10 curiosidades sobre o Haiti

O Haiti ocupa um lugar singular na história das Américas. Hoje, costuma ser lembrado pelas crises políticas, dificuldades econômicas e pelo terremoto devastador de 2010. Mas quem desembarca em Porto Príncipe encontra um país mais complexo do que os estereótipos sugerem. Entre mercados de rua, ônibus tap-tap coloridos e uma cultura vibrante, tradições convivem com a violência e os desafios que seguem presentes no cotidiano.

Depois do empate em 1 a 1 contra o Marrocos, o Brasil enfrenta o Haiti na fase de grupos da Copa do Mundo. De volta ao Mundial pela primeira vez desde 1974, a seleção haitiana também guarda uma ligação especial com os brasileiros fora da competição. Em 2004, Porto Príncipe recebeu o chamado “Jogo da Paz”, amistoso entre as duas seleções que mobilizou milhares de pessoas nas ruas. A partida se tornou símbolo de união e esperança – e o Brasil ainda ganhou de goleada, fechando o placar em 6 a 0.

 

A seguir, 10 curiosidades para conhecer o país caribenho além dos estereótipos:

1. O primeiro país latino-americano a declarar independência

O Haiti conquistou sua independência em 1º de janeiro de 1804, décadas antes da maior parte dos países latino-americanos. A conquista foi resultado de uma revolta contra a França liderada por pessoas escravizadas, e é frequentemente apontada como a única revolta de escravizados bem-sucedida.

Na época, a então colônia francesa de Saint-Domingue era uma das regiões mais lucrativas do Caribe, enriquecida pela produção de açúcar e café baseada no trabalho escravo. Após a derrota das tropas francesas, o Haiti tornou-se a primeira nação independente da América Latina, a primeira república negra do mundo e a segunda república mais antiga das Américas, atrás apenas dos Estados Unidos.

Mais de dois séculos depois, esse episódio continua ocupando um lugar central na identidade haitiana. Às vésperas da Copa do Mundo, a seleção precisou alterar seu uniforme após um pedido da Fifa, que considerou as referências à independência uma possível manifestação política.

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A camisa trazia a bandeira adotada após 1804 e uma ilustração da Batalha de Vertières, confronto decisivo para a derrota francesa. Segundo a fornecedora do material, o design era uma homenagem à história e à resiliência dos haitianos.

 

2. O Haiti é parte de uma ilha

Muita gente imagina o Haiti como uma pequena ilha no Caribe, mas ele ocupa apenas a porção oeste de Hispaniola, uma das maiores ilhas da região. Do outro lado da fronteira está a República Dominicana.

Embora compartilhem o mesmo território, os dois países seguiram caminhos bastante diferentes ao longo dos séculos. A diferença entre os dois aparece logo nos idiomas: enquanto os dominicanos hablam espanhol, os haitianos usam principalmente o crioulo haitiano (kreyòl) e o francês.

Ainda é possível observar algumas semelhanças entre os dois, como a influência africana. A banana-da-terra aparece com frequência nos pratos de ambos os destinos e a religião vodu também é comum, embora com características próprias em cada país.

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As similaridades, porém, param por aí. Colonizados por potências diferentes – Espanha de um lado, França do outro -, Haiti e República Dominicana desenvolveram tradições e identidades culturais distintas ao longo dos séculos.

3. O Caribe dos folhetos turísticos também existe por lá

Quando se fala em Caribe, a imagem que vem à mente costuma ser aquela do mar azul-turquesa e dos coqueiros inclinados sobre a praia. O Haiti raramente aparece nas listas dos destinos famosos da região, mas reúne cenários que facilmente fariam parte de um catálogo de viagem.

O país possui cerca de 1.700 quilômetros de litoral banhados pelo Mar do Caribe. Entre os destinos mais conhecidos estão Labadee, no norte do país, Port-Salut, no sul, e a ilha de Île-à-Vache, famosa pelas enseadas tranquilas paisagens tropicais.

