O que ainda falta fazer após fim das bets, segundo especialistas

Homem apostando em bet. Foto: ilustração

O Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 10,5 mil atendimentos relacionados ao transtorno de jogo até maio de 2025, alta de 140% desde o avanço das bets no país. O Ministério da Saúde projeta que o volume mais que dobre até 2028, enquanto uma medida provisória proibiu as plataformas de apostas na última sexta-feira.

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor aposentado da Unifesp, a restrição ao acesso pode ajudar, mas não resolve a crise de saúde pública. “Grande parte das pessoas com transtorno vão migrar para apostas clandestinas, então o problema persiste”, afirmou em entrevista ao Globo, ao apontar falta de profissionais treinados e de programas estruturados no SUS.

Laranjeira também citou limites na rede de saúde mental e no acesso aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Segundo ele, os grandes centros urbanos têm cobertura maior, mas ainda insuficiente para atender à demanda de pessoas que perderam o controle sobre as apostas.

O III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, conduzido pela Unifesp entre 2023 e 2024, estimou que 10,9 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais apresentam padrão de jogo de risco ou problemático.

Uma análise do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde calculou em R$ 30,6 bilhões por ano o custo associado à saúde, valor equivalente a 11,3% do orçamento do Ministério da Saúde aprovado para 2026.

Lula anunciando o fim das bets. Foto: reprodução

Ministério ampliou teleatendimento e criou bloqueio de sites

Hermano Tavares, psiquiatra e coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, avaliou que a proibição cria uma barreira para pacientes em tratamento. “Quem estiver engajado no tratamento vai encontrar nisso uma barreira que não é perfeita, mas que ajuda na adesão à abstinência”, disse.

Em janeiro, o Ministério da Saúde lançou o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, com orientações para acolhimento, acompanhamento e tratamento. A pasta também disponibilizou um autoteste on-line, que superou 170 mil acessos, e ampliou a oferta mensal de teleatendimentos de 600, em março, para 100 mil, em agosto.

Os ministérios da Saúde e da Fazenda criaram ainda uma ferramenta para que o próprio usuário bloqueie o acesso a sites de apostas. O recurso já recebeu adesão de 1,3 milhão de brasileiros, e 35% deles apontaram a perda de controle sobre o jogo como motivo para solicitar o bloqueio.

A Organização Mundial da Saúde reconhece o transtorno de jogo quando a prática se torna persistente e difícil de controlar, com danos pessoais, familiares, profissionais e financeiros. No Brasil, os atendimentos se concentram na faixa dos 20 aos 49 anos; o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que “os dados expressam o tamanho do problema, mas certamente não conseguem traduzir todo o sofrimento” relatado por pacientes, familiares e profissionais.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/bets-sus-alta-atendimentos-transtorno-jogo/