Tarcísio de Freitas, candidato do bolsonarismo à reeleição em São Paulo, mente mais uma vez em sua campanha eleitoral. Desta vez, a propaganda é dirigida às mulheres, grupo social que há anos é alvo de ataques e ofensas de integrantes do bolsonarismo. Para vender sua candidatura, o governador tenta apresentar seu governo como defensor das mulheres, mas os dados sobre feminicídio, orçamento e atendimento especializado mostram uma realidade muito diferente da exibida na mídia.
A mentira aparece de forma explícita na propaganda sobre as tornozeleiras eletrônicas. “Em São Paulo, todo agressor de mulher é monitorado com tornozeleira”, afirma Tarcísio na peça eleitoral. A afirmação não corresponde à realidade. Levantamento publicado neste sábado (26) mostra que menos de 0,5% dos agressores de mulheres no Estado são monitorados por tornozeleira eletrônica. O equipamento não é colocado automaticamente em todo agressor: a medida depende de determinação judicial.
A própria campanha de Tarcísio reconheceu a limitação. Em resposta ao levantamento, afirmou que “medida protetiva não significa, automaticamente, uso de tornozeleira” e que cabe à Justiça determinar o monitoramento. Ou seja, a propaganda apresenta como regra geral uma medida que, na prática, alcança uma parcela inferior a 1% dos agressores.
Enquanto Tarcísio transforma a tornozeleira em peça de propaganda eleitoral, a violência contra as mulheres continua crescendo em São Paulo. No primeiro semestre de 2026, foram registradas 141 ocorrências de feminicídio, contra 128 no mesmo período de 2025. Como uma dessas ocorrências teve duas vítimas, 142 mulheres foram assassinadas. Foi o pior resultado para um primeiro semestre desde o início da série histórica, em 2018.
O quadro também é grave quando se observa o período mais longo. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, São Paulo passou de 221 vítimas de feminicídio em 2023 para 253 em 2024 e 270 em 2025. O Estado terminou 2025 com o maior número de feminicídios da série histórica.
É nesse cenário que Tarcísio tenta apresentar sua gestão como exemplo de proteção às mulheres. A propaganda, porém, deixa de fora as condições concretas da rede de atendimento. Levantamento divulgado em setembro apontou que somente 20 das 144 Delegacias de Defesa da Mulher existentes no Estado funcionavam 24 horas. Entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, essas unidades registraram 301.916 boletins de ocorrência, uma média de mais de 20 registros por hora.
A situação é ainda mais grave para mulheres que vivem em regiões sem uma unidade especializada. Parelheiros, no extremo sul da capital, por exemplo, não possui uma Delegacia de Defesa da Mulher. A unidade mais próxima fica em Santo Amaro.
A insuficiência da rede vem acompanhada de uma redução de recursos. Para 2026, o governo Tarcísio encaminhou uma proposta orçamentária com R$ 16,5 milhões para a Secretaria de Políticas para as Mulheres, contra R$ 36,2 milhões previstos na dotação inicial de 2025, uma redução de 54,4%. Na ação específica de enfrentamento à violência contra a mulher, a previsão caiu de R$ 10 milhões para R$ 1,64 milhão, redução de 83,6%.
Foi justamente essa realidade que a candidata a deputada estadual Keila Pereira (PCdoB) denunciou durante a campanha. Em vídeo gravado em Parelheiros, ela chamou atenção para a ausência de uma DDM na região e para a redução dos recursos destinados ao enfrentamento da violência contra as mulheres.
A resposta da campanha de Tarcísio foi tentar impedir a circulação da denúncia. A coligação que apoia o governador acionou a Justiça Eleitoral para retirar o vídeo de Keila das redes sociais, alegando propaganda negativa contra o candidato. A Justiça, entretanto, negou o pedido de retirada imediata. A juíza Claudia Fonseca Fanucchi considerou o conteúdo no contexto de uma manifestação política relacionada à crítica de políticas públicas e à proteção das mulheres.
A tentativa de silenciar a denúncia contrasta com a liberdade com que circulam, no campo bolsonarista, declarações que atacam as próprias mulheres. Em junho, Paulo Figueiredo, apoiador de Flávio Bolsonaro e identificado com o grupo político da família Bolsonaro, afirmou que “mulher vota muito mal”, especialmente as solteiras. Segundo ele, mulheres casadas tenderiam a acompanhar o voto dos maridos, enquanto as solteiras teriam comportamento diferente. Em seguida, reafirmou que continuaria dizendo que as mulheres votam mal.
As declarações de Figueiredo não se limitaram ao direito de voto das mulheres. O influenciador também atacou jornalistas com ofensas misóginas. Em julho, chamou jornalistas da GloboNews de “putas” e “prostitutas do Lula” e dirigiu uma ofensa sexual à jornalista Miriam Leitão. As declarações foram repudiadas por entidades como a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal.
O comportamento reproduz um padrão que marcou o bolsonarismo ao longo dos últimos anos. Jair Bolsonaro acumulou declarações ofensivas contra mulheres e ataques contra jornalistas. Em um dos episódios mais conhecidos, foi condenado pela Justiça paulista por ofensas à jornalista Patrícia Campos Mello, em um caso que também desencadeou uma onda de ataques sexistas contra a repórter.
Fonte: https://horadopovo.com.br/tarcisio-e-derrite-mentem-sobre-monitorar-quem-bate-em-mulher-so-05-usam-tornozeleira/


