A receita de bolo que virou carreira: a história dos irmãos Baccalá em tecnologia

Na mesma semana, os irmãos Wanderley e Tiago Baccalá se depararam com uma cena parecida em lugares diferentes. Wanderley, CIO da Porto Bank, no elevador do prédio onde trabalha, ouviu de um desconhecido: “Você é filho da Dona Irani, a professora de matemática?”. Tiago passou pelo mesmo questionamento de um executivo nos corredores da Vivo, onde atua como diretor de inteligência artificial (IA), durante um almoço.

Nenhum dos dois sabia que aquelas pessoas conheciam a mãe deles. A cena, repetida ao longo de décadas e das mais diferentes empresas por onde eles passaram, resume bem o que Wanderley, Leonardo e Tiago Baccalá explicam sobre a própria trajetória em tecnologia: antes de qualquer linha de código, existiu uma sala de aula, em Araçatuba, interior de São Paulo.

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Irani, mãe dos três, atuava como professora de matemática deles, dos amigos deles, e dos filhos dos amigos deles. O pai trabalhava vendendo semijoias. Não havia, na casa dos Baccalá, nenhuma tradição familiar em tecnologia, nenhum parente programador, nenhum roteiro pronto. Havia, sim, uma mãe que fez das exatas uma língua falada em casa desde cedo e um exemplo de disciplina e cuidado que os três carregam até hoje como referência maior do que qualquer curso ou certificação.

Wanderley, o mais velho, conhecido no mercado por Baccalá e “Junior” pelos irmãos, entrou na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em 1993, quando a instituição vivia um momento de ascensão na área de exatas. “Eu fui puxando a fila”, lembra. Leonardo, o do meio, foi atrás. Sem uma vocação clara, seguiu o caminho que o irmão mais velho, sua referência, já vinha trilhando. Tiago, o caçula, chegou por último, onze anos mais novo que o primogênito, e teve, em suas palavras, um privilégio raro: entrou na faculdade quando os dois irmãos já estavam formados e bem-sucedidos no mercado. “A régua ficou mais alta para mim”, brinca ele. “Eu não podia falhar”, completa.

A trajetória dos três culminou em um episódio raro na história da universidade. Os Baccalá se tornaram os primeiros três irmãos a se formar no mesmo curso da UFSCar. Na colação de grau de Tiago, o mais novo, os três entregaram aos pais uma placa, sugerida pela própria universidade, diante do feito inédito. Nela, uma frase que Tiago ainda recita de memória: os pais haviam abdicado de noites de sono e da própria vida para dar aos filhos a base do seu crescimento.

“Um professor disse que nunca tinha visto duas pessoas daquela idade serem ovacionadas daquele jeito no maior anfiteatro da América Latina. Pessoas humildes, carismáticas, com os olhos cheios d’água, porque formaram três filhos na mesma universidade”, lembra Tiago, sobre a cena no Teatro Florestan Fernandes no campus da UFSCar.

Sustentar essa formação não foi simples, lembram eles. Em um dos anos em que Wanderley e Leonardo dividiam apartamento em São Carlos, a família passava por dificuldades financeiras em Araçatuba, onde vivia. Wanderley passou a vender bijuterias do pai no intervalo das aulas. “Conseguimos conciliar, porque eu também queria que o Léo tivesse uma boa experiência naquele primeiro ano, sem muitas restrições”, lembra ele. “Foi um ano difícil, mas muito estimulante para nós dois.”

Foi também naquele ano que Wanderley ensinou ao irmão mais novo sua primeira lição de programação e uma das poucas metáforas que Leonardo diz nunca ter esquecido. Diante da disciplina de algoritmos, que o deixava perdido, ouviu do irmão que “Um algoritmo nada mais é do que uma receita de bolo.” Trinta anos depois, a frase ainda ecoa, revela. “Ele me deu muita musculatura para seguir, não só como profissional, mas como ser humano”, diz Leonardo, hoje radicado nos Estados Unidos, onde atua no Citi Bank como diretor global de Desenvolvimento de Produtos de Trade.

Ao serem solicitados para descrever uns aos outros, os irmãos falam com uma mistura de orgulho e afeto pouco comum entre colegas de profissão. Wanderley descreve Leonardo como o mais sereno dos três, capaz de analisar fatos com frieza mesmo sob pressão; e Tiago como o inquieto, o curioso, aquele a quem todos recorrem quando algo trava, inclusive os sobrinhos, que ligam para o “Tio Ti” antes de perguntar ao pai.

