IFS aposta em IA para destravar os 40% do potencial que a indústria desperdiça

O recado do IFS Unleashed 2026, realizado nesta semana em Orlando*, nos Estados Unidos, veio antes da primeira fala no palco. Na entrada do Orlando World Center Marriott, onde a companhia reúne clientes, parceiros e analistas, a marca já anunciava: IFS.ai. O sufixo, usado desde 2024 para identificar a camada de inteligência artificial (IA) dos produtos, ganhou protagonismo. No evento, a IA deixou de aparecer apenas como parte do portfólio e passou a traduzir como a fornecedora de software de origem sueca, hoje sediada em Londres, quer se posicionar no mercado.

A primeira manhã do evento explicou a escolha. A IFS, fundada em 1983 por cinco colegas de universidade e hoje com mais de 7 mil funcionários em 80 países, passou as últimas quatro décadas vendendo software de gestão empresarial (ERP), gestão de ativos e gestão de serviços de campo para empresas que fabricam, mantêm e movimentam coisas físicas. Nesta terça-feira (13), a empresa apresentou um produto que pretende mudar a forma como essas empresas usam o próprio sistema: o IFS Intelligence, camada conversacional e agêntica que lê toda a operação do cliente, responde em linguagem natural e executa tarefas em linha com as permissões de cada usuário.

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O lançamento chega em momento oportuno, tanto para a IFS, quanto para o mercado, que vê o papel do ERP ser questionado na era do service as a software. A IFS encerrou 2025 com crescimento de 23% na receita recorrente anual (ARR), alta de 30% na receita de nuvem e taxa de retenção líquida de 114%, segundo números divulgados pela própria empresa em janeiro. No mesmo período, comprou a TheLoops, plataforma de agentes do Vale do Silício, nos Estados Unidos, e a britânica 7bridges, de logística com IA, além de anunciar a aquisição da Softeon, de gestão de armazéns. Entre os parceiros que a companhia lista em sua estratégia de IA estão Anthropic, Microsoft, Siemens e Boston Dynamics.

Mark Moffat, CEO da IFS, na cadeira desde janeiro de 2024, abriu a apresentação com um diagnóstico de mercado. Ele lembrou que 75% do que o mundo comercializa é algo físico, feito, extraído, gerado, construído ou transportado pelas indústrias presentes na plateia, e que essas empresas estão no centro do crescimento econômico que a IA promete. Mas descreveu um ambiente “quente e volátil”, a demanda anual adicional por energia elétrica equivale ao consumo de um Japão, quem encomenda uma turbina a gás hoje só a recebe em 2034, e a escassez de memória já pesa no custo de operação de montadoras.

A isso se soma a falta de pessoas. Moffat citou a projeção da Boeing de que a aviação precisará de cerca de 700 mil profissionais de engenharia e manutenção nas próximas duas décadas, boa parte para repor aposentadorias, e mencionou mais de 500 aeronaves regionais paradas nos Estados Unidos, “aptas a voar, sem ninguém para pilotá-las ou mantê-las”.

Foi nesse cenário que ele apresentou a métrica que guiou todo o dia. “Nossa pesquisa e o trabalho que fazemos com os clientes mostram que operações industriais, ou partes delas, muitas vezes funcionam a 60% do seu potencial”, indicou. “A pergunta, então, é: onde estão os seus 40%? Estão escondidos em processos que ninguém consertou, em uma infraestrutura antiga, ou na linha de frente, onde simplesmente não se consegue contratar gente qualificada?”, questionou ele.

Para Moffat, parte importante dessa capacidade perdida está nos dados que as empresas já possuem e que nenhum modelo de IA genérico conhece, nas décadas de ordens de serviço, códigos de falha e reparos registrados contra cada ativo. Outra parte está nas pessoas. “O conjunto de dados mais valioso do seu negócio nunca foi carregado em sistema algum”, afirmou, referindo-se ao conhecimento de técnicos experientes. Ele lembrou ainda que as 500 maiores empresas do mundo estimam em US$ 1,4 trilhão o custo das paradas não planejadas e que, pelos levantamentos da IFS, um trabalhador médio passa só cerca de um terço do tempo com uma ferramenta na mão. O restante é espera e busca.

