Brasil confia mais que qualquer país na contenção de ataques, mas é também o mais afetado pela fadiga de alertas

O Brasil vive um paradoxo em cibersegurança. É o país mais confiante do mundo na capacidade de conter um ataque depois que um invasor já está no ambiente, mas também o que mais sofre com a fadiga de alertas na hora de detectar movimentação lateral. O retrato, revelado pela pesquisa global The Containment Gap, encomendada pela Illumio ao CyberEdge Group, foi um dos destaques de uma coletiva virtual promovida pela empresa nesta quarta-feira (10), que reuniu o criador do Zero Trust, John Kindervag, o vice-presidente de Soluções da companhia, Raghu Nandakumara, e o vice-presidente regional de vendas para a América Latina, David Singer.

O estudo ouviu 700 líderes de TI e segurança em sete países (Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Japão, Austrália e Brasil), todos em organizações com pelo menos mil funcionários. Os números colocam o Brasil em posição de destaque, para o bem e para o mal. De um lado, 94% dos entrevistados brasileiros dizem confiar na capacidade de suas empresas de conter rapidamente um ataque depois que um agente malicioso obtém o primeiro acesso, o maior índice entre os países pesquisados. Os brasileiros também lideram a confiança em outras frentes: 99% acreditam ser capazes de detectar riscos e vulnerabilidades em nuvem, 97% dizem conseguir mapear caminhos de ataque e movimentação lateral, e 98% afirmam compreender o raio de impacto potencial de um incidente.

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Do outro lado da equação está a operação do dia a dia. Quase metade (49%) dos profissionais brasileiros apontou a fadiga de alertas como o maior obstáculo para detectar movimentações laterais, a maior proporção entre todos os países do estudo. Outros 27% culpam a sobreposição de ferramentas de segurança pelo excesso de falsos positivos, também o índice mais alto da pesquisa.

Ainda assim, quando o assunto é impedir que um ataque se espalhe depois de detectado, o Brasil se sai relativamente bem: apenas 34% das organizações locais afirmam ter dificuldade para conter a movimentação lateral, contra 46% na média global, a mesma lacuna que dá nome ao estudo e que Nandakumara resumiu durante a coletiva.

“Uma das descobertas mais interessantes é que o Brasil figura entre os mercados mais fortes em confiança em cibersegurança e de resultados na resposta a violações, ao mesmo tempo em que registra alguns dos níveis mais elevados de fadiga de alertas”, afirmou Nandakumara. “Isso reflete uma realidade mais ampla do setor: as equipes de segurança não sofrem com a falta de dados ou ferramentas, mas sim com a complexidade. A resiliência depende de reduzir essa complexidade, transformando sinais ruidosos em prioridades claras e contendo as ameaças antes que elas possam se espalhar pelo ambiente.”

Os resultados operacionais confirmam essa leitura. O Brasil registrou a maior taxa de detecção baseada em ferramentas entre os países pesquisados (69%), o menor tempo médio de indisponibilidade (5,9 horas) e o menor impacto financeiro por incidente (US$ 139.651). Por outro lado, alertas perdidos ainda respondem por 28% do tempo de indisponibilidade no país, acima da média global de 21%, lembrete de que o excesso de ruído nos sistemas de monitoramento continua cobrando seu preço mesmo em um mercado com bons resultados de contenção.

A urgência do tema apareceu também em um dado apresentado por Nandakumara direto de uma pesquisa anterior da própria Illumio: 58% das vítimas de ataques de ransomware precisaram suspender suas operações. Em mais da metade dos casos, o ataque foi disruptivo a ponto de parar o negócio. Para o executivo, esse número expõe uma contradição que atravessa o mercado global de segurança. “De um lado, as organizações dizem estar muito confiantes, quase certas, de que conseguem detectar movimentação lateral não autorizada. Elas sentem que têm visibilidade suficiente para entender essa movimentação. Mas, mesmo com toda essa visibilidade, menos da metade se sente confiante de que consegue realmente fazer algo a respeito”, assinalou Nandakumara. “É exatamente essa lacuna que buscamos resolver por meio da contenção de violações.”