Leonardo, por sua vez, chama Wanderley de referência e ídolo desde a infância. “Extremamente protetor e justo”, que ensinou ao irmão mais novo, com o próprio exemplo, o que significa andar pelo caminho correto, ainda que sozinho. E chama Tiago de “gênio”, o professor de inteligência artificial (AI) mais próximo que tem, apesar do curso recém-concluído na faculdade. Tiago, o caçula, resume o que os outros dois representaram em sua trajetória, incluindo a saída, no ano passado, de vinte e um anos de Accenture para outra companhia. “Não seria metade do homem que sou se não tivesse os dois comigo. Tenho três pais, com todo o amor que isso pede”, conta.

Se há um traço que os três reconhecem como herança comum, além do gosto por exatas, é a disposição para construir pontes, o termo que usam, sem combinar, para descrever a forma como constroem relações profissionais.

Setores diferentes e IA no centro da estratégia

Ao longo de suas jornadas profissionais, os irmãos passaram por indústrias diferentes. Wanderley circulou por telecomunicações e mídia e hoje trabalha no setor financeiro, Leonardo saiu da consultoria em telecom para o mercado bancário; Tiago se especializou em telecomunicações, passou duas décadas em consultoria e hoje é diretor da IA na Vivo, liderando iniciativas de IA generativa na tele. Apesar dos caminhos distintos, os três dizem ter influenciado as carreiras de dezenas de profissionais ao longo do caminho, de fornecedores, colegas, liderados, que hoje, ao cruzar com um dos irmãos, frequentemente perguntam pelos outros dois. “A contribuição que temos para o mercado é muito positiva”, acredita Tiago.

É também sobre esse tema, as pessoas, que os três preferem falar quando o assunto é inteligência artificial, hoje presente no dia a dia de cada um deles como líderes de tecnologia. “A IA não substitui o humano. Ela muda a forma como as pessoas trabalham e pensam”, diz Tiago. Para ilustrar a velocidade da mudança, ele cita um dado que costuma repetir em apresentações internas: a internet levou sete anos para atingir 100 milhões de usuários; redes sociais como TikTok e Instagram, dois anos; o ChatGPT, apenas dois meses. “Nossa maior missão como tecnólogos é democratizar a inteligência artificial, aproximar as pessoas e desmistificar a tecnologia”, afirma.

Leonardo concorda e vai além. Ele acredita que o impacto da IA sobre o trabalho ainda está em fase inicial e que a transformação em curso pode ser comparada à chegada da própria internet. Wanderley pondera que essa evolução também exige responsabilidade, sobretudo em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira, o critério, diz, precisa acompanhar a velocidade.

Aos profissionais que ainda estão entrando no mercado de tecnologia, os três oferecem conselhos que dialogam diretamente com a própria trajetória. Tiago recomenda valorizar relações acima do produto e testar mais do que teorizar. “Há pessoas tentando entender como funciona por trás de um modelo de linguagem. Isso já está dado. Experimente, aplique”, recomenda.

Leonardo insiste em aprender inteligência artificial todos os dias, sem medo de errar. “Nunca estaremos prontos para o próximo passo, mas isso não pode ser motivo para não dar esse passo”, reflete, e defende que tecnologia só faz sentido a serviço dos negócios e do cliente, nunca como um fim em si mesma. Wanderley reforça a importância de entender profundamente os negócios em que se está inserido, para além da própria função técnica. “Quanto mais se conhece, mais o profissional terá um papel diferenciado na empresa, independentemente de estar começando ou não”, assinala.

A entrevista para esta reportagem aconteceu poucos dias antes de os três se reunirem pessoalmente, em um raro encontro dos três juntos, já que Leonardo estava de viagem marcada ao Brasil. Ao longo da conversa, entre lembranças e elogios recíprocos, os irmãos se emocionaram mais de uma vez. “Nos emocionamos junto”, disse Tiago. Ao IT Forum, contam essa história pela primeira vez em conjunto na esperança de que sirva de referência a outros profissionais, irmãos de sangue ou não, sobre o papel que boas relações desempenham em qualquer carreira de tecnologia. “Mais do que a nossa história, o que importa é como isso pode ajudar quem está começando agora”, finaliza Leonardo.

É um lembrete, vindo de uma das áreas mais aceleradas do momento, de que, por trás de qualquer sistema, ferramenta ou modelo de inteligência artificial, o que sustenta uma carreira continua sendo, antes de tudo, as pessoas.

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/historia-irmaos-baccala-em-tecnologia/