Da tela à conversa

O IFS Intelligence, segundo revelou o executivo, é a resposta da empresa a esse diagnóstico. Moffat apontou que a operação de um cliente médio da IFS tem cerca de 54 mil “partes móveis” (fábricas, máquinas, pedidos, pessoas) conectadas por bilhões de caminhos possíveis que mudam a cada segundo. “Nenhuma pessoa, nenhuma equipe, nenhum sistema jamais conseguiu enxergar tudo isso ao mesmo tempo”, disse. A proposta é colocar sobre essa malha uma camada de interação humana que dá à empresa “algo que ela nunca teve: uma voz”.

Coube a Vaibs Kumar, CTO global da IFS, mostrar o produto. Com 30 anos de software corporativo, que começaram, contou, mexendo em dBase na fábrica do pai, ele resumiu a mudança em três regras que o ERP ensinou aos usuários e que, segundo ele, deixam de valer: a de que é preciso dominar telas rígidas para extrair valor do sistema, a de que cada novo insight exige um projeto de integração e a de que é preciso esperar meses ou anos de implementação antes de colher resultado.

Na prática, o IFS Intelligence varre a implementação específica de cada cliente, com todas as configurações e customizações, em cerca de 30 minutos, e constrói a partir daí um entendimento semântico dos dados estruturados. “Os Large Language Models (LLMs) precisam de petabytes para serem treinados. Mas para colocá-los para trabalhar no contexto do seu negócio basta algo como um terabyte de dados estruturados, que já está nos seus sistemas”, revelou Kumar.

O produto se organiza em três modos. No Cowork, o humano conduz e a IA assiste. Pergunta-se em linguagem natural, investiga-se um problema e preparam-se ações que só rodam com aprovação. No palco, Kumar pediu a situação de uma turbina, cruzando dados do sistema operacional e do IFS Cloud sem integração tradicional; gerou um documento de passagem de turno; estimou quantos subcontratados um projeto exigiria; e, para os CFOs, consultou o capital de giro de todas as empresas de um grupo. No Loops, equipes de trabalhadores digitais rodam fluxos em segundo plano e chamam um humano quando precisam de julgamento. No módulo Runway, agentes ajudam a configurar, estender e migrar o próprio IFS a partir de requisitos escritos em linguagem comum.

A primeira prova pública veio da Fórmula 1. Chris Green, CIO da Cadillac F1, estreante na categoria nesta temporada, contou que a equipe escolheu a IFS “antes de comprar a primeira máquina de café” e que o sistema sustentou um crescimento em que, em uma única semana, 147 pessoas, um quarto do time, começaram a trabalhar.

Há cinco semanas a escuderia testa o IFS Intelligence. Além de usá-lo para consultar centros de custo em pleno ciclo de orçamento, o time aposta na ferramenta para um problema concreto: peças fabricadas sem número de série que precisam ser serializadas retroativamente, mesmo já incorporadas a conjuntos e subconjuntos que chegam a 20 ou 50 ordens de produção de profundidade. Corrigir um único tipo de peça chegou a consumir duas semanas. Green disse esperar que a IA faça o trabalho em minutos. O código que permitirá isso estava, nas palavras dele, sendo testado “ao vivo” naquela manhã.

Força de trabalho, não assistente

Se o Cowork é a porta de entrada, o Loops é onde a IFS coloca sua aposta mais ousada. Somya Kapoor, CEO da IFS Loops e cofundadora da TheLoops, negócio parte da IFS desde 2025, lembrou que há exatamente um ano a empresa lançou seu primeiro trabalhador digital de nível industrial, um agente definido por um resultado, e não por uma sequência de passos.

Agora, eles passam a trabalhar em equipe. No exemplo apresentado, uma bomba crítica precisa de um rolamento. Assim, um agente abre a ordem de serviço a partir de um e-mail, outro verifica o estoque e localiza o melhor fornecedor, um terceiro conduz o processo de compra até o pagamento, um quarto escala o técnico certificado e confirma a janela de parada, e um último confere se o serviço foi fechado corretamente. Sete trabalhadores digitais, segundo Kapoor, perseguindo um mesmo objetivo de reparo na primeira visita.