Há ainda praias pouco exploradas, como Anse Blanche e as da Costa dos Arcadins. Em comum, todas compartilham águas cristalinas e uma característica cada vez mais rara no Caribe: o turismo sem multidões.

Labadee mostra um lado menos conhecido do Haiti, com praias de areia clara e mar caribenho (Just a Brazilian man from Brazil/Wikimedia Commons)
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4. O nome do país já entrega sua paisagem

Praias paradisíacas fazem parte do imaginário caribenho, mas elas contam apenas parte da história do Haiti. O nome do país vem da palavra indígena Ayiti, usada pelos povos taínos e geralmente traduzida como “terra das montanhas”. A definição não poderia ser mais apropriada. O território é dominado por cadeias montanhosas que atravessam o país de norte a sul, formando vales profundos e encostas íngremes.

O ponto mais alto é o Pic la Selle, com cerca de 2.680 metros de altitude na cordilheira. Basta olhar para o horizonte para encontrar montanhas ocupando boa parte da vista. Não por acaso, no Haiti ou você está em uma montanha ou está olhando para uma.

Paisagem montanhosa com colinas verdes e vales profundos, algumas encostas com plantações em terraços. O céu está nublado com nuvens brancas e cinzas, e montanhas distantes aparecem em tons de azul claro. Há árvores esparsas e vegetação densa em algumas áreas
O relevo montanhoso está entre as características geográficas marcantes do Haiti (Claudia Altamimi/Unsplash)

5. O café da manhã pode ser um pratão de espaguete

Esqueça a refeição matinal com pães e frutas. Sabe aquele ditado de que o café da manhã é a refeição mais importante do dia? No Haiti, ele é levado bastante a sério e é comum que a primeira refeição do dia seja reforçada, com pratos de maior sustância.

Um dos cafés da manhã mais populares do país é o chamado espaguete haitiano, que costuma ser preparado com ovos,  linguiças, pimentões e temperos locais. Em algumas versões, também pode levar arenque defumado.

Para muitos visitantes, a refeição parece mais um almoço do que um café da manhã. Mas, para os haitianos, é apenas uma forma de começar o dia com energia. Aliás, há quem diga que no Haiti não existem muitas regras sobre o que pode ou não ser consumido logo cedo.

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6. Prepare-se para a pimenta

A culinária haitiana raramente passa despercebida. Resultado de influências africanas, francesas, indígenas e caribenhas, ela faz uso generoso de ervas aromáticas, marinadas e, principalmente, pimenta. Muita pimenta.

A culinária costuma fazer bastante uso de pimentas escocesas e marinadas picantes. Um dos acompanhamentos mais tradicionais é o pikliz, uma conserva feita com repolho, cenoura, cebola e pimenta escocesa, marinada em vinagre e servida ao lado de carnes, arroz e frituras. Já o epis é uma mistura de alho, cebola, pimentas, ervas e especiarias usada como base para inúmeros pratos da culinária haitiana.

Entre as receitas mais populares estão o griot – carne de porco marinada e frita -, o arroz preto preparado com o cogumelo djon-djon e diferentes tipos de pastéis recheados.

Prato com carne frita em cubos, tostones de banana-da-terra e salada de repolho com tomate e pimentão verde, sobre mesa de madeira rústica, com garrafa de cerveja Prestige ao lado
Marinado com ervas e especiarias antes de ser frito, o griot está entre os clássicos da gastronomia haitiana (Lëa-Kim Châteauneuf/Wikimedia Commons)

7. A sopa da liberdade

Para os haitianos, o 1º de janeiro tem um significado duplo: marca a chegada do Ano-Novo e celebra a independência conquistada em 1804. A data é inseparável da sopa joumou, preparada com abóbora, legumes, carne e tubérculos.

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Durante o período colonial, o prato era associado às elites francesas e não podia ser consumido pela população escravizada. Após a independência, a sopa se transformou em símbolo de liberdade. Desde então, tornou-se tradição reunir familiares, amigos e vizinhos para compartilhar grandes panelas do prato no primeiro dia do ano.

