Por que a Bolívia enfrenta bloqueios, greve geral e pressão por renúncia de presidente

Marcha na Bolívia

A Bolívia vive uma das maiores ondas de protestos dos últimos anos após o governo do presidente Rodrigo Paz Pereira, de centro-direita, cortar subsídios aos combustíveis e aprovar medidas econômicas rejeitadas por sindicatos, indígenas e trabalhadores rurais.

O país enfrenta greve geral por tempo indeterminado, bloqueios em estradas e marchas que atravessaram mais de 1100 quilômetros até a capital La Paz.

A mobilização ganhou força após a entrada da Federação das Cooperativas Mineiras de La Paz nas manifestações. Mineiros, trabalhadores rurais e representantes indígenas chegaram à capital depois de mais de 20 dias de caminhada desde regiões amazônicas do norte boliviano.

Muitos fizeram o percurso usando apenas sandálias de plástico, enfrentando frio extremo nas áreas de altitude elevada.

Ao menos 50 manifestantes precisaram de atendimento médico por exaustão, desidratação e problemas físicos durante a marcha.

Mesmo assim, os sindicatos afirmaram que não pretendem encerrar a paralisação iniciada pela Central Obrera Boliviana (COB), principal central sindical do país. Atualmente, a Bolívia registra mais de 70 bloqueios de estradas em diferentes regiões.

O principal estopim da crise foi o decreto presidencial que eliminou subsídios aos combustíveis em dezembro de 2025. Rodrigo Paz justificou a medida alegando “emergência econômica, financeira, energética e social”. O fim do subsídio praticamente dobrou os preços dos combustíveis e provocou aumento imediato nos custos do transporte e dos alimentos.

“Começa hoje uma greve geral, ativa e por tempo indeterminado, até que o governo compreenda as demandas do povo”, declarou Mario Argollo, secretário-geral da COB, durante ato com apoiadores em 1º de maio. Além da retomada dos subsídios, os sindicatos exigem aumento de 20% no salário mínimo boliviano, atualmente em 3.300 bolivianos mensais, cerca de US$ 477.

Outro foco de tensão é a Lei 1720, aprovada em abril de 2026. O governo afirma que a medida facilitaria acesso ao crédito para pequenos produtores rurais ao permitir que propriedades agrícolas fossem reclassificadas e usadas como garantia em financiamentos bancários.

Movimentos indígenas e camponeses, porém, afirmam que a lei abre caminho para avanço de interesses corporativos sobre terras comunitárias. O advogado aimará Roger Adan Chambi, especialista em direito indígena, afirmou que a proposta foi aprovada sem consulta aos setores afetados.

Segundo ele, a legislação “enfraquece os direitos de propriedade de camponeses e comunidades indígenas” e pode facilitar perda de terras para grandes grupos econômicos.

Durante ato em La Paz, o líder camponês Oscar Cardoza resumiu o sentimento dos manifestantes. “Nossa vida é coletiva, não individual. A terra deve ser respeitada; ela não está à venda”, declarou.

Os protestos começaram com motoristas de ônibus e táxis, mas rapidamente incorporaram mineiros, professores, produtores de coca e organizações indígenas. Em algumas cidades houve confrontos entre manifestantes e forças policiais, com uso de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

A crise também expôs o colapso político do Movimento ao Socialismo (MAS), partido que governou a Bolívia por quase 20 anos.

A disputa entre Evo Morales e o ex-presidente Luis Arce fragmentou a esquerda boliviana e abriu espaço para a vitória conservadora de Rodrigo Paz Pereira em 2025. O candidato oficial do MAS teve apenas 3% dos votos, enquanto outra candidatura ligada a Evo também fracassou eleitoralmente.

Parte dos manifestantes aceita encerrar os protestos caso os subsídios sejam restaurados. Outros setores mais radicalizados passaram a exigir a renúncia do presidente, acusando o governo de impor um pacote neoliberal alinhado ao mercado financeiro e às grandes corporações.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-a-bolivia-enfrenta-bloqueios-greve-geral-e-pressao-por-renuncia-de-presidente/