O novo episódio da série jornalística Revelando, lançado nesta quinta-feira (22) e apresentado pelo MC Cabelinho, mostra que Flávio Bolsonaro (PL) nunca precisou trabalhar de verdade. Em “Flavinho de Papai”, o artista percorre a vida do candidato à Presidência e encontra uma carreira inteira sustentada por dinheiro público e pelo sobrenome.
A mamata começa com Flávio aos 19 anos, com um cargo remunerado em Brasília arranjado pelo pai, Jair Bolsonaro. Entre dezembro de 2000 e junho de 2002, Flávio recebia por esse posto na capital federal enquanto cursava faculdade presencial e fazia estágio no Rio de Janeiro.
O episódio também mira o patrimônio. Cabelinho lembra que o senador mora numa mansão com oito vagas na garagem e diz que ele “ficou rico sem mostrar serviço e sem comprovar de onde vem tanta grana”. O vídeo ainda trata da franquia de chocolates que Flávio teve na Barra da Tijuca.
“Flavinho nasceu com tudo na mão, viveu na aba do papai, e agora quer te convencer de que o problema da sua vida é o governo”, resume Cabelinho.
Assista:
CARTEIRA DE TRABALHO DE FLAVINHO
Cabelinho abre o episódio com a própria carteira de trabalho: limpou oficina, foi estoquista em loja de shopping e vendeu papel de presente nas ruas de Copacabana. Criado no Pavão-Pavãozinho e no Cantagalo, também trabalhou como montador de persianas antes de fazer sucesso na música.
Flávio nunca precisou disso. Filho mais velho de Jair Bolsonaro, que entrou na política em 1988 como vereador no Rio de Janeiro, ele cresceu dentro da vida pública e passou dela direto para a folha de pagamento do Estado.
“Eu quero saber uma coisa só e vou passar o episódio inteiro atrás da resposta: o que tem na carteira de trabalho desse cara? Será que esse cara merece estar onde está?”, pergunta Cabelinho.
A resposta vem acompanhada da acusação que persegue Flávio desde então. “Flávio Bolsonaro, acusado de ser funcionário fantasma no gabinete de Jair aos 19 anos e que sempre viveu às custas do pai, quer cortar justamente aquilo que sempre ajudou milhões de brasileiros a subir na vida: aposentadoria, saúde, educação, Bolsa Família e direitos trabalhistas”, diz o episódio.
A contradição está no centro da campanha de Flávio, que questiona o tamanho do Estado e promete um corte amplo de gastos públicos, inclusive em saúde e educação. O vídeo cita reportagem da Folha de S.Paulo segundo a qual a equipe econômica do senador estuda um ajuste de cerca de R$ 250 bilhões. Para Cabelinho, o candidato “tem um plano econômico que pode cortar a verba e os serviços que ajudam a sua mãe, a sua avó e a tropa que tá na correria”. E quem propõe o corte é “o cara que só teve emprego na política, que ganha dinheiro público desde os 19 anos” e agora “vem falar que o governo só atrapalha, que o governo não quer saber de você”.
O episódio desmonta a ideia de que sucesso depende só de esforço individual. Dinheiro, sobrenome, rede de contatos e apoio familiar abriram para Flávio portas que a maioria dos trabalhadores nunca vai ver. Para quem precisa conciliar emprego, estudo e contas no fim do mês, são justamente saúde, educação e assistência social, os serviços na mira do candidato, que tornam possível melhorar de vida.
DERRUBADO NA RETA FINAL
Horas depois da estreia, a três dias do segundo turno, a Meta tirou o episódio do Instagram. A empresa se apoiou numa resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre conteúdos feitos com inteligência artificial. É a segunda vez em um mês que a Meta derruba conteúdo da série que atinge Flávio. E a regra usada vem de uma Corte presidida por Kassio Nunes Marques, ministro que chegou ao Supremo pelas mãos do próprio Flávio e que, no comando do TSE, coleciona decisões a favor do candidato, a ponto de colegas de tribunal falarem em engajamento dele na campanha do PL.
“Tropa, derrubaram meu reels (Revelando) mas o episódio continua no YouTube…. no link do story vocês consegue ver! ql foi @meta?”, escreveu Cabelinho no Instagram.
A Meta disse ao g1 que cumpria a resolução nº 23.610 do TSE, que restringe conteúdos gerados ou alterados por IA nas 72 horas antes da votação, no dia da eleição e no dia seguinte. A empresa alegou que lê automaticamente um sinal que aplicativos de edição gravam no arquivo e que os vídeos marcados ficam indisponíveis no Brasil até segunda-feira (26), às 23h59. Ou seja: o episódio que questiona o candidato do PL some da maior rede de vídeos curtos do país exatamente nos dias em que o eleitor decide o voto.
A equipe do Revelando nega o uso de IA e afirma que usou imagens ilustrativas licenciadas. O aviso exibido pelo Instagram sequer informa em qual hipótese específica o vídeo teria sido enquadrado. E a explicação da Meta não resiste ao que aconteceu nas horas seguintes: por volta das 14h, o Revelando publicou uma nova postagem sobre o caso, que segue no ar. Às 14h50, Cabelinho publicou um novo vídeo, em parceria com o portal. “Voltei, tropa”, escreveu.
“Não tem IA nenhuma, isso é um boicote”, disse Gregório Duvivier, em vídeo divulgado pela série. Fábio Porchat lembrou que o filme já é conhecido: “E não é que a Meta derrubou mais um vídeo do Revelando? A Meta tá que tá”.
