Ver-o-Peso: conheça os produtos típicos de Belém

Os produtos regionais comercializados no Ver-o-Peso representam mais do que mercadorias expostas diariamente aos consumidores. Artesanatos, bebidas típicas, ervas, essências e outros itens tradicionais fazem parte da identidade cultural de Belém e também desempenham papel importante na geração de renda para trabalhadores que encontram no complexo uma forma de sustento.

No cotidiano do Ver-o-Peso, a comercialização desses produtos reúne histórias de vida marcadas pelo trabalho, pela tradição e pela transmissão de conhecimentos entre gerações.

De acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (Sedcon), cerca de 2.400 pessoas trabalham no complexo, em diferentes setores, incluindo permissionários cadastrados e ambulantes não cadastrados.

Artesanato que atravessa gerações

Entre os trabalhadores está a artesã Silvane Queiroz, 54 anos, que iniciou no ofício aos 16. Há décadas dedicada ao artesanato, ela utiliza a pirografia, técnica que consiste em desenhar ou gravar imagens na madeira por meio do calor, para produzir peças que chamam a atenção de quem circula pelo local.

Silvane Queiroz, artesã. Foto: Wagner Almeida / Diário do Pará.

Entre os produtos confeccionados por Silvane estão ímãs, caixas, porta-chaves e chaveiros, muitos deles com representações de símbolos conhecidos de Belém e do próprio Ver-o-Peso, como o Mercado de Peixe, a Basílica e Nossa Senhora de Nazaré.

As peças são produzidas com diferentes tipos de madeira, entre elas marupá da Amazônia, andiroba e sucupira.

Matéria-prima da região

O processo de produção também envolve elementos utilizados para dar cor e acabamento às peças. Para o tingimento, a artesã utiliza pigmentos de açaí e pau-brasil.

Dessa maneira, além da técnica empregada na elaboração dos desenhos, os materiais utilizados ajudam a reforçar a identidade regional dos produtos comercializados.

Para a artesã, cada peça produzida carrega parte de sua trajetória profissional e pessoal. O artesanato também representa a principal fonte de renda da família.

“É com a venda deste trabalho que tiro toda a renda que preciso para cumprir com meus compromissos. Foi com este trabalho que eduquei meus três filhos”, ressalta Queiroz.

Quanto custa o artesanato?

Os preços variam de acordo com o tipo de produto e o trabalho empregado na confecção.

  • Ímãs: a partir de R$ 5
  • Porta-chaves: a partir de R$ 35

Entre os itens produzidos pela artesã também estão caixas confeccionadas com a técnica de marchetaria, que utiliza diferentes materiais e padrões para compor as peças.

Além da importância financeira, o artesanato possui um significado afetivo.

Trabalho feito em família

O trabalho é realizado ao lado do marido, transformando a atividade profissional em uma tarefa compartilhada pela família.

“Eu sinto muito orgulho deste trabalho. É feito com matéria-prima aqui da nossa terra. Cada peça tem um apego especial porque foi feita com muita dedicação. Além do valor econômico, tem valor sentimental porque faço as peças juntamente com meu marido. Somos uma dupla que faz questão de valorizar o artesanato regional”, afirma.

Cachaça de jambu ganha espaço

Entre os produtos que também se destacam no complexo está a cachaça de jambu, bebida característica da região e procurada por moradores e visitantes.

A comerciante Yorrany Leal atua nesse segmento desde 2015. No início, a atividade funcionava de maneira simples: a venda de cachaça de jambu artesanal era feita em uma mesa instalada no Ver-o-Peso.

Com o passar dos anos, o pequeno comércio cresceu e deu lugar a um box que reúne uma variedade de produtos.

Além da cachaça de jambu, o espaço comercializa itens produzidos artesanalmente, como geleias, pimentas e licores.

“Começamos bem pequenos e hoje temos a produção própria de vários produtos”, pontua Leal.

Negócio continuou após a perda do marido

O negócio foi iniciado por Yorrany ao lado do marido. Em 2017, porém, ela perdeu o companheiro.

Após a morte dele, decidiu continuar à frente da atividade e, ao longo dos anos, ampliou seus conhecimentos sobre a produção artesanal dos itens comercializados.

A cachaça de jambu continua entre os produtos de maior procura no box. A garrafa de um litro é vendida por R$ 30.

Leal comenta que alguns períodos do ano registram aumento nas vendas, principalmente outubro e dezembro, meses associados ao Círio de Nazaré e às festas de fim de ano.

Para ela, manter o negócio representa também uma forma de autonomia e valorização do próprio trabalho.

“É gratificante ganhar minha renda com o que faço”, afirma.

Ervas e essências fazem parte da tradição

Outro segmento tradicional encontrado no Ver-o-Peso é o comércio de ervas, essências e produtos naturais.

Em pequenos vidros, as essências são comercializadas com nomes populares e curiosos, como “afasta homem liso”, “chora nos meus pés” e “chama emprego”. Cada unidade pode ser encontrada por R$ 10.

A erveira Iracilda Oliveira, 68, trabalha há 45 anos com a venda de ervas, essências e produtos naturais.

Ao longo de décadas de atuação, acumulou experiência e conhecimento sobre os produtos comercializados e se tornou uma referência nesse segmento dentro do Ver-o-Peso.

Saberes populares mantidos no Ver-o-Peso

Os ingredientes comercializados no box chegam de diferentes regiões do país. Entre os estados citados pela erveira estão Piauí e Ceará, evidenciando a diversidade de procedência dos produtos encontrados no espaço.

Para Oliveira, entretanto, o trabalho representa mais do que a comercialização de ervas e produtos naturais. O conhecimento adquirido ao longo dos anos está relacionado aos saberes populares e à própria tradição do Ver-o-Peso.

“É um conhecimento que mantemos ao longo dos anos e que é bastante característico da nossa região”, afirma.

“Eu desconhecia para que servia tal erva ou os banhos. Aprendi com o tempo e estou até hoje aqui. É meu trabalho, minha segunda casa. Daqui tirei meu sustento, principalmente com as vendas das essências”, conclui.

Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/entre-madeiras-ervas-e-jambu-a-tradicao-paraense-no-ver-o-peso/