Blip cresce 30% no Brasil e mira expansão internacional enquanto avança em IA

A inteligência artificial (IA) generativa encurtou os ciclos de inovação e colocou empresas de praticamente todos os setores em uma corrida para experimentar a tecnologia. Para Roberto Oliveira, CEO e cofundador da Blip, o principal desafio corporativo já não está em adotar IA, mas em transformar os experimentos em resultados concretos para o negócio.

Em entrevista ao IT Forum durante o Blip.id 2026, realizado nesta quinta-feira (3) em São Paulo, o executivo afirma que o excesso de atenção sobre a tecnologia tem levado organizações a perder de vista o problema que pretendem resolver.

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“Por causa do hype, hoje as pessoas esquecem de olhar o resultado e ficam falando da tecnologia pela tecnologia. Tecnologia é meio”, diz Oliveira. “Antes de começar qualquer projeto, é necessário ter a visão muito clara do objetivo.”

A discussão acontece em um momento de expansão da própria Blip. Segundo Oliveira, a companhia já ultrapassou R$ 1 bilhão em receita, cresce cerca de 30% no mercado brasileiro e está dobrando sua operação internacional.

Além do Brasil, a empresa mantém escritórios na Cidade do México, a partir de onde atende a América Latina, e em Madri, na Espanha, que serve como base para a expansão europeia. Uma entrada no Oriente Médio chegou a ser considerada, segundo o CEO, mas os planos foram postergados diante dos conflitos na região. “Por enquanto, ainda queremos consolidar mais a América Latina e a Europa para depois pensar em outros continentes”, explica.

O problema não é experimentar IA

A tese defendida por Oliveira encontra respaldo em um dos estudos apresentados durante o evento. Desenvolvido pela Blip em parceria com a WGSN, o relatório Futuros Conversacionais 2027 e 2028 aponta uma diferença significativa entre adoção e geração de valor com inteligência artificial.

Dados reunidos no levantamento, a partir de estudos do MIT e da Deloitte, indicam que 90% das organizações exploram ferramentas de IA, mas somente 20% chegam a realizar pilotos práticos e apenas 5% conseguem convertê-los em ganhos no resultado financeiro (P&L). “Inovação não é só pela inovação: ela tem que entregar resultado”, diz Oliveira.

Na avaliação do executivo, a velocidade proporcionada pela IA torna mais simples desenvolver novas aplicações, mas não necessariamente facilita sua adoção em escala. “Fazer um novo aplicativo, uma nova experiência, está muito mais fácil hoje. Agora, transformar isso, fazer escalar e as pessoas usarem está muito mais difícil, porque a competição é muito maior”, afirma.

A estratégia da Blip para atacar esse problema passa pelo que a companhia chama de Contato Inteligente (Smart Contact), arquitetura que procura reunir diferentes etapas da jornada do consumidor. A proposta conecta monitoramento de interações, geração de demanda, conversação, automação e transações dentro de uma mesma estrutura.

Para Oliveira, o modelo depende menos da adoção isolada de uma nova tecnologia e mais de ciclos curtos de experimentação e aprendizado. “A bala de prata é começar. Não é a IA, é começar”.

IA começa a sair da conversa para executar ações

Essa estratégia ganhou um novo componente durante o Blip.id. A companhia anunciou uma integração com o servidor de anúncios MCP (Model Context Protocol) da Meta, que permitirá criar, gerenciar, gerar relatórios e otimizar campanhas publicitárias da Meta diretamente na plataforma da Blip por meio de linguagem natural.

Segundo a empresa, a integração permitirá conectar informações obtidas durante conversas com consumidores às estratégias de publicidade. A Blip afirma processar mais de 125 milhões de interações diariamente.

Na prática, a iniciativa aponta para uma mudança importante na IA conversacional: sistemas que antes estavam concentrados em responder ao consumidor começam a participar também da execução de processos.

Essa transformação deve avançar com a disseminação dos agentes de IA. O estudo apresentado por Blip e WGSN projeta um cenário chamado B2AI2C (Business to AI to Consumer), no qual agentes passam a intermediar parte da relação entre consumidores e empresas.

Nesse modelo, um agente pessoal poderia pesquisar produtos, comparar ofertas, negociar condições e realizar compras em nome de uma pessoa, enquanto agentes corporativos responderiam às solicitações e executariam transações.

O relatório cita estimativa da Grand View Research segundo a qual o mercado global de agentes de IA deve crescer, em média, 49,6% ao ano entre 2026 e 2033. Na América Latina, a expansão anual estimada é de 38,8%.

Para as empresas, isso significa que a preparação para a IA agêntica não deve envolver apenas novos chatbots. Interfaces de programação de aplicações (APIs), sistemas de autenticação, autorização, governança e dados estruturados passam a fazer parte da infraestrutura necessária para que máquinas consigam negociar com outras máquinas.

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Governança entra na equação

A velocidade da adoção também amplia a preocupação com governança. Oliveira argumenta que experimentar rapidamente precisa ser acompanhado pela capacidade de controlar como esses sistemas são utilizados.

Segundo dados reunidos pelo estudo da Blip e da WGSN, 83% das organizações utilizam IA, enquanto somente 25% possuem um framework considerado robusto de governança.

Na própria Blip, Oliveira cita a criação de um comitê de ética em IA como parte dessa estrutura. A empresa também possui certificação ISO 27001 e apresentou durante o evento seu relatório anual de sustentabilidade e governança. “Para conseguir transformar esse resultado, é preciso ter governança”, afirma.

A preocupação tende a ganhar peso conforme sistemas conversacionais passam a acumular mais contexto sobre consumidores e deixam de apenas recomendar ações para efetivamente executá-las.

IPO aparece no horizonte

Enquanto aposta nessa transformação do mercado, a Blip também começa a olhar para uma próxima etapa de sua própria trajetória. A companhia recebeu mais de US$ 170 milhões em aportes nas séries A e B da Warburg Pincus e, em novembro de 2024, anunciou uma rodada série C de US$ 60 milhões liderada pelo SoftBank, com participação da Microsoft.

Com investidores financeiros no quadro societário, Oliveira reconhece que uma saída precisará acontecer em algum momento. Entre as possibilidades estão uma abertura de capital, ou IPO, ou uma combinação com outro grupo. “À medida que a empresa continua crescendo e recebendo investimentos, com fundos de private equity no quadro societário, em algum momento é preciso dar uma saída para esses investidores”, afirma.

O executivo, porém, diz que nenhuma dessas alternativas é uma prioridade de curto prazo. “Mais cedo ou mais tarde, vamos passar por um IPO ou nos juntar a outro grupo, mas não é algo com que estamos preocupados agora”, diz. Antes disso, o objetivo é sustentar a expansão no Brasil e consolidar as operações internacionais.

Para Oliveira, essa trajetória também representa uma oportunidade para uma companhia brasileira ocupar espaço em um mercado de tecnologia que passa por uma de suas maiores transformações recentes. “O que queremos fazer é continuar executando nossa visão”, conclui.

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Fonte: https://itforum.com.br/blip-cresce-30-no-brasil/