O PADRÃO CONTRA O REVELANDO
Em setembro, a Meta derrubou a conta inteira do Revelando no Instagram logo depois da estreia de “Grandes Igrejas, Master Negócios”, apresentado por Porchat. O episódio mostrava as conexões entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha, Flávio Bolsonaro e outros políticos. “A quem interessa que fatos notórios e de interesse público não cheguem às pessoas?”, perguntou o Revelando na época. O perfil só voltou depois de forte mobilização, e a Meta pediu desculpas.
Nas duas vezes, o alvo da série era Flávio Bolsonaro.
A META E SEU MAIOR CLIENTE
A derrubada acontece dois dias depois de a Meta ter de se explicar ao TSE justamente sobre tratamento desigual entre as campanhas.
Em 15 de outubro, o tribunal proibiu a empresa de reduzir a distribuição ou restringir a recomendação e a busca de conteúdos de qualquer um dos candidatos do segundo turno. A ordem veio a pedido da campanha de Lula (PT), que acusou a plataforma de falhar de forma reiterada na entrega de suas publicações. A ação mostrou ainda que a ferramenta de inteligência artificial da Meta gerava imagens relacionadas a Flávio, mas se recusava a fazer o mesmo com Lula.
Na segunda-feira (19), o ministro Marco Aurélio Bellizze deu 24 horas para a Meta explicar o que tinha feito. Na terça (20), a empresa garantiu que trata as duas candidaturas “de forma igual e não discriminatória”. Na quinta, derrubou o episódio que expõe Flávio.
Flávio é também quem mais paga à empresa. O candidato do PL declarou R$ 7,45 milhões em gastos com a Meta, quase o triplo dos R$ 2,59 milhões informados por Lula.
O PRESIDENTE DO TSE E SEU PADRINHO
A regra invocada pela Meta é do TSE, presidido por Kassio Nunes Marques desde maio. A ligação dele com Flávio vem de antes da toga no Supremo. Em 2020, segundo aliados de Jair Bolsonaro, foi Flávio quem sugeriu ao pai o nome de Kassio, então juiz federal em campanha por uma vaga no STJ. Depois de apresentado a Flávio, o magistrado se encontrou com o senador ao menos mais duas vezes naquele período, segundo relatos de aliados.
No comando da Justiça Eleitoral, Kassio retribuiu com uma sequência de decisões que beneficiaram o candidato. Em junho, censurou uma pesquisa Atlas/Bloomberg que mostrava queda de seis pontos de Flávio, acatando o argumento do PL de que houve direcionamento negativo contra o senador. Em julho, atendeu à campanha de Flávio e mandou a Meta preservar os dados de perfis apontados como responsáveis por impulsionar conteúdos contra ele. No mesmo período, a pedido do PL, mandou apagar um vídeo que ligava Flávio ao PCC, em nome da honra do candidato, e depois manteve no ar um vídeo do próprio Flávio associando a facção a Lula, tratado então como crítica política.
Em agosto, o plenário do TSE derrubou por 5 a 2 uma decisão individual dele que negava a retirada de um vídeo de Flávio com ataques a Lula. Só André Mendonça votou com Kassio. Em outubro, Kassio censurou o canal “Exército do Lula” sem indícios de que as fake news apontadas pela campanha de Flávio circulassem ali, como mostrou a Folha de S.Paulo, e a área técnica do próprio TSE não encontrou o conteúdo citado.
O corregedor-geral eleitoral e outros dois ministros avaliam, segundo auxiliares, que Kassio atropelou a competência da Corregedoria para beneficiar Flávio e classificam a conduta como abuso do poder de polícia do TSE. Reservadamente, ministros de uma ala do tribunal já falam em indícios de engajamento do presidente da Corte na campanha do PL.
Um juiz eleitoral tem o dever de arbitrar a disputa sem favorecer nenhum lado. Quando o presidente do tribunal que comanda a eleição acumula decisões a favor do candidato que o colocou no Supremo, e uma plataforma que tem esse candidato como maior cliente usa regra desse mesmo tribunal para tirar do ar, na reta final, o conteúdo que o expõe, o eleitor tem motivo para desconfiar de quem está segurando o apito.
O INCÔMODO TEM TAMANHO
O Revelando é uma iniciativa da equipe do podcast Calma Urgente, com apoio do ICL, Mídia Ninja, 342 Artes e Intercept Brasil. “Flavinho de Papai” é o oitavo episódio de uma série que estreou em setembro com “Mulheres pobres podem ter filhos?”, apresentado por Samara Felippo, sobre a esterilização de mulheres sem consentimento, e que já chegou ao Top 1 e ao Top 2 do YouTube mais de uma vez.
Só o teaser de “República dos Laranjas”, com Porchat, publicado na terça-feira (20), passou de 28 milhões de visualizações somando as plataformas; o episódio tem mais de 5 milhões no YouTube. “Pátria Submissa”, em que Wagner Moura expôs um complô contra o Brasil e os riscos da subserviência da família Bolsonaro aos Estados Unidos, passou de 6 milhões no YouTube, e um único corte no Instagram chegou a 50 milhões.
É esse alcance que a derrubada corta às vésperas da votação.
“Flavinho de Papai” segue no ar no YouTube, nos canais do Revelando, do ICL Notícias e de outros parceiros do projeto.
Fonte: https://horadopovo.com.br/revelando-meta-derruba-flavinho-de-papai-e-o-episodio-do-mc-cabelinho-explode/