Na leitura de Singer, o cenário brasileiro dá ainda mais peso a esse alerta. Segundo o executivo, o Brasil está entre os dez países com maior atividade de ransomware no mundo e é frequentemente citado como o mercado mais atacado por esse tipo de ameaça na América Latina, à frente dos demais países da região. “A prevenção é essencial, mas nenhum controle preventivo consegue impedir todos os ataques”, disse Singer durante a coletiva. “A prevenção determina com que frequência os invasores conseguem entrar. A contenção determina até onde eles podem chegar e quanto dano podem causar.”

IA acelera ataque, não apenaa defesa

A pesquisa também mostrou que o Brasil lidera globalmente a priorização de investimentos em recursos de segurança baseados em inteligência artificial e machine learning, detecção e resposta mais rápidas, e investigação e triagem automatizadas. O movimento acompanha uma preocupação que atravessou toda a coletiva: a de que a IA generativa está tornando os ataques mais rápidos e mais sofisticados, encurtando a janela de reação das equipes de segurança.

Foi esse também o eixo da fala de Nandakumara sobre por que estratégias centradas exclusivamente em prevenção vêm perdendo eficácia diante da velocidade dos ataques modernos, mesmo com os gastos globais em cibersegurança projetados para chegar a US$ 377 bilhões até 2028. “A prevenção e a detecção continuam sendo essenciais, mas nenhum controle de defesa será capaz de impedir todos os ataques”, indicou o executivo. “A resiliência cibernética depende cada vez mais do que acontece depois que um invasor consegue entrar. Ao identificar e conter o movimento lateral, as organizações podem limitar o raio de impacto e evitar que um incidente isolado se transforme em uma crise para o negócio.”

Zero Trust, 16 anos depois

Criador do conceito de Zero Trust há 16 anos, quando ainda era analista da Forrester, John Kindervag usou boa parte de sua participação para reforçar que a metodologia nunca foi só sobre bloquear a entrada de invasores e sim sobre limitar o estrago quando eles já estão dentro. Sua metodologia de cinco etapas parte da definição do que a organização mais precisa proteger, para só então desenhar os controles ao redor desses ativos.

“O Zero Trust parte do princípio de que os invasores eventualmente encontrarão uma forma de entrar. A questão crítica é até onde eles conseguirão avançar uma vez que estejam dentro”, apontou Kindervag. “Ao identificar o que é mais importante e controlar o movimento lateral, as organizações podem evitar que uma violação isolada se transforme em uma interrupção generalizada dos negócios. À medida que os ataques continuam a se acelerar, a resiliência será cada vez mais definida pela capacidade de uma organização de conter o impacto de uma violação”, completou.

Operação no Brasil

A coletiva também serviu para a Illumio anunciar seus números no mercado brasileiro: a receita recorrente anual (ARR) da companhia no país cresceu 92% na comparação anual até o segundo trimestre do ano fiscal de 2027. Os setores bancário e de serviços financeiros lideraram a expansão, com salto de 727% em ARR ano a ano, seguidos pelo setor de saúde, com alta de 236%.

Para Singer, VP regional de vendas da Illumio para a América Latina, os números refletem uma mudança de postura das empresas brasileiras diante da complexidade crescente dos ambientes de TI. “As organizações brasileiras relatam um nível excepcionalmente alto de confiança em suas capacidades de cibersegurança, mas a confiança, por si só, não garante resiliência”, indicou Singer. “À medida que os ambientes se tornam mais complexos e os ataques avançam mais rapidamente, as organizações precisam reduzir o ruído, priorizar os riscos reais e conter os ataques antes que eles se espalhem. É nesse ponto que estamos observando um foco e investimentos cada vez maiores no mercado brasileiro”, encerrou.

Fonte: https://itforum.com.br/noticias/brasil-confia-contencao-ataques-afetado-fadiga-alertas/