Primeiro adversário do Brasil na Copa do Mundo de 2026, o Marrocos chega ao torneio carregando não apenas a fama de seleção emergente, mas também uma complexa discussão sobre identidade nacional que ganhou projeção internacional após a campanha no Mundial do Catar.
Os marroquinos enfrentam a seleção brasileira neste sábado (13), às 19h (horário de Brasília), pelo Grupo C. Atualmente na oitava posição do ranking da Fifa, a equipe busca repetir o desempenho que surpreendeu o mundo em 2022, quando eliminou potências como Espanha e Portugal para se tornar a primeira seleção africana a alcançar uma semifinal de Copa do Mundo.
Mas a façanha esportiva abriu também um debate sobre como definir os chamados “Leões do Atlas”. Seriam eles uma equipe africana, árabe ou ambas?
Durante a campanha no Catar, muitos veículos internacionais celebraram o feito como uma vitória histórica do futebol africano. No entanto, após a classificação sobre a Espanha, o atacante Sofiane Boufal agradeceu publicamente aos marroquinos, aos povos árabes e aos muçulmanos pelo apoio recebido, sem mencionar a África.
A declaração provocou forte reação nas redes sociais. Diversos africanos lembraram que o restante do continente havia abraçado a seleção durante o torneio. Diante das críticas, Boufal acabou se retratando e afirmou que a vitória também pertencia aos povos africanos, acrescentando que os marroquinos tinham orgulho de representar seus “irmãos do continente”.

A polêmica expôs uma questão antiga. Geograficamente africano, o Marrocos mantém fortes laços culturais e linguísticos com o mundo árabe e integra a Liga Árabe. Ao mesmo tempo, o país tem intensificado sua aproximação política e econômica com o restante da África nos últimos anos.
Em 2017, após três décadas de ausência motivada pela disputa envolvendo o Saara Ocidental, o reino retornou à União Africana. Na ocasião, o rei Mohammed VI declarou que a África era sua casa e que o país estava “voltando para casa”. Desde então, as relações comerciais e diplomáticas com países da África Ocidental se fortaleceram significativamente.
A questão, porém, permanece sensível. Muitos marroquinos se identificam acima de tudo como árabes, enquanto outros rejeitam essa classificação exclusiva, destacando a diversidade étnica do país, incluindo populações amazigh (berberes). Também existem críticas de migrantes e comunidades da África Subsaariana que denunciam episódios de discriminação racial dentro do reino.
Enquanto o debate identitário segue vivo, dentro de campo o Marrocos chega credenciado por resultados expressivos. A seleção garantiu vaga no Mundial com uma campanha impecável, vencendo os oito jogos das eliminatórias. Foram 22 gols marcados e apenas dois sofridos, terminando a disputa com nove pontos de vantagem sobre o segundo colocado do grupo.
O time também vive um período de transição. O técnico Walid Regragui, responsável pela campanha histórica de 2022 e por uma sequência recorde de 19 vitórias consecutivas, deixou o comando da seleção em março. Em seu lugar assumiu Mohamed Ouahbi, treinador de 49 anos que ganhou destaque ao conduzir o Marrocos ao título da Copa do Mundo Sub-20 em 2025.
Ex-professor e com longa passagem pelas categorias de base do Anderlecht, na Bélgica, Ouahbi participou da formação de jogadores que mais tarde defenderiam a seleção belga, como Jérémy Doku e Youri Tielemans. Sua promoção foi vista como uma escolha natural pela federação marroquina.
A expectativa é que o novo treinador implemente um estilo mais ofensivo do que o de seu antecessor, frequentemente criticado por torcedores por priorizar uma postura excessivamente defensiva. O Marrocos deve atuar em uma formação próxima ao 4-3-3, explorando velocidade pelos lados, espaços deixados pelos adversários e cruzamentos para a área.

Uma das novidades mais observadas será o jovem meio-campista Ayyoub Bouaddi. Aos 18 anos, ele era capitão da seleção sub-21 da França há poucos meses e decidiu representar o país de origem de sua família. Sua convocação é vista como um símbolo da ambição marroquina de atrair talentos formados na Europa.
Os contra-ataques seguem sendo a principal arma da equipe. A velocidade dos pontas e laterais costuma criar dificuldades para adversários que deixam espaços em campo aberto. As bolas paradas também são um dos pontos fortes do elenco.
Por outro lado, o Marrocos costuma enfrentar dificuldades contra equipes que se fecham defensivamente e reduzem os espaços para transições rápidas. Além disso, vários jogadores recém-integrados ao grupo ainda não foram testados em competições do porte de uma Copa do Mundo.
A principal estrela da seleção é Achraf Hakimi, lateral-direito do Paris Saint-Germain. Capitão da equipe e eleito melhor jogador africano do ano, ele é uma referência técnica e emocional do elenco. Dono de forte capacidade ofensiva, Hakimi é um dos poucos jogadores do grupo a superar a marca de dez gols pela seleção principal.

Outro nome importante é Brahim Díaz, atacante do Real Madrid nascido na Espanha. Artilheiro da última Copa Africana de Nações, com cinco gols, ele se consolidou como uma das principais peças do setor ofensivo marroquino.
Já Ismael Saibari, do PSV, vive grande fase. Utilizado em alguns amistosos como falso nove, marcou duas vezes na goleada por 4 a 0 sobre Madagascar e encerrou a última temporada europeia com 19 gols em todas as competições.
Desde a histórica campanha no Catar, o Marrocos vem acumulando protagonismo internacional. Neste ano, chegou à final da Copa Africana de Nações, torneio que terminou cercado por polêmica. Após um pênalti marcado nos acréscimos da decisão contra o Senegal, os senegaleses deixaram o gramado em protesto. Posteriormente, o título acabou sendo atribuído aos marroquinos, enquanto o caso segue em análise na Corte Arbitral do Esporte.
O crescimento do país também se reflete fora das quatro linhas. O Marrocos será um dos anfitriões da Copa do Mundo de 2030, tornando-se o primeiro país do norte da África a receber partidas do principal torneio do futebol mundial.
Diante do Brasil, os Leões do Atlas tentam provar que a surpreendente campanha de 2022 não foi obra do acaso. Com uma geração talentosa, um novo treinador e ambições cada vez maiores, os marroquinos chegam ao Mundial dispostos a desafiar novamente as hierarquias do futebol internacional.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/quem-e-o-marrocos-que-desafia-o-brasil-na-estreia-da-copa-e-por-que-ele-e-malvisto-na-africa/

