A soberba e o descolamento da realidade histórica parecem não encontrar limites na extrema direita brasileira. Em uma demonstração explícita de messianismo político, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) conseguiu a proeza de tentar privatizar um dos maiores patrimônios culturais do país. Durante um ato de pré-campanha realizado no Pará, na quinta-feira (11), o parlamentar convocou seus apoiadores a vestirem o uniforme da Seleção Brasileira para acompanhar os jogos da Copa do Mundo, mas referiu-se ao manto sagrado do futebol de forma vergonhosa: chamou-o de “camisa do Bolsonaro”.
A confissão deliberada de um projeto de apropriação indébita dos símbolos nacionais ocorreu enquanto Flávio discursava para uma plateia que já vestia o uniforme verde e amarelo. “A Copa do Mundo começa hoje. E a gente vai torcer pro Brasil. A gente vai botar a camisa do Bra… do Bolsonaro que vocês estão vestindo aí”, disparou o senador, corrigindo a palavra “Brasil” no meio do caminho para carimbar o sobrenome de sua família no peito dos torcedores.
A tentativa de sequestro simbólico ignora mais de sete décadas de glórias que nada têm a ver com clãs políticos. Criada em 1953 após o trauma do Maracanazo e estreada oficialmente nos gramados em 1954, a mítica camisa “canarinho” foi o manto que vestiu Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. Carrega a história de cinco títulos mundiais e a identidade de mais de 200 milhões de brasileiros. Para o bolsonarismo, contudo, a história do futebol parece ter começado quando decidiram usar o uniforme como abadá em manifestações de rua.
Para além do delírio personalista, o discurso de Flávio no Pará serviu para destilar os ataques habituais e tentar inverter a narrativa sobre o uso das cores nacionais. Ao ver o campo progressista ensaiar uma retomada dos símbolos pátrios, o senador partiu para a agressividade. “O Lula é tão ladrão que até a bandeira ele quer roubar. O PT largou a bandeira do Brasil na lata do lixo. O Bolsonaro foi lá, pegou essa bandeira e levantou com orgulho”, atacou, em uma retórica que tenta confinar o patriotismo a apenas um lado do espectro político. O parlamentar ainda aproveitou a oportunidade para flertar com o alarmismo, alegando que a população assistirá ao mundial trancada em casa por “medo da violência”.
Contraofensiva e o cenário internacional
A reação ao sequestro da “amarelinha” vem ganhando contornos de disputa direta. No último final de semana, durante discurso no Rio de Janeiro, o presidente Lula convocou a esquerda e os setores democráticos a resgatarem as cores do país. Segundo Lula, o campo progressista terá que “andar de verde e amarelo” durante o torneio “para não deixar que as cores do Brasil sejam tomadas por nenhum fascista”.
Mais do que o apelo estético, o governo tenta amarrar o uso da camisa ao conceito de soberania nacional, especialmente em um momento de fricção externa. Recentemente, Lula publicou uma foto vestindo a camiseta da Seleção com a legenda “o Brasil é dos brasileiros”, uma resposta política direta às novas tarifas comerciais anunciadas pelos EUA contra produtos nacionais. Nos bastidores do Planalto, a leitura é de que Flávio e seu irmão, Eduardo Bolsonaro, atuam diretamente como uma espécie de linha de frente dos interesses do governo de Donald Trump, jogando contra a economia do próprio país enquanto posam de patriotas nas redes sociais.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/flavio-camisa-da-selecao-camisa-do-bolsonaro/