Para o que não vier pronto, a IFS oferece o Agent Studio, com cerca de 150 habilidades agênticas predefinidas e um “meta prompter” treinado no domínio industrial, que transforma um documento de processo em um novo trabalhador digital. Na demonstração, um agente de triagem foi criado, testado e incorporado à equipe em poucos minutos, lendo dados do Salesforce e do SharePoint, disparado pelo Outlook e escalando exceções pelo Microsoft Teams. “Construir um agente é a coisa mais fácil do mundo. Meu filho de 11 anos consegue”, provocou Somya. “Levá-lo para produção, ainda mais em cenários industriais, é muito, muito difícil”, completou.

Os números de clientes vieram em sequência. A KLN reportou ganho de 60% de eficiência nas transações processadas pelos agentes e 98% de aprovações. Pedro Buhigas, CIO da Kodiak Gas Services, que opera 4,5 milhões de cavalos de compressão de gás natural e quer ter 1,8 gigawatt de geração em operação até 2030 para abastecer data centers, relatou ganhos de cerca de 85% nas transações conduzidas pelo agente que identifica, localiza e compra peças. A explicação dele para a pressa diz muito sobre o mercado. “Nosso crescimento nos próximos anos é limitado por pessoas. Contratar, treinar e reter é muito difícil no nosso setor. Então precisamos, essencialmente, preencher essa lacuna com agentes”, indicou.

Questionado por que uma empresa que gosta de desenvolver internamente preferiu os agentes da IFS, Buhigas indicou a facilidade. “Nesses processos centrados no ERP, você precisa de orquestração, permissões, auditabilidade, rastreabilidade e as salvaguardas do processo. Construir tudo isso do zero é complexo e não é onde queremos que nossas equipes gastem tempo.”

Velocidade como método

A outra vitrine da manhã foi a Nexus Black, unidade da IFS que desenvolve e implanta soluções de IA junto aos clientes, comandada por Kriti Sharma. Ela dividiu o palco com Badri Narasimhan, Chief Technology & Business Growth Officer da William Grant & Sons, a escocesa de 140 anos dona de marcas como Glenfiddich, The Balvenie e Hendrick’s. Narasimhan contou três histórias.

Na primeira, a ferramenta de manutenção Resolve, produto da IFS feito pela Nexus Black, chegou em cerca de 12 semanas às mãos dos operadores da destilaria de Girvan, na costa oeste da Escócia, uma das maiores de scotch do mundo, que passaram a registrar falhas por voz. A IFS estima a economia nessa planta em £ 8,4 milhões por ano. Na segunda, um projeto de compras construído em três semanas identificou economias acima de £ 10 milhões, sem, nas palavras do executivo, “destruir valor de longo prazo”. Na terceira, durante a migração para o IFS Cloud, 48 de uma amostra de 52 relatórios, cuja conversão estava orçada em três dias de trabalho humano cada, foram migrados em 30 minutos.

Narasimhan, no entanto, recusou o tom de vitória. “Ainda estamos correndo atrás do dinheiro. Não chegamos lá”, admitiu. E apontou o próximo desafio. “Como levamos nossas pessoas junto nessa jornada? O trabalho do dia a dia muda no minuto em que elas batem o ponto. Isso não é fácil para quem faz algo há 30 anos”, refletiu.

Mo Dawood, CIO da Eight Group, empresa britânica de manutenção predial que cresce por aquisições, trouxe a versão acelerada da mesma história. Contou que a Resolve chegou aos engenheiros duas semanas depois do pedido e que um registro de quadro elétrico que levava 25 minutos por visita passou a ser feito em cerca de 60 segundos, a partir de uma foto. Pelas contas dele, poupar 15 minutos por engenheiro deve representar cerca de 1 milhão de horas por ano quando o grupo atingir o porte que persegue. A empresa estima economizar perto de 1 milhão de libras por ano com seus fluxos de 13 mil chamados mensais e mais de 30 mil faturas de fornecedores.

