Antes de qualquer cargo, havia os tijolos. Ainda menina, Marielva Andrade brincava de casinha e erguia pequenas construções com o que encontrava pela frente. A escolha da profissão veio quase que naturalmente: “Eu já queria ser construtora. Esse foi o meu propósito.”
O caminho, porém, teve seus desvios. Começou os estudos em Cascavel, no Paraná, e mudou-se para Curitiba, onde estudou com as irmãs no Colégio Estadual do Paraná. Perdeu o pai na reta final do ensino médio, às vésperas do vestibular. Seguiu em frente, preparou-se no cursinho Positivo e entrou em Engenharia Civil na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em uma sala quase toda tomada pelo império masculino. “Eram 120 pessoas por turma na engenharia. Eu acredito que, se fôssemos umas 20 mulheres, era muito.”
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Formada, abriu a própria construtora e passou dez anos em canteiros de obras, sempre atenta à forma de se posicionar como mulher. O negócio ia bem. Foi quando o acaso resolveu mudar a planta do projeto.
Um encontro na praia, uma escolha difícil
Em um fim de semana em Caiobá, no litoral paranaense, Marielva fez algo raro: foi à praia. A convite de um cunhado, levou o caiaque até a Praia Mansa. Na saída, esbarrou em Hélio Rotenberg, colega dos tempos de UFPR.
Ela o admirava desde o vestibular, quando ele passou em primeiro lugar. Na faculdade, fizeram muitos trabalhos juntos. Ele pegava emprestados os cadernos dela e oferecia carona. Depois, Rotenberg fundou a Positivo. Naquela conversa na areia, os dois puseram os anos em dia. Ela falou da construtora, ele da empresa que precisava ser reestruturada. Veio, então, o pedido: “Mari, preciso de alguém para me ajudar”.
A primeira resposta foi não. Ela estava, nas próprias palavras, “superbem”, e avisou que entendia de construção civil, não de computação. Rotenberg tinha uma resposta pronta: ela falava inglês, essencial numa época em que as inovações vinham de fora. Só mais tarde ele confessaria que a ideia do convite tinha sido da mãe dele. “Coincidiu de ele precisar de alguém, a mãe dele lembrar, e assim o destino nos uniu ali e deu certo”, resume Marielva. “Quando é para ser…”
O que pesou na decisão foi o sonho. “O Hélio me encantou com o sonho dele.” Era 1992, a internet engatinhava e falar de tecnologia significava falar de PCs com poucos megas. Marielva saiu da visita à empresa com revistas especializadas debaixo do braço e uma escolha difícil pela frente. Decidiu experimentar: meio expediente na Positivo, sem largar a construtora. O teste já dura 34 anos.
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Uma escola chamada Positivo
Marielva foi a 18ª funcionária de uma empresa que hoje reúne mais de 8 mil colaboradores. Entrou como gerente administrativa, com a missão de organizar a casa, e fez “tudo aos poucos”. Aprendeu tecnologia na prática, em viagens a Taiwan e à China antes dos anos 2000, quando quase não se falava inglês por lá. “Tinha que se virar.”
Chegou a gerente geral da divisão de hardware e, em 2006, quando a Positivo abriu capital, tornou-se vice-presidente de Operações, em uma diretoria de apenas três nomes. Mais de 6 mil pessoas passaram por sua gestão. A qualidade implantada nas fábricas levou a empresa a ser aprovada na auditoria de uma companhia japonesa e a fabricar a marca dela no Brasil. Hoje, é vice-presidente da Unidade de Negócios para Instituições Públicas.
O propósito, diz, sempre foi levar a tecnologia de forma acessível a todos. Ontem, isso significou inclusão digital. Hoje, significa democratizar a inteligência artificial (IA), que ela vê com otimismo, como “transformadora em todos os pilares das nossas vidas”.
A relação com o fundador é de papéis complementares: “O Hélio sempre foi um grande visionário”, enquanto ela “sempre foi muito responsável pela execução”. E a experiência, ela define com gratidão: “Esses 34 anos de Positivo ao lado do Hélio são uma escola, uma vida de aprendizado.”
Dessa escola nasceu seu estilo de gestão. “Eu me vejo como uma líder servidora, bem humanizada”, afirma. Prefere o consenso, sem fugir da decisão quando necessária, porque acredita que “equipes de alta performance são aquelas em que há diversidade de opiniões, de conhecimento, de cultura”. E brinca: “Muitas vezes as pessoas acham que eu estou enrolando, porque eu quero ouvir todo mundo.”
A escola, aliás, nunca terminou. Marielva fez MBA em Gestão Empresarial pela FGV e em Finanças pelo IBMEC/UP, além de Neuroestratégia e Pensamento Transversal na ESIC Business & Marketing School. Para o MBA em Finanças, aprendeu Excel ao mesmo tempo que acompanhava as aulas. “É essa vontade de aprender. Você tem que ter essa garra de querer ir lá enfrentar.” A leitora de dois livros por ano virou leitora assídua graças às dicas do MBA. “Eu sempre gostei muito de estudar.”
A surpresa de ser inspiração
Durante muito tempo, Marielva não se viu como referência. “Eu confesso que eu não tinha noção”, admite. A ficha caiu quando começou a palestrar. Ao fim das apresentações, as pessoas a procuravam para dizer: “Mari, você falou isso pra mim”.
Vieram também os prêmios. Em 2022, recebeu o título de Mulher Paranaense na categoria Exatas e Tecnologia, do Unibrasil Centro Universitário. Foi ainda finalista do Globant Awards – Women that Build, em Liderança Inspiradora. “Sempre tem alguém olhando para você”, diz.
O que a move é mostrar que o caminho existe, mesmo em territórios onde poucas mulheres pisaram antes. Ela fala do prazer de ver pessoas “se espelhando e entendendo que é possível”. A receita não tem segredo, só constância: “A cada desafio, mesmo eu não estando pronta, eu buscava o conhecimento, eu buscava me preparar, eu abraçava os desafios.” A menina dos tijolos segue construindo, agora com outras ferramentas, seu futuro contínuo e inspirando outras empreiteiras na jornada de tecnologia.
Marielva Andrade integra a lista IT Forum Mulheres, do IT Forum Inteligência, que destaca 35 mulheres da tecnologia.
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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/marielva-andrade-engenharia-civil-vp-positivo/

