Michelle Bolsonaro (PL), presidente do PL Mulher, divulgou na noite de 24 de junho um vídeo acusando o enteado e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) de tê-la “maltratado” e “desrespeitado” em uma ligação telefônica, após ela criticar a aliança do partido com Ciro Gomes (PSDB) no Ceará.
LEIA TAMBÉM:
Michelle expõe Flávio Bolsonaro machista e autoritário com veto a 3 mulheres nas eleições
Flávio Bolsonaro: efeito Michelle na candidatura é muito pior do que o áudio de Daniel Vorcaro
O episódio abriu uma crise familiar pública que acelerou, segundo aliados do senador, a decisão de anunciar uma mulher como candidata a vice-presidente em até três semanas, numa tentativa de conter a sangria eleitoral entre mulheres e evangélicos, dois segmentos onde os números de pesquisa já vinham em queda antes mesmo do vídeo.
O estopim: o vídeo de Michelle Bolsonaro
No vídeo divulgado na noite de 24 de junho, Michelle Bolsonaro descreveu em detalhes o que classificou como uma humilhação imposta pelo enteado. Segundo ela, Flávio retornou uma ligação e foi “muito ríspido”, a “desrespeitou” e a “tratou mal ao telefone”, dizendo que ela “havia chegado ontem” na política e não entendia nada do assunto, sugerindo que ela deveria ficar fora das decisões partidárias. “Diante dessa humilhação, respondi que tudo bem”, afirmou Michelle, que descreveu a situação como uma “punhalada”.
A ex-primeira-dama não se limitou a relatar o episódio da ligação. Ela também acusou Flávio e aliados, incluindo o coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), de trabalharem para vetar três indicações femininas ao Senado que ela havia feito: a senadora Carol De Toni (PL-SC), a deputada Bia Kicis (PL-DF) e a prefeita Priscila Costa (PL-CE). Segundo Michelle, o PL teria direito a 17 vagas femininas pela regra dos 30% nas candidaturas, e o bloqueio a essas três nomes revelaria, nas palavras dela, machismo e autoritarismo dentro da própria cúpula do partido.
O impacto imediato foi significativo. A gravação, elaborada com atenção à linguagem e ao apelo visual, foi dirigida diretamente ao eleitorado feminino e evangélico, os dois segmentos onde a pré-campanha de Flávio já acumulava perdas. Ao tornar pública uma disputa que até então corria nos bastidores, Michelle transformou uma tensão interna em crise de imagem com desdobramentos eleitorais concretos.
A resposta de Flávio e a repercussão imediata
A reação inicial de Flávio Bolsonaro foi de minimização. Às vésperas de uma partida do Brasil na Copa, ele afirmou que “hoje, dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece”, numa tentativa de desviar o foco e sinalizar indiferença ao episódio. A estratégia durou pouco. Horas depois, o senador voltou às redes sociais com um tom completamente diferente: negou ter ofendido a madrasta e declarou que “nunca desrespeitei, maltratei ou humilhei uma mulher na minha vida”, pedindo desculpas caso ela tivesse se sentido ofendida.
A oscilação entre os dois registros não passou despercebida. Aliados do senador admitiram ter se assustado com as publicações de Michelle, segundo relatos de pessoas próximas à pré-campanha. Parte desses aliados apostou, num primeiro momento, que os vídeos poderiam ser prejudiciais também para a ex-primeira-dama, diante de um eleitorado bolsonarista que valoriza a unidade contra o PT. A avaliação era a de que, mesmo havendo migração de votos no primeiro turno, esses eleitores tenderiam a retornar num eventual segundo turno.
Michelle, por sua vez, adotou um tom de encerramento sem recuo. Disse não ter “raiva de ninguém” e que os vídeos serviram para esclarecer “uma situação que estava sendo deturpada”. “Não há briga, nem competição”, afirmou, acrescentando que “uma nova história será escrita com verdade, clareza e respeito.” A declaração soou mais como um aviso do que como uma reconciliação.
Impacto na pré-campanha e no eleitorado
Antes mesmo do vídeo de Michelle, os números já sinalizavam deterioração. Levantamento da Nexus/BTG apontou que a rejeição a Flávio Bolsonaro subiu de 50% para 52% em um mês, com a resistência mais acentuada entre mulheres, segmento em que o senador registrava 56% de rejeição. A pesquisa BTG/Nexus de 15 de junho mostrou que Lula ampliou a vantagem sobre Flávio de 1 para 9 pontos percentuais em apenas 20 dias: na medição de 25 de maio, Lula marcava 31% contra 30% do senador; vinte dias depois, o presidente foi a 35% enquanto Flávio caiu para 26%. Entre as mulheres, segundo a mesma pesquisa Nexus, Lula abria 20 pontos de vantagem, liderando por 49% a 29%.
