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A água, em “Submergida”, não é apenas cenário. É metáfora, memória e estado emocional. No palco, ela representa um mergulho interior — às vezes silencioso, às vezes turbulento — que atravessa lembranças, desejos, culpas e saudades. É nesse território sensível que a atriz potiguar Isadora Gondim conduz o público em seu primeiro monólogo autoral, apresentado como mostra de processo dentro da programação do 1º FEST – Festival de Solos Teatrais do Rio Grande do Norte.
O espetáculo será apresentado na quinta-feira 19, às 19h30, no Espaço A3, na Ribeira, em Natal. Com duração de 60 minutos e classificação indicativa de 10 anos, a sessão terá intérprete de Libras e audiodescrição, com entrada gratuita e ingressos distribuídos uma hora antes no local.
“Submergida” é, antes de tudo, um trabalho em construção. A própria artista define a obra como um processo em curso, um território criativo ainda em movimento. “A criação desse espetáculo é minha, então… Eu sou atriz e, além de atuar, eu dirigi e escrevi a minha dramaturgia”, conta.
A origem da peça remonta a 2022, quando ela reuniu ideias, fragmentos de escrita e inquietações pessoais que já havia registrado no papel. O primeiro teste de cena aconteceu ainda naquele ano. “Submergida ainda está em processo, não é uma peça finalizada. E o início desse processo foi em 2022. Em julho de 2022, eu juntei todas as ideias que eu achava interessantes e que eu já tinha botado no papel e tentei colocar em cena para ver o que acontecia”.
A primeira experiência ocorreu durante a mostra semestral do Departamento de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde a atriz se formou. “Eu fiz isso na mostra de semestre do Departamento de Arte da UFRN. Considero que foi um ensaio aberto”.
O processo seguiu com novas experimentações ao longo daquele mesmo ano. “Mas foi muito importante eu começar naquele momento porque passei por muitas coisas desde que essas primeiras ideias da peça vieram para o mundo. Eu ainda fiz um segundo ensaio aberto, também em 2022. E aí eu já consegui experimentar outras coisas que eu tinha na cabeça para essa peça desde o início”.
Entre essas ideias, havia uma imagem que nunca saiu do projeto: a presença da água em cena. “Tem que ter uma piscina nessa peça. Submergida é, de fato, sobre submersão emocional. E eu não consegui imaginar a peça acontecendo de outro jeito, que não fosse dentro de uma piscina ou que tivesse uma piscina em cena”.
Para a artista, esse elemento também abre novas possibilidades espaciais para o teatro. “Eu achava que isso era super potente e super interessante porque permite que a gente povoe outros espaços para fazer teatro. Se eu fizesse minha peça toda dentro de uma piscina, eu poderia estar em diferentes tipos de espaços culturais que tivessem isso”.
Entre a concepção inicial e a apresentação atual, a vida da atriz seguiu por caminhos diversos. Isadora estudou cinema no Canadá, retornou a Natal e depois mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar com publicidade e eventos.
O convite para participar do 1º FEST trouxe o projeto de volta à superfície. O retorno ao palco também reacende as questões que motivaram a criação do trabalho. “Ela fala sobre saúde mental, principalmente, mas também fala sobre violência contra a mulher, sobre… a gente se perder na gente mesmo”.
A dramaturgia nasceu de um período pessoal delicado. “Submergida é uma metáfora para como eu sentia a minha tristeza na época que passei pelos meus primeiros processos depressivos, e foi tudo tão chocante para mim. Nunca tinha experimentado nada parecido com depressão na minha infância”.
Segundo a atriz, o contexto da pandemia também atravessa esse momento. “Foi depois da pandemia que as coisas aconteceram, então o mundo já estava me machucando de um jeito que eu nunca tinha experimentado e por isso que a peça precisou acontecer, porque eu precisava tirar aquilo de dentro de mim de alguma forma”. Transformar esse momento difícil em arte acabou sendo um gesto de sobrevivência. “Coloquei para fora através do teatro”.
Hoje, a obra retorna ao público com novas camadas. A piscina continua presente, mas agora adaptada à estrutura do palco. “E aí hoje eu estou fazendo Submergida de uma nova forma, com uma piscina em cena, mas não num espaço alternativo dentro de uma piscina real, mas dentro de uma piscina de plástico mesmo, que pode ficar no palco”.
O espetáculo também incorpora elementos inéditos. “É a primeira vez que eu vou fazer com audiovisual envolvido, vou exibir vídeos durante o espetáculo. Então, isso nunca foi experimentado em cena. A primeira vez vai ser agora no festival”.
A apresentação integra a categoria de mostra de processo do festival. Nesse formato, o público acompanha uma etapa do desenvolvimento artístico e pode participar da reflexão sobre a obra. “Como a peça não está finalizada totalmente, significa que na categoria que eu estou inscrita no festival isso permite com que ao final da apresentação a gente se sente um pouquinho para conversar”.
Esse diálogo é parte essencial da proposta. “Sobre o que eu estou trazendo, o que eu estou propondo. E eu vou poder ouvir um pouco da plateia, a plateia vai poder me ouvir um pouco sobre a peça mesmo. E eu acho que vai ser uma troca muito incrível”.
Para ela, a participação no festival tem também um valor afetivo. O evento foi idealizado por José Neto Barbosa, fundador da S.E.M. Cia. de Teatro e figura central em sua trajetória artística. “Ele é uma pessoa muito importante na minha vida, porque eu considero que ele é o meu mestre de teatro. Ele é a pessoa que eu mais gosto de trabalhar na vida”.
A relação começou ainda nos primeiros anos de atuação da artista. “A partir de 2016, nós fizemos um espetáculo que eu já tinha muito mais funções do que sou atriz, chamado Quando a Vela Apaga, que até participou do Festival O Mundo Inteiro É Um Palco”.
“Era um espetáculo de terror que passava por todos os cômodos da Pinacoteca, e foi uma experiência maravilhosa e muito formadora para mim, nos meus anos iniciais de atriz”, lembra.
Voltar a Natal com “Submergida”, portanto, tem também o sentido de reencontro. “É uma honra para mim trazer de novo o meu projeto para esse festival, em específico, porque tenho muito orgulho de ser potiguar”.
Agora, três anos depois da primeira escrita, o projeto volta ao palco — ainda em processo, ainda em movimento. Um mergulho em um território onde teatro e experiência pessoal se confundem.
O 1º FEST – Festival de Solos Teatrais do Rio Grande do Norte é realizado pela S.E.M. Cia. de Teatro, Fundação José Augusto, Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Norte, Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Sistema Nacional de Cultura, Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, Ministério da Cultura e Governo Federal, além da Prefeitura do Natal, por meio do Programa Djalma Maranhão, e da Unimed Natal. A produção é da POSS Comunicação e Cultura.
Serviço
Submergida no 1º FEST – Festival de Solos Teatrais do Rio Grande do Norte
Direção e performance: Isadora Gondim
Espaço A3 – Ribeira, Natal (Rua Frei Miguelinho, 85)
Quinta-feira 19
Às 19h30
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 10 anos
Com Libras e audiodescrição
Entrada gratuita — ingressos distribuídos 1h antes no local
Ficha técnica
Iluminação e cenotécnica: Vinicius Fortunato
Trilha sonora e sonoplastia: João Marcelo Galvão
Produção executiva e comunicação: João Vitor Lima
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Fonte: https://agorarn.com.br/ultimas/atriz-potiguar-isadora-gondim-mergulha-no-intimo-em-submergida/

