“Bom pensar no Bolsa Família 2, 3 ou 4”, dizem vencedores do Nobel de Economia

Esther Duflo com o marido Abhijit Banerjee

Os vencedores do Prêmio Nobel de Economia de 2019, Esther Duflo e Abhijit Banerjee, afirmaram que o Brasil deveria abandonar a polarização em torno do Bolsa Família e começar a discutir a evolução do programa social em um cenário de aumento da desigualdade, envelhecimento populacional e avanço acelerado da inteligência artificial.

Em entrevista à revista Exame, os economistas defenderam que o debate sobre transferência de renda precisa sair da lógica simplista entre “ser contra ou a favor” e passar a focar em novos modelos de proteção social.

“Em vez de perguntar se é bom ou ruim, dado que é tão relevante politicamente e que, segundo todas as evidências disponíveis, tem bons impactos, seria muito mais útil começar a pensar no que seria o Bolsa Família 2, 3 ou 4”, afirmou Banerjee.

Os dois pesquisadores ganharam o Nobel por estudos sobre combate à pobreza usando testes randomizados, considerados padrão ouro em pesquisas sociais. Fundadores da rede J-PAL, voltada à formulação de políticas públicas baseadas em evidências, eles anunciaram recentemente uma parceria com a Fundação Lemann e a Universidade de Zurique para ampliar pesquisas e formação em políticas públicas ligadas ao Brasil.

Segundo Duflo, a proposta é aproximar pesquisadores, gestores públicos e estudantes brasileiros das experiências internacionais de combate à pobreza.

“O objetivo é compartilhar evidências de toda a experiência da rede J-PAL com formuladores de políticas brasileiros em todos os níveis, desde as prefeituras até o governo federal”, declarou.

Bolsa Família como referência internacional

Na entrevista à Exame, Duflo afirmou que o Bolsa Família se tornou um marco global no combate à pobreza extrema e ajudou a inspirar programas semelhantes em outros países.

“O Bolsa Família foi um enorme sucesso no Brasil em termos de seu objetivo imediato, que era reduzir a pobreza extrema”, disse a economista.

Ela lembrou que o programa brasileiro, mesmo sem ter sido originalmente desenhado como experimento acadêmico, acumulou evidências suficientes para demonstrar resultados concretos.

Segundo Duflo, estudos semelhantes realizados no México, em conjunto com avaliações brasileiras, ajudaram a convencer governos ao redor do mundo a adotar modelos de transferência de renda condicionada.

Ao mesmo tempo, os economistas afirmam que justamente por ter sido bem-sucedido o programa precisa evoluir.

“Como todo progresso, ele se beneficiaria do que aprendemos de lá para cá”, afirmou Duflo, defendendo avaliações sobre novas características e formatos do programa.

Banerjee reforçou que o foco deveria ser discutir aperfeiçoamentos, e não desmontar uma política já consolidada.

Desigualdade crescente e ameaça da inteligência artificial

A entrevista também foi marcada por um alerta contundente sobre o avanço da desigualdade social em escala global. Para os dois economistas, a inteligência artificial tende a acelerar a concentração de renda e destruir empregos qualificados de classe média.

“Sem dúvida, isso aumentará a desigualdade. E será particularmente doloroso nas classes médias que têm empregos intelectuais ou facilmente substituíveis por IA”, afirmou Duflo.

Ela citou programadores, contadores e advogados entre os profissionais que podem ser diretamente afetados pela automação impulsionada pelas grandes empresas de tecnologia.

“A maior parte da inovação que estão desenvolvendo visa descobrir quantos trabalhadores a mais elas conseguem substituir da maneira mais rápida possível”, declarou.

Segundo Duflo, a situação cria um cenário inédito: setores da classe média que nunca dependeram de proteção social poderão precisar de apoio estatal no futuro.

“Essa será uma situação totalmente nova, em que a proteção social será necessária para as classes médias, que não estão acostumadas a isso”, afirmou.

Banerjee foi ainda mais duro ao relacionar desigualdade, concentração tecnológica e resistência dos super-ricos ao pagamento de impostos.

“O fato de haver agora quase uma revolta aberta dos ultrarricos contra o pagamento de impostos é o cerne da crise”, disse.

Ele elogiou iniciativas internacionais de tributação de bilionários debatidas no G20 e alertou para o risco de colapso social caso a concentração de riqueza continue avançando.

“Se não houver empregos para a classe média e os bilionários não pagarem impostos, a sociedade entrará em colapso”, declarou.

Brasil é visto como referência em dados e políticas públicas

Apesar das críticas ao cenário global, os economistas fizeram elogios à estrutura brasileira de produção de dados e avaliação de políticas públicas.

Banerjee afirmou que o Brasil está muito à frente da maior parte dos países nesse campo.

“Em comparação com a maioria dos países que visitei, o Brasil tem uma excelente cultura de coleta e uso de dados”, afirmou.

Duflo acrescentou que pesquisadores internacionais passaram a olhar ainda mais para o Brasil diante das dificuldades crescentes para obter dados públicos nos Estados Unidos.

“Agora que está difícil obter dados nos EUA, todos os economistas de comércio e trabalho americanos estão começando a trabalhar com o Brasil, porque sabem que encontram dados excelentes”, declarou.

“Pix do Clima” e novas políticas sociais

Outro ponto abordado foi a necessidade de criar mecanismos de proteção social ligados às mudanças climáticas, especialmente em países vulneráveis como o Brasil.

Duflo citou estudos sobre um modelo apelidado de “Pix do Clima”, que funcionaria como uma transferência automática de renda para famílias atingidas por ondas de calor, enchentes ou eventos extremos.

“Trata-se da ideia de transferências automáticas para famílias em períodos de calor intenso”, explicou.

Segundo ela, o mecanismo poderia funcionar como uma espécie de seguro social climático, com custos administrativos menores e resposta mais rápida em momentos de crise.

Os economistas também defenderam que governos comecem desde já a pensar em como financiar sistemas de proteção social em sociedades envelhecidas, pressionadas pela automação e pela redução da natalidade.

Para Banerjee, muitos países cometeram o erro de prometer benefícios sem planejamento de longo prazo — algo que o Brasil deveria evitar.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/bom-pensar-no-bolsa-familia-2-3-ou-4-dizem-vencedores-do-nobel-de-economia/