O fim da inovação improvisada

Por Julio Cezar Piccaro,

O Brasil nunca teve tanto dinheiro disponível para inovação quanto agora.

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Apenas entre janeiro e setembro de 2025, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) aprovaram R$ 14 bilhões em crédito para projetos inovadores, volume equivalente a tudo o que foi aprovado ao longo de 2023. Desde o lançamento da política Nova Indústria Brasil (NIB), os recursos destinados à inovação já ultrapassaram R$ 57 bilhões, impulsionando projetos ligados à digitalização, inteligência artificial, semicondutores, transição energética e modernização industrial. Mais do que um aumento pontual de recursos, o movimento sinaliza uma mudança estrutural na forma como o país tenta reposicionar sua competitividade tecnológica.

Esse cenário acompanha uma tendência global. Segundo o relatório mais recente da consultoria PwC, a Inteligência Artificial tem potencial para adicionar até US$ 15,7 trilhões à economia mundial até 2030, enquanto o Fórum Econômico Mundial projeta que tecnologias emergentes devem transformar profundamente os modelos produtivos, exigindo das empresas níveis cada vez maiores de adaptação, velocidade de execução e capacidade de inovação estruturada.

Ao mesmo tempo, programas como o Programa Mobilidade Verde e Inovação (MOVER) elevaram significativamente o grau de exigência das empresas ao conectar competitividade industrial, descarbonização, eficiência energética e desenvolvimento tecnológico dentro de uma mesma lógica regulatória. Apenas em dezembro de 2025, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) anunciou R$ 210 milhões em novos projetos voltados à descarbonização e digitalização da cadeia automotiva brasileira.

O ambiente é positivo. Há mais recursos, mais incentivos e mais instrumentos de apoio do que em qualquer outro momento da história recente. Mas existe uma questão que continua sendo ignorada por boa parte das organizações: acesso a recursos não é sinônimo de capacidade de inovar.

Ao longo de décadas acompanhando empresas dos mais diversos setores, aprendi que a maioria dos projetos de inovação não fracassa por falta de tecnologia. Tampouco por falta de criatividade. O que costuma comprometer os resultados é algo muito menos glamouroso: ausência de método, governança e capacidade de execução.

É justamente por isso que considero a ISO 56001 uma das evoluções mais relevantes do ecossistema global de inovação nos últimos anos.

Pela primeira vez, a inovação deixa de ser tratada apenas como uma aspiração corporativa ou um conjunto de iniciativas isoladas e passa a ser estruturada dentro de um sistema de gestão auditável, com critérios objetivos, responsabilidades definidas, mecanismos de controle e indicadores de desempenho.

Pode parecer apenas mais uma norma técnica. Não é. Na prática, estamos assistindo ao fim da inovação improvisada.

Durante décadas, muitas organizações trataram a inovação como um fenômeno dependente de indivíduos excepcionais, lideranças visionárias ou oportunidades pontuais de mercado. Era a lógica da inovação heroica, sustentada pela crença de que boas ideias seriam suficientes para gerar transformação.

Esse modelo produziu casos de sucesso importantes, mas também gerou desperdício de recursos, projetos descontinuados e uma enorme dificuldade de replicação.

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Empresas inovadoras não podem depender de heróis. Precisam depender de sistemas. A diferença entre essas duas abordagens se torna especialmente evidente quando observamos a relação entre empresas e os instrumentos de fomento à inovação.

Muitos executivos acreditam que a principal dificuldade para obter recursos está na elaboração do projeto ou na qualidade da tecnologia apresentada. Minha experiência mostra algo diferente.

Em grande parte dos casos, o problema está na incapacidade de demonstrar que a organização possui estrutura para executar aquilo que está propondo.

Quando um avaliador da FINEP analisa um projeto, ele não observa apenas a inovação tecnológica. Ele procura evidências de governança, gestão de riscos, capacidade técnica, maturidade organizacional e potencial de execução. Em outras palavras, ele busca sinais de que aquele investimento será transformado em resultado.

A ISO 56001 contribui exatamente nesse ponto. Ao exigir processos estruturados para identificação de oportunidades, validação de hipóteses, desenvolvimento de soluções, gestão da propriedade intelectual e avaliação de desempenho, a norma cria evidências concretas de maturidade organizacional. Na prática, a conversa deixa de ser baseada em promessas e passa a ser sustentada por evidências.

O mesmo raciocínio vale para os incentivos fiscais.

Historicamente, um dos maiores desafios relacionados aos mecanismos de apoio à inovação não está no acesso aos benefícios, mas na capacidade de comprovar que os investimentos realizados realmente correspondem a atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Não por acaso, o próprio Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) aponta que uma das inconsistências mais frequentes encontradas nas análises da Lei do Bem está na dificuldade de as empresas demonstrarem adequadamente os avanços tecnológicos alcançados, os métodos empregados e o caráter inovador das atividades desenvolvidas.

Assim, podemos dizer que muitas empresas inovam, mas poucas conseguem demonstrar essa inovação de forma consistente. É justamente essa lacuna que a governança ajuda a preencher.

Quando processos, decisões, hipóteses, aprendizados e resultados passam a ser registrados de forma estruturada, a inovação deixa de depender da memória das equipes e passa a integrar o patrimônio organizacional da empresa.Essa transformação ganha ainda mais relevância em um ambiente econômico cada vez mais complexo.

A ascensão da inteligência artificial, a reindustrialização baseada em tecnologia, a corrida global por produtividade, as exigências relacionadas à sustentabilidade e a necessidade crescente de soberania tecnológica estão ampliando o nível de cobrança sobre empresas e governos.

Entendo que inovar continuará sendo uma atividade de risco, mas a tolerância ao improviso está diminuindo rapidamente.

O próprio desenho das políticas industriais mais recentes reflete essa mudança. Programas como o MOVER não exigem apenas inovação. Exigem alinhamento estratégico, metas mensuráveis, rastreabilidade, eficiência energética e capacidade de demonstrar resultados ao longo do tempo.Isso significa que a discussão sobre inovação está migrando da criatividade para a gestão. E essa talvez seja a mudança mais importante de todas.

Durante muito tempo, o debate sobre inovação esteve concentrado na geração de ideias. Hoje, o verdadeiro diferencial competitivo está na capacidade de transformar ideias em resultados repetíveis, escaláveis e sustentáveis.

É por isso que acredito que a ISO 56001 representa muito mais do que uma certificação. Ela simboliza uma mudança de mentalidade, a representação de uma passagem da inovação heroica para a inovação sistêmica. A substituição da improvisação pela governança. A troca da dependência de indivíduos pela construção de capacidades organizacionais permanentes.

O Brasil avançou muito na oferta de recursos para inovação. O próximo salto dependerá da capacidade das empresas de demonstrar que conseguem utilizar esses recursos com eficiência, disciplina e visão de longo prazo.

Porque, no fim das contas, a inovação do futuro não será medida apenas pela qualidade das ideias que uma organização produz. Ela será medida pela sua capacidade de transformar essas ideias em valor econômico, competitividade e desenvolvimento de forma consistente.

E, para isso, criatividade continuará sendo fundamental. Mas método será indispensável.

Fonte: https://itforum.com.br/artigos/fim-da-inovacao-improvisada/