Governança como produto

Por trás dos três modos está o que a IFS chama de Industrial AI Harness, camada de controle sobre a qual o IFS Intelligence opera. A empresa observa que é ali que está a diferença em relação a assistentes genéricos. Os agentes herdam as permissões do usuário, “nem mais, nem menos”, e toda escrita no sistema de registro exige aprovação, porque, como lembrou Kumar, “não dá para liberar uma ordem de produção e desfazê-la, nem lançar uma entrada no razão e apagá-la”.

A IFS afirma ainda que está estendendo o perímetro de serviços do IFS Cloud para que os dados dos clientes nunca cheguem a um laboratório de IA de fronteira, e que a arquitetura permite trocar de modelo conforme a tarefa, sem amarrar o cliente a um único fornecedor.

A ênfase faz sentido diante dos dados que a própria IFS apresentou no evento. O IFS Industrial Index 2026, feito pela Censuswide com 2.275 executivos e trabalhadores de empresas com mais de 500 funcionários em 13 países (o Brasil não está na amostra), descreve uma linha de frente que adota IA mais rápido do que a liderança consegue governar.

Segundo o estudo, 43% dos respondentes treinaram e colocaram trabalhadores digitais em operação nos últimos 12 meses, enquanto o principal esforço da alta gestão no mesmo período foi aumentar o próprio letramento em IA (41%). Mais de 70% dizem confiar em suas políticas de segurança e dados, mas só 11% validaram resultados de IA em processos críticos de segurança ou qualidade, e apenas 4% exigem supervisão ou aprovação humana obrigatória em decisões apoiadas por IA. Um levantamento da Futurum citado pela empresa vai na mesma direção. De acordo com a pesquisa, 66% das companhias planejam investir em trabalhadores digitais nos próximos 12 meses, mas só 5,7% confiam na IA para agir de forma totalmente autônoma.

Modelo de negócio

A mudança mais relevante da novidade da IFS para CFOs e CIOs talvez esteja no preço. Em vez de cobrar por usuário, por recurso ou por consumo, a IFS vai comercializar o IFS Intelligence como uma licença universal para toda a empresa, sem diferenciação de pacotes ou bloqueio de funcionalidades, com uma franquia de uso, as “AI Executions”, algo novo no mercado.

“Não bloqueamos quando o cliente passa do limite e não cobramos excedente”, indicou Kumar. Se o uso superar a franquia, a empresa abre uma conversa para recalibrar o contrato. Em um momento em que, como ele próprio lembrou, muitas empresas estouram o orçamento de IA no primeiro semestre, previsibilidade virou argumento de venda. Para acelerar a adoção, os 50 primeiros clientes que se inscreverem para uma prova de conceito terão um mês gratuito, com ambiente de teste próprio e os dados do cliente, a partir do fim desta semana.

O Runway carrega a outra implicação de negócio. Hoje, ele já permite partir de um requisito em linguagem comum, gerar especificação, tíquetes e código, testado e corrigido pelos próprios agentes, e publicar a extensão no IFS Cloud. A promessa para os próximos meses é mais ambiciosa. A empresa quer configurar um IFS Cloud do zero, rodar testes de aceitação que hoje ocupam dezenas de pessoas por semanas e gerar scripts de migração de dados. Se cumprida, encurta projetos que sustentam boa parte da receita do ecossistema de integradores, uma conta que parceiros da IFS e de seus concorrentes terão de refazer.

A disputa, no entanto, é desafiador. SAP, Oracle, Microsoft e Salesforce oferecem agentes às mesmas contas industriais, e as startups nativas de IA prometem construir sob medida. A aposta da IFS é de que, em setores onde um erro significa parada de planta, avião no chão ou manchete, o contexto do domínio e a governança valem mais do que a abrangência. Moffat resumiu a ambição ao dizer que o IFS Intelligence “não é uma visão de futuro” e está disponível agora. “O que vocês fazem não muda. Mas como esse trabalho é feito mudou para sempre”, encerrou Kumar.

*A jornalista viajou a Orlando a convite da IFS

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/ifs-ia-destravar-potencial-industria-desperdica/