Especial IT Forum 35 anos: Rafaela Paiva fez do futuro o destino de sua carreira em tecnologia

O dia 11 de setembro de 2001 mudou para sempre a história e expôs, de forma brutal, uma vulnerabilidade que até então poucas empresas enxergavam. Além de dizimar quase 3 mil vidas, os ataques às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, comprometeram a operação de companhias que mantinham no complexo não apenas seus escritórios, mas também servidores, centros de dados e estruturas de contingência. Em alguns casos, até os backups estavam fisicamente próximos dos sistemas principais, fazendo com que empresas perdessem, de uma só vez, sua infraestrutura tecnológica e a capacidade de retomar rapidamente as operações.

Rafaela Paiva acompanhou aquele momento enquanto trabalhava como analista de suporte de redes na Editora Abril, que mobilizou a redação para a cobertura dos ataques. Naquela manhã, ela crimpava cerca de 150 conectores RJ45 para a inauguração de um novo andar quando as notícias começaram a chegar.

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Para quem trabalhava diretamente com infraestrutura, o episódio também escancarava uma nova dimensão do risco corporativo: proteger dados e garantir sua disponibilidade deixava de ser apenas uma questão técnica. “Percebi que a segurança da informação seria o futuro”, conta.

Pouco depois, Rafaela ingressou em uma pós-graduação no tema, realizada na Universidade de São Paulo (USP). Na mesma época, a consultoria G&P começava a estruturar uma divisão voltada à segurança da informação. O local foi o primeiro em que a executiva colocou em prática o que estava aprendendo, em meio à coordenação de um projeto de construção do núcleo de Segurança da Informação para o Serpro.

Depois da experiência, na cadeira de gerente de Segurança da Informação, Rafaela passou ainda pela Sion People Center e pelo jornal O Estado de S. Paulo. Segundo ela, a urgência para cumprir com novas regulamentações tornava as oportunidades ainda mais abundantes e os desafios mais interessantes. “Nessa época, todas as empresas passaram a precisar de uma figura de segurança para poder responder aos requisitos de regulamentação”, lembra.

Foi dessa forma que a executiva chegou ao seu próximo grande desafio, o Buscapé. Recém-comprada pela Naspers, a companhia precisava estruturar sua nova área de Segurança da Informação. O ano era 2010, e o mercado brasileiro de tecnologia começava a falar sobre migração para nuvem quando o País decidiu experienciar sua primeira Black Friday.

Para Rafaela, a data significou um dos maiores desafios da sua carreira, o de migrar os produtos do Buscapé e garantir a estabilidade do novo sistema durante a compra em massa. Com a missão bem-sucedida, a executiva se tornou uma das primeiras mulheres do Brasil a entrar no mercado de nuvem.

O sucesso rendeu um reconhecimento da própria Amazon Web Services (AWS) e um convite da Netshoes para integrar sua equipe como líder de infraestrutura de TI, o que ela logo aceitou.

Quem olha para a sua trajetória profissional no LinkedIn percebe que, até chegar ao Mercado Livre, a carreira de Rafaela foi dinâmica, com um tempo médio de permanência de dois anos em cada empresa. Segundo ela, as mudanças foram intencionais. Com o sonho de ser CIO desde os 16 anos, ela acreditava que o melhor para alcançar seu objetivo seria ter experiência em diversas indústrias.

“Fui mudando estrategicamente de mercado a cada dois ou três anos, justamente para me colocar em uma posição no futuro na qual eu pudesse falar de vários negócios. E isso me ajudou a me posicionar em mesas estratégicas”, afirma.

O futuro como destino

E entre o sonho e a realidade, só havia mais um desafio: a pandemia. Em 2019, quando chegou ao Mercado Livre, Rafaela voltava ao mundo corporativo após uma gestação e buscava um trabalho tranquilo para engrenar novamente. No entanto, a posição de gerente oferecida no Brasil logo se tornou América Latina, e o cargo de liderança chegou bem em tempo da crise da Covid-19.

“Estava no Uruguai quando, às quatro horas da manhã, recebi uma mensagem de um diretor avisando que o escritório da Colômbia seria fechado e perguntando o que faríamos”, conta.

A empresa, assim como o mundo todo, precisava de um plano. Era a primeira vez que o termo home office era usado em escala global, e era necessário garanti-lo de forma segura e sustentável. No caso do Mercado Livre, Rafaela pediu aos seus diretores uma semana para tornar isso possível. “Perguntavam-me porque não compraríamos computadores para todo mundo, mas enquanto empresa de tecnologia, achei que era importante encontrarmos uma solução tecnológica.”

A solução estava na nuvem e na segurança da informação. Com dois firewalls em nuvem e desenvolvendo aplicações próprias para que os funcionários pudessem acessar documentos da empresa de forma segura, a executiva e sua equipe criaram, segundo ela, uma nova rede para os, na época, 11 mil profissionais da organização em menos de uma semana.

O projeto virou referência na companhia e, unido ao crescimento da malha logística do Mercado Livre, tornou o sonho de Rafaela realidade, trazendo o cargo de diretora de TI. Desde então, já são mais de sete anos de empresa e, hoje, a executiva vê a gestão de pessoas como um desafio maior do que o da tecnologia.

O projeto ganhou visibilidade na companhia e, na esteira da expansão da malha logística do Mercado Livre, abriu caminho para um antigo objetivo de Rafaela: chegar à diretoria de TI. Hoje, ela diz enxergar na gestão de pessoas desafios ainda mais complexos do que aqueles impostos pela própria tecnologia.

Em tempos de inteligência artificial (IA), ela acredita que é preciso ter cautela na forma de usar as ferramentas e que a maior transformação que a tecnologia trará está nos modelos de trabalho.

“Gerir pessoas com empatia, em um cenário marcado por excesso de informação e muitas opiniões sem fundamento, é desafiador. Com a aceleração da IA, é preciso ter mais critério na escolha das equipes e na forma de delegar. Nos próximos anos, os modelos de trabalho também devem mudar, e acredito que esse será um importante desafio para o futuro”, finaliza.

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Fonte: https://itforum.com.br/noticias/rafaela-paiva-futuro-tecnologia/