História do prédio do Arsenal de Marinha em Belém com fotos

O prédio do antigo Arsenal de Marinha do Pará completa 150 anos como testemunho de uma trajetória naval iniciada ainda no século XVIII. Antes de abrigar o Comando do 4º Distrito Naval, o edifício integrou uma estrutura dedicada à construção, à manutenção e ao reparo de embarcações militares em Belém.

Essa história remonta a 1729, quando oficinas e telheiros foram erguidos diante do Palácio do Governador e Capitão General do Estado do Maranhão e Grão-Pará. Conhecido como Casa das Canoas, o conjunto atendia às necessidades de defesa de uma região localizada na desembocadura do Rio Amazonas.

A origem na Casa das Canoas

As oficinas da Casa das Canoas construíam e consertavam as embarcações de guerra. Enquanto isso, os telheiros armazenavam as munições de antecarga utilizadas nos canhões.

A instalação estava diretamente relacionada à posição estratégica do Pará. Considerada uma porta de entrada para o interior, a região enfrentava tentativas de invasões piratas. Por isso, as canoas de guerra tornaram-se fundamentais para a defesa local e precisavam de reparos constantes.

Enfermaria, ferraria e fundição do Arsenal de Marinha do Pará, em Belém. Foto: Reprodução/Biblioteca Nacional

Em 1761, as oficinas seguiram para o Convento de São Boaventura. Atualmente, uma dependência da sede do Comando do 4º Distrito Naval ocupa essa área. Com a transferência, o estabelecimento recebeu o nome de Arsenal de Marinha do Pará e ampliou suas atribuições.

Arsenal construía navios de guerra

Além das canoas usadas na defesa da região, o Arsenal passou a construir navios de maior porte para operar em mar aberto. Durante seu período de maior atividade, no século XIX, o estabelecimento produziu uma nau armada com 74 canhões.

Também saíram de suas oficinas cinco fragatas de 44 canhões, quatro charruas e 12 calupas artilheiras. Entre as embarcações, destacou-se a fragata Imperatriz, que atuou no Rio da Prata durante a Guerra da Cisplatina.

Na ocasião, o navio sustentou e repeliu a abordagem de 11 embarcações inimigas. Depois, o Arsenal deixou de produzir grandes navios e concentrou suas atividades na manutenção das embarcações de guerra. Posteriormente, esses navios formariam a Flotilha do Amazonas.

Parte dessa trajetória está registrada no documento histórico Arsenal de Marinha do Pará: sua origem e sua história, disponível no acervo digital de obras raras da Biblioteca Pública Arthur Vianna. Publicada em Belém, em 1945, a obra de Thoribio Lopes reúne 137 páginas e fotografias do Arsenal. O registro percorre a história da instituição desde o período colonial até a década de 1940 e ajuda a preservar a memória ligada à edificação centenária.

A obra rara Arsenal de Marinha do Pará: sua origem e sua história, publicada em 1945, está digitalizada e pode ser consultada a distância. Foto: Reprodução/Biblioteca Pública Arthur Vianna

Belém ganha uma base naval

A experiência do primeiro conflito mundial levou o Estado Maior da Armada a estudar novas formas de proteção da costa brasileira. O planejamento também considerou a segurança das linhas de comunicação marítima e apontou a necessidade de instalar bases navais no litoral.

Uma dessas unidades deveria funcionar na costa paraense. Em 7 de julho de 1922, um decreto do presidente da República criou a base. Contudo, os estudos para definir sua localização começaram somente oito anos depois, em 1930.

O porto de Belém foi escolhido por características semelhantes às que motivaram a criação da Casa das Canoas. A posição da cidade favorecia o apoio à força naval encarregada de defender o litoral Norte e a Bacia Amazônica.

Porém, as dificuldades econômicas e financeiras agravadas pela Revolução de 1930 impediram a implantação imediata. Por volta de 1940, o Serviço de Navegação na Amazônia e Administração do Porto do Pará, o SNAPP, modernizou suas oficinas. Além disso, a autarquia começou a escavar um dique seco em Val de Cães.

O projeto para Val de Cães

Em 1941, o Estado Maior da Armada voltou a analisar a implantação da base naval em Belém. O desenvolvimento do SNAPP e a possibilidade de seus navios apoiarem a Marinha do Brasil entraram na avaliação.

Em seguida, o órgão propôs ao Ministério da Marinha a extinção do Arsenal e a transferência do acervo para o SNAPP. A entrada do Brasil na guerra e as implicações do conflito para a Marinha, entretanto, adiaram uma decisão.

O Ministério da Marinha não aceitou a proposta. Em 23 de março de 1948, o Aviso 0830 determinou o planejamento da Base Naval de Val de Cães. O documento recomendava a elaboração do projeto com “visão larga e confiança no futuro do Brasil”.

O governo também autorizou a transferência da área do SNAPP para a futura base. A medida incluiu o acervo existente e o dique que estava em construção. Assim, surgiu um plano que previa uma estrutura de grandes proporções.

A base ocuparia 4.506.000 metros quadrados e reuniria 28 mil pessoas após a conclusão. O projeto permitiria apoiar quatro unidades de 12 mil toneladas, seis de 3 mil toneladas e dez embarcações fluviais de mil toneladas.

Oficinas deixam o antigo prédio

A Marinha concluiu a transferência dos terrenos cedidos pelo SNAPP em 23 de dezembro de 1949. No mesmo processo, as oficinas do Arsenal de Marinha do Pará seguiram para Val de Cães.

As oficinas do Arsenal de Marinha do Pará foram transferidas para a Base Naval de Val de Cães em 1949. Foto: Reprodução

O Aviso nº 968 do ministro da Marinha oficializou a criação da Base Naval de Val de Cães. O documento saiu no Boletim do Ministério da Marinha nº 19, de 1950.

O aviso estabeleceu 25 de julho de 1949 como o marco de criação da unidade. Naquela data, o primeiro comandante da base tomou posse.

Com a transferência das oficinas, o antigo edifício do Arsenal assumiu outra função. O imóvel passou a abrigar o Comando do 4º Distrito Naval da Marinha, criado em 1933.

Após a transferência das oficinas, o antigo edifício do Arsenal passou a abrigar o Comando do 4º Distrito Naval da Marinha, criado em 1933. Foto: Reprodução

A construção preserva, assim, uma trajetória iniciada com a Casa das Canoas. Ao completar 150 anos, o prédio mantém sua história ligada à posição estratégica de Belém na defesa do litoral Norte e da Amazônia.

Celebração do sesquicentenário

Para celebrar os 150 anos do Prédio do Arsenal de Marinha do Pará, o Comando do 4º Distrito Naval realizará uma cerimônia no dia 7 de outubro de 2026, às 19h, na Praça do Arsenal, localizada na rua Carneiro da Rocha, no bairro da Cidade Velha, em Belém. A programação terá a participação da Amazônia Jazz Band e de Mona Vilardo.

Fonte: https://diariodopara.com.br/cotidiano/historia-predio-arsenal-marinha-para/