Cada família tem sua própria receita, mas a base costuma incluir abóbora, carne, legumes, tubérculos e temperos locais. Hoje, a sopa joumou é tão importante para a cultura haitiana que foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2021, sendo símbolo da liberdade e da resiliência do povo haitiano.

Sopa de galinha com macarrão, batata, cenoura e folhas verdes em caldo amarelo, servida em tigela branca com borda dourada sobre prato branco
A sopa joumou ocupa lugar central nas celebrações de 1º de janeiro (Aliceba/Wikimedia Commons)

8. Os ônibus parecem obras de arte ambulantes

Coloridos e com frases pintadas à mão, os tap-taps estão entre os símbolos mais reconhecíveis do Haiti. O nome significa “rápido, rápido”, mas também remete ao gesto usado para avisar o motorista que alguém quer desembarcar: pequenas batidas na carroceria.

Os tap-taps são caminhonetes, micro-ônibus e até antigos ônibus escolares adaptados para funcionar como transporte coletivo. Pintados à mão, eles costumam exibir cores vibrantes, frases religiosas, referências musicais, imagens de celebridades e mensagens de proteção para os passageiros.

Os veículos seguem rotas fixas, mas só costumam partir quando estão cheios. Os designs dos tap-taps são diferentes entre si, transformando a frota haitiana em uma espécie de galeria de arte sobre rodas. Apesar da estética charmosa, órgãos oficiais de países como Estados Unidos e Canadá desaconselham que turistas utilizem esse meio de transporte, citando problemas de segurança e manutenção.

Caminhão branco com carroceria colorida, decorada com padrões geométricos e a palavra JACMEL, parado em uma estrada rural com montanhas e vegetação ao fundo
Os tap-taps funcionam como um transporte coletivo com cores chamativas (DatraxMada/Wikimedia Commons)

    9. Nenhuma festa está completa sem kompa

    O kompa é um gênero musical nativo e de sucesso no Haiti. Formatura, aniversário, casamento ou reunião de família, existe uma boa chance de que tudo isso venha acompanhado do kompa.

    Criado na década de 1950, o kompa nasceu a partir do méringue de salão, e incorporou influências do jazz e de outros ritmos caribenhos. Instrumentos de sopro inspirados nas big bands ajudaram a moldar seu som, marcado por batidas constantes e melodias fáceis de memorizar.

    O nome deriva da palavra espanhola compás, que significa ritmo ou compasso musical. Com o passar das décadas, o estilo atravessou fronteiras e influenciou outros gêneros caribenhos, como o zouk e o cadence-lypso. Hoje, versões mais modernas incorporam elementos do hip-hop, reggae e música eletrônica. Mas o essencial permanece e nenhuma festa haitiana está realmente completa sem kompa.

    10. O país abriga a maior fortaleza das Américas

    No topo de uma montanha, a cerca de 900 metros de altitude, ergue-se a Citadelle Laferrière. Construída no início do século 19, logo após a independência do Haiti, a fortaleza foi idealizada por Henri Christophe para proteger o novo país de uma possível tentativa de reconquista francesa. O resultado impressiona até hoje.

    Considerada a maior fortaleza das Américas, a estrutura possui altas muralhas de pedra, centenas de canhões e vista panorâmica para as montanhas. A construção exigiu mais de uma década de trabalho e mobilizou milhares de pessoas em uma região de difícil acesso. Ao lado do Palácio Sans-Souci, a Citadelle Laferrière integra o principal conjunto histórico do país e foi declarada Patrimônio Mundial da Unesco em 1982.

    Fortaleza de pedra cinza imponente no topo de uma colina verdejante, com uma estrada de paralelepípedos serpenteando em primeiro plano, sob um céu nublado
    A imponência da construção ajuda a explicar por que ela se tornou um símbolo importante (Haiti Weekend 020/Wikimedia Commons)

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Fonte: https://viagemeturismo.abril.com.br/mundo/10-curiosidades-sobre-o-haiti/