Por que a versão dos EUA sobre suposto líder de PCC e CV não convence o Brasil

O presidente dos EUA Donald Trump. Foto: Divulgação

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) anunciou a prisão do brasileiro Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla e afirmou que ele teria ocupado posições de comando tanto no Primeiro Comando da Capital (PCC) quanto no Comando Vermelho (CV).

A detenção ocorreu em 5 de junho, na Carolina do Norte, após uma perseguição conduzida por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), mas só foi divulgada oficialmente nesta semana. Segundo as autoridades americanas, Dell Aquilla entrou ilegalmente nos Estados Unidos em local e data não informados.

Em nota, o governo norte-americano afirmou que ele já teria sido comandante das duas facções criminosas brasileiras, classificadas recentemente pelos EUA como organizações terroristas estrangeiras. A versão, porém, é recebida com ceticismo por investigadores brasileiros que atuam no combate ao crime organizado.

Integrantes da Polícia Federal ouvidos sob reserva consideram incomum a informação de que uma mesma pessoa tenha exercido funções de liderança simultaneamente no PCC e no CV, organizações que mantêm uma histórica rivalidade por rotas e mercados ligados ao tráfico de drogas.

Outro ponto levantado por fontes ligadas às investigações é que Dell Aquilla não apareceria, até o momento, nos bancos de inteligência como integrante formal de nenhuma das duas facções. Segundo esses investigadores, ele possui histórico relacionado a crimes de extorsão e poderia ter mantido relações com grupos criminosos, mas não haveria elementos que o apontassem como dirigente das organizações.

O brasileiro Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla. Foto: Divulgação

Uma autoridade paulista com longa atuação no enfrentamento ao crime organizado também afirmou duvidar que o brasileiro seja integrante do PCC ou do CV. A avaliação é compartilhada pelo sociólogo Gabriel Feltran, pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e professor da Sciences Po, na França.

Autor do livro “Irmãos: Uma História do PCC”, Feltran afirma que as facções atuais possuem estruturas mais descentralizadas do que normalmente se imagina. “Não conheço esse preso e nunca tive informação de que fosse integrante ou líder do PCC. Duvido muito que seja integrante das duas facções”, declarou.

As autoridades americanas informaram ainda que havia um mandado internacional expedido pelo Brasil contra Dell Aquilla por acusações de associação criminosa e extorsão. Entretanto, até a manhã desta terça-feira (16), seu nome não constava na lista pública de difusão vermelha da Interpol. No Brasil, há dois mandados de prisão em aberto pelos crimes de coação no curso do processo e extorsão agravada.

O caso ganhou repercussão poucas semanas após o governo de Donald Trump oficializar a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. A medida entrou em vigor em 5 de junho e amplia o alcance de sanções econômicas, bloqueio de ativos e restrições financeiras contra pessoas e grupos ligados às facções.

Ao anunciar a decisão, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que PCC e CV estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil”. Segundo ele, “A Administração Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional, mantendo drogas ilícitas fora de nossas ruas e interrompendo os fluxos de receita que financiam narcoterroristas violentos”.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-a-versao-dos-eua-sobre-suposto-lider-de-pcc-e-cv-nao-convence-o-brasil/