Fotos históricas: Theatro da Paz e Praça da República em Belém

O Theatro da Paz e a Praça da República guardam parte da memória artística construída em Belém durante a economia da borracha. Enquanto a casa de espetáculos recebia companhias, músicos e exposições de importantes pintores, o espaço público ao redor reunia apresentações, encontros e diferentes formas de convivência.

O cenário econômico favorável atraiu artistas e estimulou o financiamento das artes na capital paraense. Algumas das obras produzidas ou adquiridas naquele período permanecem em museus, onde ajudam a contar a história da cidade.

Um teatro dedicado às artes

A aproximação da área com as artes ganhou força ainda durante o Império, sobretudo com a construção do Theatro da Paz. Erguido entre 1869 e 1874 e inaugurado em 15 de fevereiro de 1878, o edifício surgiu para oferecer a Belém uma casa capaz de receber grandes espetáculos.

A capital enriquecia com o comércio do látex, mas ainda não possuía um teatro de grande porte voltado principalmente ao gênero lírico. Inspirado em modelos europeus, o edifício tornou-se a primeira grande casa de espetáculos construída na Amazônia.

A inauguração esteve entre os acontecimentos mais concorridos de 1878. Na ocasião, a companhia dirigida pelo pernambucano Vicente Pontes de Oliveira apresentou a peça As duas órfãs. Nas décadas seguintes, o palco recebeu produções líricas, companhias dramáticas e artistas que circulavam por cidades brasileiras e estrangeiras.

A movimentação cultural também alcançava os jornais. A imprensa divulgava as temporadas, acompanhava os preparativos e publicava avaliações sobre artistas e espetáculos. O escritor paraense José Veríssimo, por exemplo, escreveu crônicas teatrais nas quais discutia as encenações e as mudanças estéticas que chegavam aos palcos locais.

Exposições ocupam o foyer

O Theatro da Paz não se limitou às apresentações realizadas no palco. Durante a Belle Époque, o foyer também se tornou um dos lugares procurados por artistas que desejavam expor seus trabalhos em Belém.

O professor de História do Instituto Federal do Pará (IFPA), Nonato de Castro, explica que pintores, escultores e músicos circularam pela capital paraense naquele período. Alguns chegaram por iniciativa própria, enquanto outros foram levados à cidade.

“Carlos Gomes veio para dirigir o Conservatório de música, no Governo de Lauro Sodré. Além disso, pintores, escultores, músicos, estavam em circulação pela cidade, sendo contratados ou expondo os seus trabalhos, sempre buscando os melhores lugares para expor, como o foyer do Teatro da Paz”, destaca o professor.

Em 1901, Carlos Custódio de Azevedo realizou a primeira grande exposição de arte no foyer do Theatro da Paz, conforme Nonato de Castro. Outros artistas também apresentaram trabalhos no local, entre eles Antônio Parreiras, Theodoro Braga, Aurélio de Figueiredo, Joseph Casse, Benedito Calixto e Fernandez Machado.

Exposição de Carlos Custódio de Azevedo no Theatro da Paz, registrada em cartão-postal. Foto: Reprodução/Álbum Belém da Saudade

O álbum Belém da Saudade: A memória de Belém no início do século em cartões-postais documenta esse uso do espaço. Ao apresentar um postal de uma exposição de Carlos Custódio de Azevedo, a publicação registra que “o foyer do teatro foi muitas vezes utilizado para exposições dos mais significativos pintores do país”.

Obras permanecem em Belém

A relação entre o Theatro da Paz e as artes plásticas não foi pontual. Além de receber as exposições, a cidade incorporou parte dos trabalhos apresentados naquele período a acervos públicos e particulares.

“As obras desses artistas foram adquiridas, tanto pela administração, quanto por particulares. Boa parte dessas obras estão nos museus do Estado do Pará, como a tela ‘Conquista do Amazonas’, que foi encomendada por Augusto Montenegro ao pintor Antônio Parreiras. Também podemos encontrar as obras ‘Doloroso Transe’ de João Batista da Costa. Na pinacoteca municipal vários trabalhos estão expostos para que o público possa conhecer um pouco da nossa história”, afirma Nonato de Castro.

A pinacoteca municipal surgiu durante a administração do intendente Antônio Lemos, conhecida pelas transformações urbanas e pelo embelezamento promovido em Belém. O espaço reuniu obras de artistas plásticos que passaram pela cidade para apresentar seus trabalhos, como Antônio Parreiras e Benedito Calixto.

A decoração do próprio Theatro da Paz também preserva parte dessa produção artística. Durante a primeira grande reforma, realizada entre 1887 e 1890, o edifício recebeu trabalhos do italiano Domenico de Angelis e do pernambucano Chrispim do Amaral.

Pano de Boca do Theatro da Paz em registro do documento O Município de Belém – 1906. Foto: Reprodução/Acervo de Obras Raras da Biblioteca Pública Arthur Vianna

De Angelis produziu a alegoria do teto da sala de espetáculos. Chrispim do Amaral assinou o pano de boca conhecido como Alegoria da República. Mais tarde, entre 1904 e 1905, outra remodelação deu ao teatro parte das características luxuosas preservadas até hoje.

