Vestiu a carapuça? Flávio Bolsonaro aciona STF após fala de Lula sobre “traidores da pátria”

Há uma ironia quase poética no mais recente lance jurídico de Flávio Bolsonaro (PL). Conhecido por integrar um clã político que construiu sua identidade pública com discursos beligerantes, exaltação a torturadores da ditadura e complacência com atos de violência explícita, o senador e pré-candidato à Presidência resolveu, de repente, professar um apego comovente à paz e à literalidade das metáforas históricas. Nesta quinta-feira (11), Flávio acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) com uma notícia-crime contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), alegando ser a vítima de uma suposta “ameaça de enforcamento”.

Ao que tudo indica, o parlamentar vestiu com absoluto conforto a carapuça de “traidor da pátria” distribuída por Lula em um palanque na semana passada. Em termos estritamente jornalísticos e factuais, o movimento de Flávio desenha uma tática clássica e desgastada de vitimização, muito comum na engrenagem de comunicação da extrema direita brasileira: o grupo que rotineiramente incita ataques a instituições, flerta com o golpismo e incentiva agressões a opositores corre para o colo do Judiciário ao primeiro sinal de um embate retórico mais vigoroso.

Metáfora de Tiradentes e o “modo coitadinho

O estopim do pânico seletivo do senador ocorreu durante um discurso de Lula em Catalão (GO). Na ocasião, o presidente subiu o tom contra a turnê internacional que a família Bolsonaro promoveu recentemente nos EUA, onde os filhos do ex-presidente foram implorar a Donald Trump e parlamentares da ala mais radical do Partido Republicano por sanções econômicas e políticas contra o próprio país, sob o pretexto rocambolesco de estarem sob uma “ditadura judicial”.

Irritado com o que chamou de “vendilhões da pátria”, Lula recorreu aos manuais de história do Brasil para ilustrar a gravidade de se sabotar o próprio país no exterior, embora tenha cometido um erro historiográfico sério na declaração:

“Por menos, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado”, disparou Lula, emendando uma provocação direta ao público: “O que merecem os traidores da pátria que vão pedir intervenção de um país no nosso país? Pensem, pensem, meditem.”

A defesa de Flávio Bolsonaro correu para o STF argumentando que Lula não estava fazendo uma analogia histórica sobre a Inconfidência Mineira, mas sim incentivando seus apoiadores a cometerem um homicídio por enforcamento contra o senador. A petição tenta desenhar um cenário alarmante, afirmando que o “contexto político atual” torna a fala uma ameaça real de morte.

O que o choro protocolado por Flávio tenta ocultar, na verdade, é o erro histórico crasso de sua própria defesa dele, ou a pura má-fé narrativa. Para quem se diz tão preocupado com o rigor dos fatos, vale lembrar que Joaquim Silvério dos Reis sequer foi enforcado; o célebre delator morreu idoso, doente e rico no Maranhão, recebendo pensões da Coroa Portuguesa pelos serviços prestados como um traidor. Quem terminou na corda, como a história bem ensina, foi Tiradentes, o herói traído. Se há alguém ali flertando com a figura de Silvério dos Reis, o senador parece ter se apressado em assumir o figurino.

Pano de fundo: A sabotagem econômica e o Tarifaço 2.0

A fúria de Lula que motivou o contra-ataque de Flávio não nasceu no vácuo. Ela está diretamente ligada ao estrago diplomático e econômico que a oposição tenta consolidar contra o Brasil no exterior, um comportamento que o governo classifica abertamente como “de lesa-pátria”.

Na mesma agenda em Goiás, Lula criticou duramente o relatório gestado nos bastidores do Capitólio norte-americano que propõe o chamado “Tarifaço 2.0: uma sobretaxa agressiva de 25% sobre produtos exportados pelo Brasil aos EUA, sob a justificativa de que o país adota “práticas restritivas ao comércio”. Ironicamente, o governo de lá elenca no documento itens como a popularidade do Pix, o desmatamento ilegal e supostas falhas no combate à corrupção como pretextos para punir a economia brasileira.

Embora a nova barreira alfandegária ainda não esteja em vigor, com decisão final prevista para 15 de julho, a medida ameaça severamente o PIB brasileiro, embora poupe provisoriamente commodities como carne, café, frutas e o setor de aeronaves. Para o Palácio do Planalto, a viagem dos filhos de Bolsonaro para aplaudir e incentivar esse tipo de sanção estrangeira contra o próprio solo natal ultrapassou a fronteira da disputa política saudável.

“Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser piores do que ele, e são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras”, asseverou o petista.

Ao responder à crônica política com uma notícia-crime esdrúxula, Flávio Bolsonaro tenta mudar o foco do debate. Ele quer que o país discuta a segurança de seu pescoço em vez de explicar por que viajou até Washington para pedir que potências estrangeiras castiguem o bolso dos trabalhadores brasileiros. O choro do 01 no STF é o retrato de um grupo político que adora ditar as regras do jogo bruto, mas não aguenta o peso das palavras quando a história lhe cobra a fatura.

 

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-bolsonaro-aciona-stf-fala-lula-traidores-patria/