Sakamoto: Com tarifaço ao Brasil, Trump desfila nu, untado com óleo de peroba

Donald Trump – Foto: Daniel Torok/Casa Branca – Fonte: Agência Senado

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Não é preciso ser gênio para perceber que Donald Trump não está nem aí com o desmatamento ilegal ou com os trabalhadores escravizados no Brasil e no mundo, usando ambas essas desgraças apenas para justificar tarifas para proteger seus produtos nacionais. É natural que seus seguidores nos EUA continuem o amando mesmo com ele desfilando nu, untado em óleo de peroba e usando justificativas do tamanho de um tapa-sexo. O desconcertante, contudo, é a quantidade de quinta-coluna no Brasil que, ainda assim, se derrete em suspiros pelo líder norte-americano.

Como já disse aqui quando a última polêmica estourou, os Estados Unidos são o país com maior número de pessoas escravizadas no continente americano, com quase 1,1 milhão de pessoas nessas condições, de acordo com o Global Slavery Index (GSI), calculado pela Walk Free, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho. Não só isso, como lideram o mundo em termos de importações de produtos em risco de terem sido feitos com trabalho escravo, batendo quase 170 bilhões de dólares.

Quando baixou o novo tarifaço contra o Brasil, Trump caceteou o desmatamento no país, culpando a pecuária por boa parte dele. Depois, nas novas tarifas impostas ao mundo sob a justificativa de atacar o trabalho forçado, ele citou de novo a pecuária brasileira. Mas avisou que a carne brasileira, o café, o suco de laranja, entre outros, estão liberados de todas as taxas. Afinal, tem eleição parlamentar em novembro nos EUA e, dada a insatisfação do povo norte-americano com o preço da comida, ele pode perder a maioria no Congresso.

Ou seja, ordenou ao Brasil e ao mundo um “faça o que digo, não faça o que eu faço”.

Quem acompanha esta coluna sabe que há 27 anos investigo trabalho escravo contemporâneo. E sim, o Brasil usa esse tipo de mão de obra em uma série de setores, mas também é exemplo reconhecido pela ONU no combate à prática, apesar dos muitos problemas. Barreiras comerciais não funcionam; pelo contrário, sacaneiam a maioria dos produtores que operam dentro da lei ao colocá-los no mesmo nível dos criminosos.

“Lista Suja” – Imagem: Agência Gov | Via MTE

O Brasil é o único país que tem uma “lista suja” do trabalho escravo mantida pelo governo, apontando os responsabilizados por esse crime. Empresas ao redor do mundo já checam a lista antes de importar de nós e bancos brasileiros a usam antes de conceder empréstimos, fazendo gerenciamento de risco caso a caso. Considerando que empresas nos EUA checam a lista, a ação era desnecessária em termos de defesa da dignidade humana, sendo apenas uma desculpinha esfarrapada para a imposição de novas tarifas, uma vez que Trump viu as anteriores serem derrubadas pela Suprema Corte em março.

Já os EUA, que se beneficiam de trabalho escravo em seu território e nas cadeias produtivas de suas empresas fora dele, não contam com mecanismos sólidos e eficazes como a lista suja para garantir que suas mercadorias estejam limpas. E, para piorar, como venho dizendo aqui, o país é contra a assinatura de tratados que criem obrigações para empresas agirem dentro da linha, o que seria uma solução estrutural para o problema.

Apesar de tudo isso, há grupos políticos que, vergonhosamente, estendem a bandeira dos EUA em celebrações do 7 de Setembro ou se enrolam com ela feito uma panqueca com recheio de traição. Pior: cujos líderes visitam a Casa Branca pedindo sanções ao Brasil para ajudar o sonho de Jair Bolsonaro. E depois ainda se dizem patriotas.

Trump deve rir muito desse povo, pois também estão nus e untados no óleo de peroba. Só que, ao contrário dele, não sabem disso.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/sakamoto-com-tarifaco-ao-brasil-trump-desfila-nu-untado-com-oleo-de-peroba/