A praça ganha novos usos

O entorno do Theatro da Paz também participou da intensa vida cultural desenvolvida em Belém. Ainda no século XIX, a área da atual Praça da República já abrigava parte da movimentação artística que ganhou força durante a Belle Époque.

A história do local, no entanto, começou antes. Segundo a historiografia, em meados do século XVIII havia um depósito de pólvora e armamentos na área hoje ocupada pela praça. A escolha se justificava pela distância em relação ao núcleo habitacional de Belém durante o período colonial. Dessa antiga função surgiu o nome Largo da Pólvora.

A denominação atual foi adotada somente no século seguinte. Antes disso, o espaço também recebeu o nome de Praça Dom Pedro II.

No auge da economia da borracha, a administração do intendente Antônio Lemos promoveu intervenções que modificaram a paisagem do lugar. A Praça da República recebeu jardins, caminhos, lagos, esculturas, pavilhões e coretos, alguns preservados até hoje.

As mudanças não cumpriam apenas uma função decorativa. Os novos elementos criavam ambientes destinados aos passeios, encontros e apresentações, ampliando o uso artístico e cultural do espaço público.

Música além do teatro

Os coretos ajudaram a levar a música para fora do Theatro da Paz. As bandas podiam se apresentar ao ar livre, enquanto o público ocupava a Praça da República para acompanhar as apresentações e participar da movimentação criada ao redor da casa de espetáculos.

Os dois espaços passaram a oferecer experiências complementares. O teatro concentrava grandes produções, companhias dramáticas e temporadas formais. A praça, por sua vez, aproximava a música e outras manifestações culturais do cotidiano da população.

A construção do Theatro da Paz também alterou a dinâmica urbana do entorno. Segundo estudo publicado nos Anais do Museu Paulista, o edifício motivou melhorias na área, ampliou a oferta de transporte por bondes e valorizou os imóveis próximos.

Morar nas imediações passou a representar prestígio. Ao mesmo tempo, a circulação provocada pelos espetáculos transformou a praça em um novo centro de sociabilidade em Belém.

Frequentar o teatro significava assistir a óperas, dramas, melodramas e comédias, mas também participar de um ritual social. As roupas, a chegada das famílias, os encontros nos intervalos e os comentários posteriores integravam a experiência.

A Praça da República consolidou-se como espaço de sociabilidade, reunindo apresentações artísticas, passeios e encontros no entorno do Theatro da Paz. Foto: Felipe Augusto Fidanza/Acervo de Obras Raras da Biblioteca Pública Arthur Vianna

Os camarotes e outros setores internos reproduziam as hierarquias daquela sociedade. Do lado de fora, a Praça da República recebia espectadores, trabalhadores, vendedores e curiosos, criando formas distintas de participação na vida cultural da cidade.

Embora o projeto do teatro tivesse como público principal as parcelas consideradas mais instruídas e abastadas da população, documentos e notícias da época registram usos mais diversos do espaço. A efervescência artística convivia, assim, com as desigualdades de uma cidade transformada pela riqueza da borracha.

Artistas chegam à cidade

O cenário econômico favorável ajudou a sustentar essa movimentação. De acordo com Nonato de Castro, o mecenato, prática de patrocínio e incentivo às artes, ganhou espaço em Belém, especialmente por meio das administrações municipal e estadual.

“Não se pode esquecer que o cenário econômico era favorável. O mecenato virou moda em Belém, em especial, pela administração pública, tanto municipal, quanto estadual”, afirma o professor.

Nesse ambiente, Carlos Gomes chegou à cidade para dirigir o Conservatório de Música durante o governo de Lauro Sodré. Pintores, escultores e outros músicos também encontraram espaços para trabalhar e apresentar suas produções.

Carlos Gomes veio a Belém para dirigir o Conservatório de Música durante o governo de Lauro Sodré. Foto: Biblioteca Nacional

Além do Theatro da Paz, artistas expunham no Palace Theatre, instalado no Grande Hotel, e na Biblioteca Pública Arthur Vianna. Ainda assim, a localização e a importância da casa de espetáculos fizeram do foyer um dos principais pontos da circulação artística daquele período.

O conjunto formado pelo Theatro da Paz e pela Praça da República tornou-se, portanto, um dos centros da vida cultural de Belém. Por esses espaços passaram artistas, músicos, companhias, intelectuais, espectadores, trabalhadores e pessoas atraídas pela movimentação dentro e fora do teatro.

Parte daquela história continua visível nos acervos públicos, nas pinturas incorporadas ao edifício, nos jardins, nos coretos e nos pavilhões. Mais do que símbolos da modernização urbana, o Theatro da Paz e a Praça da República preservam a memória de um período no qual a riqueza da borracha também financiou e movimentou as artes em Belém.

Fonte: https://diariodopara.com.br/cotidiano/theatro-da-paz-praca-da-republica-artes-belem/