O futebol passou mais de um século sem precisar de apresentações musicais, árbitros explicando decisões no microfone ou pausas comerciais no meio da partida. Bastavam dois tempos de 45 minutos e um intervalo de 15. Mas a Copa disputada nos Estados Unidos mostra que a FIFA está testando uma nova fórmula: dividir o jogo em quartos, assim como acontece na NBA e na NFL, para adaptar o futebol à lógica dos esportes americanos.
No país, os grandes eventos esportivos são construídos para maximizar o tempo de exposição de patrocinadores. Cada interrupção é uma oportunidade comercial, e a Copa de 2026 vem incorporando, uma após outra, características que fizeram da NBA e da NFL potências bilionárias.
Em 2010, o Wall Street Journal calculou que uma partida média da NFL possui cerca de 20 intervalos comerciais e mais de 100 anúncios individuais, com aproximadamente uma hora de transmissão — cerca de um terço do tempo total — dedicada à publicidade.
O exemplo mais visível apareceu logo no jogo de abertura do torneio, entre México e África do Sul. A FIFA implementou pausas obrigatórias para hidratação de três minutos em cada tempo. Oficialmente, a justificativa é proteger os jogadores do calor registrado em várias cidades-sede, mas o verdadeiro objetivo é aproveitar o tempo parado para exibir mais anúncios, principalmente de casas de apostas.

A Fox, detentora dos direitos de transmissão em inglês nos EUA, incluiu diversas propagandas em uma dessas pausas. Quando a emissora voltou ao jogo, a bola já estava rolando e os telespectadores perderam parte da partida. A FIFA havia orientado as emissoras a retornar à transmissão 30 segundos antes do reinício do jogo, mas isso não aconteceu.
Segundo o repórter Romain Molina, do Guardian, o árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio “teve que fazer os jogadores esperarem durante a segunda pausa de hidratação após uma discussão com um coordenador, porque a Fox ainda estava em intervalo publicitário. Apesar dos atrasos impostos ao árbitro e da retomada tardia, a Fox ainda transmitia anúncios publicitários quando o jogo já havia recomeçado”.
O apresentador mexicano da ESPN José Ramón Fernández questionou: “As pausas são realmente para cuidar dos futebolistas ou para vender mais anúncios?”.
En la segunda pausa de hidratación del México vs Sudáfrica, el árbitro tuvo que hacer esperar a los jugadores para que FOX USA terminara de emitir anuncios. Incluso cuando el juego ya se había reanudado, seguía en comerciales. ¿las pausas son realmente para cuidar a los… https://t.co/oJnNyCVx1E pic.twitter.com/I8GF0xwYOu
— José Ramón Fernández (@joserra_espn) June 12, 2026
A revolta nas redes sociais foi imediata. “Estamos tentando assistir ao maior torneio da Terra. Um absurdo completo. Acabem com isso imediatamente!”, escreveu um usuário do X. No Reddit, torcedores também fizeram críticas, embora alguns tenham afirmado que isso faz parte da experiência de assistir esportes nos Estados Unidos. “Perder lances ao vivo, o que de fato aconteceu, é inaceitável. Mas os intervalos comerciais durante os jogos são um fato da vida nos EUA. É o que é”, escreveu outro internauta.
As pausas para hidratação são parte de algo muito maior. Também no primeiro jogo da Copa, o árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio anunciou uma decisão do VAR para todo o estádio pelo sistema de som. O recurso já existe há décadas na NFL e na NBA, em que árbitros explicam penalidades e revisões para o público presente.
No futebol, a dinâmica sempre foi mais simples. Durante mais de um século, bastava o árbitro apontar para a marca da falta, mostrar um cartão ou indicar o centro do campo. A Copa introduziu mais um elemento de espetáculo em uma modalidade que sempre dispensou esse tipo de encenação.
El partido México – Sudáfrica en la Copa del Mundo, dirigido por el árbitro Wilton Sampaio, se ha convertido en noticia mundial por su peculiar ingles. pic.twitter.com/25zBYJm9ek
— Minerva Gonzáles (@annminerva528) June 11, 2026
A mudança mais emblemática ainda está por vir. Pela primeira vez na história, a final de uma Copa do Mundo terá um show musical de meia hora no intervalo, inspirado diretamente no Super Bowl, a final da NFL. A FIFA anunciou apresentações de Madonna, Shakira e BTS. Formatos semelhantes já haviam sido testados no Mundial de Clubes de 2025, realizado em território americano.
Nem a abertura escapou dessa ampliação do espetáculo. Pela primeira vez, a Copa não teve uma única cerimônia inaugural, começando com uma sequência de três grandes eventos musicais, um em cada país-sede. México, Canadá e Estados Unidos organizaram suas próprias festas de abertura, reunindo artistas locais e internacionais antes dos primeiros jogos de cada seleção.
Nos principais esportes americanos, há muito mais tempo de intervalo do que de jogo. Uma partida da NBA possui 48 minutos de tempo regulamentar, mas normalmente dura mais de duas horas por causa de pedidos de tempo e intervalos comerciais. Na NFL, jogos de 60 minutos frequentemente ultrapassam três horas de duração pelos mesmos motivos.
A participação dos esportes americanos nos investimentos totais em publicidade na televisão subiu de 21% em 2019 para 26% em 2021. Em 2022, cerca de 31% de toda a receita publicitária da televisão linear — aproximadamente US$ 24,7 bilhões — dependia de transmissões esportivas ao vivo, segundo um relatório de 2025 da Global Sports Insights, empresa especializada em pesquisas de mercado esportivo.
O futebol sempre seguiu um caminho oposto. Sua popularidade mundial foi construída justamente sobre a continuidade. O relógio não para. O espetáculo está concentrado na bola em movimento, não nos intervalos entre uma jogada e outra. Agora, os EUA estão mudando a forma de consumir esse esporte.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-os-eua-querem-colonizar-o-futebol-e-transforma-lo-na-nba/

