Especialistas em saúde pública criticaram a promessa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de transformar o Sistema Único de Saúde em um serviço de “padrão Einstein”. Para sanitaristas ouvidos pela Folha, a comparação entre o SUS e o Hospital Israelita Albert Einstein ignora as diferenças de estrutura, financiamento e alcance entre um sistema universal e uma instituição privada.
Candidato à Presidência, Flávio apresentou a ideia durante o debate da TV Band no domingo (18), sem detalhar como aplicaria o modelo. O plano de governo do senador não menciona a proposta, e sua campanha não respondeu aos contatos da reportagem feitos entre segunda-feira (19) e quinta-feira (22).
O SUS tem obrigação constitucional de atender toda a população, com ações de prevenção, assistência, vacinação, exames, tratamentos e atendimento hospitalar em todas as regiões do país. Já o Einstein é um hospital privado que atende um público específico, embora também participe de iniciativas em parceria com o poder público.
Gonzalo Vecina Neto, fundador e primeiro presidente da Anvisa e um dos idealizadores do SUS, classificou a declaração como preocupante e a associou a um aceno à saúde privada e à expansão de concessões. “Uma coisa é o que o Einstein faz, um hospital privado que atende quem o busca. Outra coisa é o SUS, um sistema de saúde universal”, afirmou.

Lottenberg defende gestão e diz que fala sobre recursos foi recortada
O debate ganhou força após a circulação de um vídeo de Cláudio Lottenberg, médico cotado para o Ministério da Saúde em um eventual governo de Flávio Bolsonaro e ex-presidente do Einstein. No trecho, ele diz que “não colocaria nada mais [no SUS]” antes de esgotar ou melhorar a forma de alocar os recursos disponíveis.
Lottenberg afirmou que o vídeo reproduziu sua fala de maneira fragmentada e defendeu a preservação do caráter universal do sistema. “A saúde é um direito de todos e um dever do Estado, e essa garantia constitucional é uma conquista que deve ser preservada”, disse, ao defender atenção primária, integração dos serviços e continuidade dos tratamentos.
Ao explicar como buscaria qualidade e segurança no SUS, o médico citou a criação de protocolos, indicadores e acompanhamento de desempenho. O sistema público já utiliza protocolos desenvolvidos por sociedades médicas, monitora incorporações aprovadas e realiza levantamentos como o Vigitel, voltado à vigilância de fatores de risco para doenças crônicas.
A médica sanitarista Marilia Louvison, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, afirmou que a promessa esbarra no financiamento. “Não tem como aumentar o padrão e cortar ao mesmo tempo”, declarou, ao citar a proposta de redução bilionária de despesas defendida pelo candidato.
Louvison ressaltou que a atuação do SUS vai além dos hospitais e inclui o Samu, a Anvisa, campanhas de vacinação, testagens, assistência a comunidades tradicionais e respostas a crises sanitárias e ambientais. Para ela, padrões de hotelaria não definem sozinhos a qualidade do atendimento e podem criar expectativas irreais entre os usuários do sistema público.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/flavio-bolsonaro-promessa-sus-padrao-einstein-criticas/

