Um patriotismo contra a patriotada

 

Em meio ao turbilhão das redes sociais brasileiras, surge uma nova performance do nacionalismo e do patriotismo que se distancia radicalmente daquela encenada pelo bolsonarismo. Enquanto o bolsonarismo monopoliza a bandeira verde-amarela para um espetáculo de exclusão e agressão interna, esse outro nacionalismo — muitas vezes mais discreto, porém intenso — ganha força na defesa da soberania nacional diante da ofensiva externa, em particular o chamado “tarifaço” imposto pelo governo Trump ao Brasil.

A “patriotada” bolsonarista é espetáculo: gritos, bandeiras, uniformes, ataques contra “inimigos internos” e uma violência simbólica que ecoa nas ruas e nas redes. Essa guerra civil simbólica, como argumenta Giorgio Agamben, é uma soberania que decide quem pode existir e quem é descartável — um paradigma de exclusão e morte.

Já a nova performance do patriotismo aposta na ideia de pacto social e soberania, um conceito hobbesiano que emerge nas disputas cotidianas do Congresso, das manifestações virtuais e da vida política brasileira. Trata-se de um nacionalismo que busca reafirmar a união frente a ameaças externas, contrapondo-se à lógica da guerra civil interna.

Essa nova forma de patriotismo emerge num momento em que o Brasil sofre um duro golpe econômico e simbólico: o aumento das tarifas comerciais pelo governo Trump, conhecido como “tarifaço”. Essa agressão externa serve de catalisador para que parcelas expressivas da população e da classe política reflitam sobre a soberania nacional como um valor imprescindível — algo que transcende o mero sentimento e se conecta a um contrato social hobbesiano de segurança e cooperação coletiva.

Enquanto isso, a “patriotada” bolsonarista, embora ainda presente e ruidosa, revela-se cada vez mais como um fenômeno performativo e excludente. Essa “patriotada” está longe de reforçar o pacto social: ela fomenta divisões, mobiliza o ódio contra minorias e, sobretudo, insiste na mentira — um abuso da esfera pública que chamo de falsolatria. Essa manipulação da verdade é a essência da guerra civil simbólica que mantém a extrema-direita no poder.

Para entender melhor essa distinção, é necessário revisitar Hobbes. Para ele, a soberania é o poder absoluto conferido a um Estado que mantém a paz social, evita o caos e protege o povo. O contrato social implica uma cessão voluntária de liberdades para garantir a segurança coletiva. No Brasil atual, o patriotismo em defesa da soberania nacional ecoa essa ideia: é um apelo à coesão, à proteção diante de uma ameaça externa real.

Por outro lado, o nacionalismo performado pelo bolsonarismo opera sob o paradigma que Giorgio Agamben descreve como “stasis” — a guerra civil. Essa guerra civil não é apenas real, mas simbólica e performática. Ela cria fronteiras internas, decide quem é “matável” e quem é excluído da vida política e social. O espetáculo das ruas e das redes com seus gritos e suas bandeiras é uma encenação da exclusão.

A disputa pelo significado dos termos “pátria” e “povo” não é neutra. Ernesto Laclau e Chantal Mouffe explicam que esses são “significantes vazios” — termos que se preenchem com os conteúdos que os atores políticos lhes imprimem. No Brasil, o bolsonarismo tentou monopolizar esses termos para consolidar sua hegemonia autoritária e excludente, enquanto o patriotismo contra o “tarifaço” busca ressignificá-los como símbolos de solidariedade e soberania popular.

É nesse ponto que duas obras artísticas iluminam o paradoxo do “povo” como resto e como soberano. Caetano Veloso, em “Neguinho”, universaliza o lugar do excluído: “Todo mundo é neguinho, exceto quem não é”.

O verso, repetido e tensionado ao longo da música, transforma “neguinho” em substantivo e adjetivo, retirando-o de um contexto racista e colocando-o como insígnia de um pertencimento radical — todos somos “neguinhos” quando a nação é agredida de fora ou quando o pacto social nos inclui na mesma vulnerabilidade. O gesto de Caetano não dissolve a diferença racial, mas revela como a exclusão pode se tornar também força de soberania coletiva.

Já Luís Fernando Veríssimo, em seu texto “O povo”, define: “O povo é aquele que sobra depois de todos os cálculos”.

Essa frase ressoa a noção hobbesiana de multidão dissolvida — um conjunto disperso, sem coesão, que só se torna povo ao se organizar em soberania. No contexto atual do nacionalismo pró-Lula, o povo é ambos os significados: resto e soberano. Todos somos “neguinhos” e, ao mesmo tempo, somos “o povo” que sobra e que se ergue para defender a pátria diante da agressão externa.

