O New York Times publicou em 28 de setembro de 2026 uma reportagem sobre o temor de interferência do governo de Donald Trump na eleição presidencial brasileira. Assinado por Ana Ionova e Adam B. Ellick, o texto mostra que autoridades do país vêm adotando medidas para proteger o processo eleitoral de possíveis ações dos Estados Unidos.
Desde que voltou à Casa Branca, Trump ampliou sua influência sobre a política latino-americana. Candidatos de direita alinhados a Washington venceram as sete eleições mais recentes na região, e o presidente americano apoiou explicitamente os vencedores em duas delas. “Estamos indo muito bem na América do Sul”, afirmou Trump neste mês. “Muita gente que eu ajudei a eleger.”
O Brasil representa agora um teste importante dessa influência. A principal preocupação às vésperas da votação é se o governo americano tentará interferir na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Apesar de não ter declarado apoio formal a nenhum dos candidatos, Trump já adotou medidas que beneficiaram politicamente o campo bolsonarista, especialmente durante o processo que levou à condenação e à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Na ocasião, o americano utilizou sanções e ameaças tarifárias para pressionar o Brasil enquanto o ex-presidente respondia pelo plano golpista após a eleição de 2022. A pressão não impediu a condenação de Bolsonaro a 27 anos de prisão.
Agora, autoridades brasileiras monitoram possíveis operações estrangeiras de desinformação, atividades de lobby e campanhas destinadas a desacreditar o sistema eleitoral. O país também buscou apoio diplomático de governos europeus, asiáticos e de outras regiões diante do risco de interferência externa.
Mais de uma dezena de autoridades brasileiras, integrantes de órgãos eleitorais, agentes de inteligência, policiais e diplomatas estrangeiros foram ouvidos pela reportagem. Parte deles falou sob anonimato por não possuir autorização para discutir publicamente as medidas adotadas.
A preocupação aumenta diante de uma eleição apertada. Uma interferência americana, mesmo indireta, poderia ter impacto numa disputa decidida por pequena diferença de votos.
Entre os episódios que acenderam o alerta está uma tentativa dos Estados Unidos de enviar uma delegação ao Brasil para investigar a integridade do sistema eleitoral. Autoridades brasileiras impediram as visitas. O governo Trump rejeita as acusações de que esteja tentando interferir na eleição.
Também há preocupação com campanhas nas redes sociais impulsionadas por contas americanas de direita. Algumas delas divulgaram estimativas da Polymarket, mercado de previsões que tem entre seus investidores uma empresa ligada a Donald Trump Jr., apontando chances elevadas de vitória de Flávio Bolsonaro, enquanto pesquisas eleitorais mostram uma disputa equilibrada.

Outro ponto envolve documentos vazados escritos por um aliado de Bolsonaro e analisados pelo New York Times. Os papéis indicam que pessoas próximas a Flávio Bolsonaro discutiram a possibilidade de oferecer aos Estados Unidos acesso a minerais críticos brasileiros em troca de apoio. O autor reconheceu ter produzido o documento, mas negou que tenha agido em nome da campanha ou que o material tenha sido entregue a autoridades americanas.
Lula reagiu publicamente às suspeitas de interferência. “É melhor os americanos não virem tentar influenciar nossas eleições”, afirmou o presidente. “Trump deveria cuidar dos assuntos do próprio país.” Em discurso recente na ONU, Lula também declarou que “o Brasil não é quintal de ninguém”.
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que as instituições brasileiras possuem instrumentos para reagir. “De onde quer que venha a ameaça, temos instrumentos para nos defender”, disse. “Se necessário, certamente haverá uma resposta contundente.”
No campo bolsonarista, a proximidade com Trump aparece inclusive nas manifestações públicas. Em um ato realizado em São Paulo, apoiadores de Flávio Bolsonaro exibiram bandeiras dos Estados Unidos e um boneco gigante do presidente americano segurando uma representação de Lula vestido como presidiário.
O temor das autoridades não se restringe a uma eventual tentativa de influenciar o voto antes da eleição. Também existe preocupação com o período posterior à votação e com a possibilidade de Flávio Bolsonaro e seus aliados questionarem o resultado em caso de derrota, repetindo acusações de fraude eleitoral semelhantes às usadas por Trump nos Estados Unidos e por Jair Bolsonaro no Brasil.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/new-york-times-temor-interferencia-trump-eleicao-brasileira/