O quadro entre os evangélicos era igualmente preocupante antes da crise familiar. A pesquisa Atlas Bloomberg, divulgada em 19 de maio, mostrou que o apoio de Flávio nesse eleitorado havia caído de 65,4% em março para 50,9% após a revelação do caso BolsoMaster, quando vieram a público áudios em que o senador cobrava do banqueiro Daniel Vorcaro parte dos US$ 24 milhões prometidos para o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Em março, Lula marcava 14% entre evangélicos; com o desgaste acumulado, chegou a 25%, segundo a Atlas Bloomberg.
O vídeo de Michelle foi elaborado justamente para atingir esses dois segmentos já fragilizados. A ex-primeira-dama tem forte penetração entre mulheres evangélicas e bolsonaristas, e sua fala sobre desrespeito e machismo reforçou uma narrativa que a pré-campanha de Flávio tinha dificuldade de rebater sem aprofundar o problema. O efeito combinado das duas crises, o caso Vorcaro e o embate familiar, colocou a candidatura diante de um desafio eleitoral sem resposta simples.
A busca por uma vice mulher: nomes e pressões
A decisão de indicar uma mulher como vice já estava tomada antes do vídeo de Michelle, segundo aliados de Flávio. O episódio, porém, acelerou o calendário. A expectativa, conforme pessoas próximas à pré-campanha, é de que o nome seja anunciado em até três semanas. A lógica é dupla: tentar recuperar terreno no eleitorado feminino e, ao mesmo tempo, reduzir os ruídos com a madrasta, sinalizando que a crítica dela sobre o veto a candidaturas de mulheres foi, ao menos em parte, ouvida.
Os nomes mais citados são os das deputadas federais Júlia Zanatta (PL-SC) e Bia Kicis (PL-DF), e o da ex-ministra Tereza Cristina (PP-MS). Cada um deles carrega um conjunto diferente de vantagens e resistências. Zanatta é defendida por uma ala mais ideológica do bolsonarismo, com apoio do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, mas enfrenta ceticismo de lideranças do Centrão, que preferem um perfil capaz de dialogar com setores mais moderados do eleitorado. Bia Kicis foi mencionada pelo próprio Flávio em 25 de junho como possível nome, o que sinalizou uma abertura pública ao debate, mas ela também é vista como figura polarizadora. Tereza Cristina aparece como alternativa mais palatável ao Centrão, justamente por seu perfil pragmático.
A divisão interna sobre o perfil ideal para a vice reflete uma tensão mais ampla na coalizão que sustenta a pré-campanha: o bolsonarismo ideológico e o Centrão fisiológico têm interesses eleitorais distintos, e a escolha da vice precisará equilibrar os dois sem alienar nenhum. A pressão de Michelle, ao expor publicamente o veto a candidaturas femininas, estreitou o espaço de manobra de Flávio nessa negociação.
Contexto da disputa e antecedentes
Michelle Bolsonaro não era uma figura periférica na pré-campanha antes do vídeo. Como presidente do PL Mulher, ela vinha sendo cotada como alternativa ao próprio Flávio na disputa pelo Planalto, especialmente entre o eleitorado evangélico, onde sua penetração é reconhecida como superior à do enteado. Esse peso político torna o conflito mais do que uma briga familiar: é uma disputa por espaço e influência dentro do próprio partido, com consequências diretas sobre a arquitetura eleitoral do bolsonarismo para 2026.
A crise com Michelle se somou a um cenário que já estava deteriorado. Os áudios envolvendo Daniel Vorcaro, nos quais Flávio aparece cobrando parte dos US$ 24 milhões prometidos para o filme “Dark Horse” sobre Jair Bolsonaro, haviam fragilizado a pré-campanha semanas antes, especialmente entre eleitores não polarizados e no eleitorado evangélico. O caso BolsoMaster, como ficou conhecido, foi o primeiro grande baque externo à candidatura; o vídeo de Michelle representou o primeiro baque vindo de dentro.
No vídeo, Michelle detalhou que o conflito com Flávio teve como estopim as negociações eleitorais no Ceará, onde o senador teria dado aval para que o nome do pai de André Fernandes (PL-CE) fosse incluído nas chapas, em detrimento de Priscila Costa, que segundo Michelle “dedicou-se integralmente à campanha de André” na disputa pela Prefeitura de Fortaleza em 2024. Segundo a ex-primeira-dama, o coordenador de campanha Rogério Marinho (PL-RN) também estaria envolvido no veto às três candidatas femininas, Carol De Toni, Bia Kicis e Priscila Costa, entre as 17 vagas que o partido teria direito pela cota de 30%. A disputa, portanto, não é apenas sobre tom de voz numa ligação telefônica: é sobre quem manda no PL e quem decide quais mulheres têm espaço na política bolsonarista.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-vice-mulher-michelle/