Não é só no Brasil que essas disputas acontecem. No Japão, o partido ultranacionalista Sanseitō ascendeu nas eleições legislativas de 2025, trazendo à tona um patriotismo baseado em exclusão, negacionismo e um autoritarismo velado que lembra os mecanismos da “patriotada” brasileira.

Na Espanha, o conflito entre o Estado central e o nacionalismo catalão evidencia outra face dessa guerra simbólica. A “patriotada” espanholista reprime a demanda de autodeterminação da Catalunha, negando-lhe reconhecimento cultural e político e reprimindo lideranças, muitas delas da esquerda solidária ao governo de Pedro Sánchez. Aqui, como no Brasil, o nacionalismo é arma para o controle e a exclusão.

No Congresso brasileiro, a disputa pela soberania nacional se traduz em acusações duras e simbolismos políticos. Parlamentares como Kim Kataguiri (União Brasil-SP) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se alinham a políticas pró-EUA e minimizam o impacto das tarifas de Trump, foram rotulados como “traidores” por setores que defendem a soberania nacional como valor absoluto.

Esse embate revela uma divisão profunda: de um lado, um nacionalismo que reivindica autonomia e resistência a pressões externas; do outro, uma postura que associa soberania a interesses internacionais e ao neoliberalismo. A disputa pela narrativa da pátria e do povo se desdobra assim nas arenas institucionais e simbólicas.

A “patriotada” bolsonarista não se sustenta apenas no espetáculo das ruas ou na violência simbólica. Ela se alimenta de uma estratégia mais sutil e poderosa: a mentira sistematizada, o que chamo de falsolatria. Trata-se de uma devoção à falsidade que, longe de ser apenas erro ou engano, se converte em ferramenta política para fragmentar a sociedade, criar inimigos internos e legitimar a exclusão.

Esse fenômeno é intensificado pelo uso das redes sociais e das plataformas digitais, que pulverizam a informação e diluem a verdade. A desinformação deixa de ser um problema pontual para se transformar em modo de vida político, uma nova gramática da disputa simbólica. A mentira passa a valer mais do que a realidade, pois ela molda o imaginário coletivo, define alianças e exclusões.

Ao contrário, o patriotismo que emerge diante do “tarifaço” aposta na defesa da verdade — não como fato incontestável, mas como compromisso com a transparência, o debate e a solidariedade entre os membros do pacto social. É um patriotismo que se esforça para recuperar a confiança na esfera pública e na soberania popular.

Giorgio Agamben nos alerta para o fato de que a soberania contemporânea está profundamente imbricada na capacidade de decidir sobre a “vida nua” — quem pode viver e quem pode ser descartado — um mecanismo típico da guerra civil como paradigma político.

No entanto, a emergência dos “estados-plataformas” e o poder algorítmico nas redes sociais adicionam uma nova camada a essa lógica. Não se trata apenas de decisões políticas explícitas, mas de uma governança invisível que define fluxos de informação, silencia vozes e reforça bolhas ideológicas, ampliando a divisão social e tornando a “guerra civil” ainda mais difusa e letal.

Essa nova soberania digital instrumentaliza a mentira e a exclusão de forma automática, transformando a desinformação em arma de controle social e fragmentação. O desafio do patriotismo que defende o pacto social é confrontar essa lógica algorítmica e recuperar a polis — o espaço público e coletivo.

A disputa pelo significado de “pátria” e “povo” não é mero jogo semântico. É a luta pelo futuro da democracia, da solidariedade e da soberania popular no Brasil e além. O bolsonarismo, com sua “patriotada”, sequestrou esses termos para promover exclusão, mentira e violência — uma guerra civil simbólica que ameaça a vida e a pluralidade.

Mas há um patriotismo que resiste, que se ergue a partir da defesa do contrato social hobbesiano e da soberania nacional contra agressões externas, como o “tarifaço” de Trump. Este patriotismo reconhece que “povo” é um significante vazio, que deve ser preenchido com solidariedade, pluralidade e justiça social — um sujeito político capaz de se unir para proteger a vida coletiva.

A batalha por esses sentidos é central para qualquer projeto emancipatório no século 21. Ressignificar a pátria, reinventar o povo e recuperar o pacto social são passos indispensáveis para enfrentar as múltiplas crises políticas, econômicas e culturais que atravessam o presente.

É, enfim, uma guerra — mas uma guerra pela vida, pela democracia e pela verdade.

Jean Wyllys é jornalista, escritor, doutorando em Direito e Ciência Política pela UB e autor, entre outros livros, de Falsolatria (Editora Nós e Edições Sesc SP, 2024) e O anonimato dos afetos escondidos (Tusquet, 2025).

 

 

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/um-patriotismo-contra-patriotada/