Um relatório da Comissão de Servidores Públicos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) concluiu que um decreto assinado pelo ex-governador Cláudio Castro (PL) em 2021 serviu como porta de entrada para o Credcesta, cartão de benefícios ligado ao Banco Master, operar no sistema de crédito consignado dos servidores, aposentados e pensionistas fluminenses.
A informação, divulgada pela coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo, joga luz sobre uma engrenagem que alterou as regras das consignações em folha de pagamento. O documento aponta que a medida governamental viabilizou o credenciamento de entidades financeiras não autorizadas diretamente pelo Banco Central, além de administradoras de cartão de crédito, no sistema estadual.
A sequência decisiva: do decreto ao credenciamento
O foco do relatório recai sobre a cronologia dos atos. O decreto de Castro foi publicado no Diário Oficial em 27 de maio de 2021. Apenas cinco dias depois, em 1º de junho, a PKL One Participações, operadora do Credcesta e vinculada ao grupo do Banco Master, recebeu a autorização da Casa Civil para ofertar seus produtos ao funcionalismo do Rio de Janeiro.
Para a comissão da Alerj, a mudança normativa foi crucial por instituir uma margem adicional de 20% da remuneração líquida exclusivamente para o chamado cartão de benefícios. Esse percentual passou a se somar aos limites já estabelecidos para empréstimos e cartões consignados tradicionais, ampliando substancialmente o potencial de endividamento dos servidores. O cruzamento das regras, segundo a análise, permitia comprometer até 60% da renda com descontos automáticos em folha.
Como resultado, a carteira de consignados do Banco Master no Rio de Janeiro atingiu a marca de R$ 5,5 bilhões, pulverizados em cerca de 156 mil contratos, até o momento em que a instituição entrou em liquidação extrajudicial.
Acompanhamento contínuo: Master, Rioprevidência e a teia de relações
O conteúdo do relatório da Alerj converge com uma série de apurações que a Revista Fórum vem publicando sobre a complexa teia envolvendo o Banco Master, o ex-governador Cláudio Castro, o Rioprevidência e a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae).
A cobertura da Fórum já detalhou a operação da Polícia Federal que alcançou o entorno de Castro ao investigar as aplicações de R$ 970 milhões do Rioprevidência em Letras Financeiras do Master. Essa frente de apuração também resultou na prisão do ex-presidente do fundo previdenciário, Deivis Marcon Antunes.
A cronologia das decisões administrativas é outro ponto constante na cobertura. A Fórum mostrou a troca de comando no Rioprevidência realizada às vésperas de aportes bilionários que chegaram a R$ 3,7 bilhões em produtos da instituição financeira de Daniel Vorcaro. Outro repasse expressivo, de R$ 80 milhões, ocorreu exatamente no mesmo dia de um evento que reuniu Castro e Vorcaro, em 15 de maio de 2024.
Vínculo estreito apontado pela PF
Além das movimentações financeiras, a Polícia Federal identificou o que classificou como “vínculo pessoal estreito” entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro. Elementos colhidos nas investigações apontam para encontros no exterior que antecederiam as liberações de recursos, como a degustação de uísque em Nova York e o episódio em que o ex-governador foi agraciado com um “bife de ouro” em um jantar pago pelo banqueiro.
Liquidação extrajudicial e pressões por CPI
O desenrolar do escândalo culminou na liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., decretada pelo Banco Central em novembro de 2025. Na mesma data, a deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal passou a investigar a emissão de carteiras de crédito insubsistentes que teriam sido maquiadas após fiscalização.
Diante das novas evidências do relatório da Alerj, aumenta a pressão para a instalação de uma CPI, proposta defendida pelo deputado estadual Flávio Serafini (PSOL). O objetivo é investigar a fundo os impactos da expansão do Credcesta sobre o funcionalismo fluminense. Dados do Tribunal de Justiça (TJRJ) citados pela comissão ilustram o tamanho do problema: o Banco Master figura em 27,4% das ações de superendividamento no estado.
As ramificações políticas do caso não se restringem ao Rio de Janeiro. A Fórum tem acompanhado desdobramentos semelhantes em outras frentes, a exemplo do pedido do PSOL para investigar as relações do prefeito Ricardo Nunes com o Banco Master, em São Paulo.
Outro lado
Em resposta à coluna de Malu Gaspar, a defesa de Cláudio Castro negou qualquer favorecimento ao Banco Master. Os advogados sustentam que as medidas adotadas obedeceram aos trâmites legais e administrativos, justificando que a instituição sucedeu uma financeira que já possuía credenciamento no Estado.
A defesa argumenta ainda que a autorização concedida à PKL One seguiu rigorosamente a normatização vigente à época. Já a defesa de Daniel Vorcaro, controlador do Master, informou que não se manifestará sobre as conclusões apresentadas pela comissão da Alerj.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/banco-master-decreto-castro/

