com o filho do sujeito que contrariou os interesses de todos eles quando esteve no poder.
O que se passa nas cabeças desses eleitores? Por que Flávio não faria o que o pai fez em quatro anos, em meio a uma pandemia, quando cortou programas sociais, negou vacina e debochou de quem não suportava seus desmandos e acabava morrendo?

Que valores, como os citados pelo instituto Ipsos, tornaram o brasileiro mais conservador? Esses valores seriam determinados pelo aumento da religiosidade, a preocupação com o aborto, as pautas justiceiras da área da segurança (pena de morte), a redução da maioridade penal, a união homoafetiva, o desalento com a corrupção.
Moradores de áreas controladas por milicianos, produtores de soja, jovens e mulheres acreditam mesmo que Flávio Bolsonaro pode corresponder a essas demandas ‘morais’? Pautas morais conectam, misturadas a todo tipo de preconceito, e enxergam o filho de Bolsonaro como alguém capaz de proteger os que as defendem?
A família, a pátria, a segurança e os interesses econômicos desses contingentes estariam sob a defesa do filho ungido. É isso mesmo? Descendentes dos que lutaram pela normalidade em 1984 e 1985, nas campanhas pela redemocratização (foto), são hoje filhos e netos reacionários de pais e avós progressistas?
Benedita da Silva, a única figura pública a ocupar o governo do Rio e não ser presa nos últimos anos, não se elegeu senadora. O governador eleito, Douglas Ruas, é um ex-policial sob investigação acusado de peculato (apropriação de dinheiro público), lavagem de dinheiro, fraude em licitação e organização criminosa quando esteve na Secretaria Estadual das Cidades. Onde, pelo que nos dizem os especialistas em Rio de Janeiro, estariam aqui as pautas morais? Por que Benedita foi desprezada e Ruas foi eleito?
Quem explica mais esta? Aparecida, o município que leva o nome da padroeira do Brasil, acompanhou a partir do final de setembro a controvérsia sobre a santa e a extrema direita. O título de padroeira estaria em risco pela posição dos evangélicos em relação a santos católicos, diante da possibilidade de radicalização e da eleição de Flávio Bolsonaro. Pois em Aparecida o candidato que parecia ser temido pelos católicos obteve quase o dobro da votação de Lula, com 58,3% contra 32,1%. Que bispo teria uma explicação?
Flávio Bolsonaro venceu na grande maioria dos municípios a própria votação do pai em 2022, incluindo, é claro, os que mais testemunharam as mortes por covid por falta de vacina e pela disseminação da cloroquina. O Brasil tem 5.571 municípios, e Flávio recebeu agora menos votos do que o pai em apenas 64.
Podemos dizer, como diz o historiador Tau Golin, que ao povo ajoelhado aos pés do bolsonarismo, e a caminho de mergulhar de novo abaixo da linha de pobreza, “não cabe a classificação sociológica e política de alienado”, mas de “militante ativo do sistema que o criou, fazendo dele a sua utopia e sua militância. A idolatria dos Bolsonaro é a sua realização histórica objetiva”.
As explicações antigas, aquelas que nos consolavam com argumentos calmantes e até edificantes, na segunda metade do século 20, tempos depois da ditadura, da reconstrução da democracia e da convivência com algumas outras utopias, essas explicações mais fáceis não nos ajudam mais, porque perderam funcionalidade.
O brasileiro enfiou o pé na jaca e decidiu embebedar-se de bolsonarismo como nunca havia feito antes, nem em 2018. Pode mudar? Só por milagre, diria o padre de Aparecida. E milagres não cabem em explicações.
Publicado originalmente no Extra Classe
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/bateu-o-cansaco-com-as-explicacoes/


