Sócio de Ciro Nogueira, Júlio Arcoverde é citado em áudios sobre emendas na Carbono Oculto 86

O deputado federal Júlio Arcoverde (PP-PI), sócio do senador Ciro Nogueira (PP-PI), aparece em áudios sobre supostas negociações envolvendo emendas parlamentares para Caxias, no Maranhão, em material apreendido pela Polícia Civil do Piauí na Operação Carbono Oculto 86, segundo reportagem do ICL Notícias publicada nesta segunda-feira (18).

O caso abre uma nova frente política em torno da investigação que mira empresários do setor de combustíveis e conexões com operadores ligados ao PCC. Arcoverde e Ciro Nogueira não são investigados, mas a Polícia Civil pediu o envio do caso ao Supremo Tribunal Federal após identificar menções a parlamentares com foro privilegiado em celulares apreendidos.

Júlio Arcoverde exerce mandato de deputado federal pelo PP do Piauí na legislatura 2023-2027, conforme o perfil oficial da Câmara dos Deputados. Ele é sócio de Ciro Nogueira na JJE Agenciamento de Seguros e Serviços, empresa sediada em Teresina.

Júlio Arcoverde é citado em áudios sobre emendas

O nome de Júlio Arcoverde aparece em conversas atribuídas ao empresário Danillo Coelho de Sousa, um dos alvos da Operação Carbono Oculto 86. Os diálogos tratam de recursos destinados a Caxias e mencionam uma suposta cobrança de R$ 130 mil.

Em um dos trechos, Danillo afirma que um pagamento já teria sido feito “para o Júlio”. Em outro, diz que um “compromisso com o Júlio” teria acabado e que não faria novos pagamentos ligados a emendas.

A existência das conversas foi revelada inicialmente pela revista Piauí. A apuração indica que os áudios foram encontrados em celulares de empresários investigados pela Polícia Civil do Piauí.

Carbono Oculto 86 liga emendas, combustíveis e Centrão

A Operação Carbono Oculto 86 é um desdobramento piauiense da investigação sobre lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. O número 86 faz referência ao DDD do Piauí.

A investigação mira empresários ligados à antiga rede de postos HD e ao grupo de Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, apontado como um dos nomes centrais da máfia dos combustíveis. O caso se conecta ao avanço das apurações sobre operadores financeiros, postos, distribuidoras, fundos e personagens políticos do Centrão.

A Revista Fórum mostrou que a Carbono Oculto expôs conexões entre Faria Lima, Centrão e crime organizado no setor de combustíveis. Leia a reportagem sobre Master, Refit e Carbono Oculto.

A Fórum também publicou reportagem sobre a Refit, empresa associada a disputas no mercado de combustíveis e a personagens políticos citados em investigações recentes. Veja o elo entre Refit, Faria Lima, Centrão e crime organizado.

Ciro Nogueira já havia sido citado em apuração sobre Beto Louco

A nova citação a Júlio Arcoverde ocorre no mesmo inquérito em que mensagens apontaram suposta proximidade entre Ciro Nogueira e Beto Louco. Em áudios anteriores, investigados afirmaram que o operador ligado à máfia dos combustíveis seria “muito amigo” do senador piauiense.

Ciro Nogueira nega irregularidades. Ele também não é investigado formalmente na Carbono Oculto 86. Ainda assim, a presença de seu nome e do nome de Arcoverde nas conversas levou a Polícia Civil a acionar o STF por causa do foro privilegiado dos parlamentares.

A Fórum já mostrou que Beto Louco e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, são peças centrais nas apurações sobre pagamentos a políticos e conexões entre PCC, setor de combustíveis e Brasília. Leia a reportagem sobre Beto Louco, Primo, Ciro Nogueira e Rueda.

Outra reportagem da Fórum revelou que o piloto Mauro Mattosinho, que citou Ciro Nogueira e Antonio Rueda, afirmou ter medo após relatar transporte de dinheiro. Leia o relato do piloto.

Contrato em Caxias coloca saúde municipal no centro da apuração

O ponto novo da apuração envolve Caxias, no Maranhão. Investigadores suspeitam que as conversas sobre emendas possam ter relação com contratos da Distribuidora Mercury Medicamentos, empresa controlada pela Pima Energia Participações Ltda., também citada no caso da máfia dos combustíveis.

A Mercury firmou contratos com a Prefeitura de Caxias para fornecimento de medicamentos e material odontológico. Os valores somariam R$ 22,9 milhões entre 2024 e 2025.

O Portal da Transparência da Prefeitura de Caxias registra contratos da administração municipal com a Distribuidora Mercury de Medicamentos. A empresa aparece em documentos públicos vinculados ao fornecimento de itens para a saúde.

O maior contrato citado na apuração, de R$ 22,5 milhões, teria sido assinado em maio de 2025 por adesão a ata de registro de preços do Consórcio dos Municípios do Médio Parnaíba do Piauí. O mecanismo permite que uma prefeitura use uma ata já existente, sem realizar nova licitação.

Emendas abasteceram fundo usado para pagar empresa

O contrato de Caxias com a Mercury teria sido pago com recursos do Fundo Municipal de Saúde. O fundo recebeu emendas parlamentares no período investigado.

A deputada federal Amanda Gentil (PP-MA), prima do prefeito de Caxias, José Gentil Rosa Neto, aparece como autora de parte expressiva das emendas destinadas ao município. Gentil Neto se filiou ao PP em abril de 2024, em evento com presença de Ciro Nogueira, presidente nacional da sigla.

A conexão entre emendas, contratos de saúde, empresários investigados e políticos do PP é o eixo que torna o caso sensível para o Centrão. A investigação ainda não atribui crime a Júlio Arcoverde nem a Ciro Nogueira, mas os diálogos reforçam o alcance político da Carbono Oculto 86.

Outro lado

Júlio Arcoverde afirmou, em nota enviada anteriormente, que desconhece “quaisquer menções relacionadas ao seu nome no contexto citado”. O deputado também disse que não é investigado na operação nem em qualquer outro inquérito.

Ciro Nogueira já negou ter proximidade irregular com investigados da máfia dos combustíveis. A Prefeitura de Caxias e os empresários citados não haviam apresentado manifestação pública sobre os áudios até a publicação da reportagem original.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/socio-ciro-carbono-oculto/