Banco Master repassou R$ 252 mi a empresas de idosa do hortifruti

O Banco Master pagou R$ 252 milhões a três empresas comandadas por Fábia França, 61 anos, funcionária do setor de hortifruti de um supermercado de Itu (SP) que recebia salário de R$ 1.988 quando passou a responder pelas sociedades.

A informação foi publicada por Amanda Rossi e Marina Giannini, do portal UOL, com base em declaração do Imposto de Renda do banco acessada pela reportagem. A apuração também mostra que Fábia assumiu uma quarta empresa, a The Pay Soluções de Pagamentos, citada pelo Master em operações de R$ 1,7 bilhão com o BRB, o banco público de Brasília.

As quatro empresas ligadas a Fábia foram incluídas pela CPI do INSS em uma lista de “empresas de fachada criadas para operacionalizar simulações de transações de ativos com o Banco Master”. A comissão passou a analisar os negócios porque uma das companhias também é suspeita de ter lavado dinheiro na fraude do INSS.

A nova apuração entra no ponto menos visível do escândalo do Banco Master: a estrutura societária usada para dar aparência formal a operações milionárias. Depois de revelar a rede de políticos, empresários, influenciadores e veículos financiados pelo banco de Daniel Vorcaro, como a lista de nomes que receberam dinheiro do Master, os R$ 27 milhões pagos ao Metrópoles e os repasses atribuídos pela PF a Ciro Nogueira, o caso agora ganha um elo empresarial direto: sociedades sem estrutura aparente, formalmente comandadas por uma trabalhadora de baixa renda, que receberam R$ 252 milhões do banco.

Banco Master pagou empresas em endereços virtuais

As companhias aparecem oficialmente em Goiânia (GO), Olinda (PE), Lauro de Freitas (BA) e Rio de Janeiro. Os endereços, no entanto, seriam de escritórios virtuais, usados para cadastro oficial e recebimento de correspondência.

Os registros na Receita Federal também trazem dados genéricos ou fictícios, como o e-mail [email protected] e o telefone (11) 1111-1111, de acordo com a apuração. Fábia declarou ser “pobre” em um processo trabalhista movido contra o supermercado em que trabalhou.

Localizada pelo UOL em seu endereço residencial, em Itu, Fábia disse não saber explicar os negócios. Ao ouvir o nome das quatro empresas, reagiu: “Que que é isso?”. Em seguida, afirmou que havia algum envolvimento com as empresas, mas que não sabia “o nome das empresas” nem era diretora.

“Eu não vou poder te explicar, porque eu não sei. Negócio de família e eu não sei nem o que significa”, disse Fábia ao UOL.

Fábia França substituiu parentes nas sociedades anônimas

Fábia França é tia de Gustavo França, sócio-fundador da X3 Brazil, escritório que, segundo a reportagem, atua na abertura de empresas em massa. Antes dela, uma prima de Gustavo, Priscila França, havia passado algumas semanas no comando das companhias.

Em junho do ano passado, Fábia foi nomeada diretora de cinco sociedades anônimas: Nanook, Telure, Utter, Bearer e Pardallis. Oficialmente, elas não tinham conexão entre si. Em todas, Fábia substituiu Priscila na diretoria.

As cinco sociedades ficavam em São Paulo. Depois da entrada de Fábia, foram transferidas para outros estados, sempre no endereço de escritórios virtuais. Antes de Priscila e Fábia, as empresas foram dirigidas por pessoas que trabalhavam para a X3 Brazil.

A apuração identificou mais de 150 empresas ligadas à X3. Algumas delas estão em nome de outros membros da família França, de Itu. Em março deste ano, por exemplo, a X3 Brazil abriu a Go Up Participações S.A. em nome da avó de Gustavo, que tem 85 anos. Por meio de uma filha, ela informou que não conhece a empresa.

Sociedades ligadas a Fábia receberam R$ 252 milhões

Três sociedades comandadas por Fábia receberam pagamentos do Banco Master. A Nanook recebeu R$ 52 milhões em 2025 e R$ 41 milhões em 2024. A Telure recebeu R$ 111 milhões em 2024. A Utter recebeu R$ 48 milhões no mesmo ano.

A Utter também é suspeita de ter lavado dinheiro na fraude do INSS. Em novembro, o deputado federal Alfredo Gaspar (União-AL) pediu a quebra dos sigilos bancário e fiscal da empresa.

Segundo requerimento citado na apuração, havia “indícios consistentes” de que a Utter foi favorecida por repasses de ao menos R$ 1,3 milhão da Arpar Participação e Empreendimentos, empresa identificada pela Polícia Federal como peça central em uma engrenagem de lavagem de dinheiro.

Os dados da quebra de sigilo revelaram uma estrutura maior. Em apenas três meses, entre o fim de 2024 e o início de 2025, a Utter recebeu R$ 92 milhões. Metade desse valor teria sido paga pelo Master. A partir daí, a CPI do INSS começou a analisar as relações empresariais da Utter e identificou uma “rede utilizada pelo Banco Master”.

“Esse conjunto de empresas de fachadas, operadas por interpostas pessoas, foram criadas no âmbito da rede de simulação de compra e venda de ativos e lavagem de capitais operacionalizada pelo Banco Master”, diz trecho citado pela reportagem.

The Pay liga Banco Master, BRB e operação de R$ 1,7 bilhão

Um mês depois de ser nomeada diretora das sociedades anônimas, Fábia se tornou administradora da The Pay Soluções de Pagamentos. Também nesse caso, ela substituiu Priscila França, que havia ingressado três meses antes.

A The Pay está na origem da Operação Compliance Zero, investigação que mira o Banco Master e sua relação com o BRB. A Fórum mostrou que a ofensiva da Polícia Federal resultou em 13 prisões por suspeitas de fraudes envolvendo Master e BRB, entre elas a de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do banco público de Brasília.

No início de 2025, o Banco Central pediu informações ao Master sobre R$ 12 bilhões que o banco havia recebido do BRB. Inicialmente, o Master disse que o dinheiro se referia à revenda de carteiras de crédito da The Pay e de associações de servidores da Bahia. Depois, o banco mudou de versão e deixou de atribuir os créditos à The Pay.

Investigação posterior do Ministério Público Federal apontou que o Master informou ao Banco Central um volume ainda maior de operações envolvendo a The Pay. Segundo relatório do MPF citado na apuração, o banco de Daniel Vorcaro declarou que recomprou carteiras anteriormente cedidas ao BRB e adquiridas junto à The Pay. A recompra envolveu volume da ordem de R$ 1,7 bilhão.

“A The Pay é uma típica empresa de fachada, sem um único empregado já registrado em sua existência e cujo objeto social não inclui atividades financeiras”, diz o relatório do MPF citado pela reportagem.

Além de ser citada nos negócios entre o Master e o BRB, a The Pay registrou na Junta Comercial de São Paulo a obtenção de R$ 80 milhões em notas de crédito, entre novembro de 2024 e maio de 2025, junto a fundos da Reag, gestora investigada pela Operação Carbono Oculto e liquidada pelo Banco Central.

Pelo menos R$ 40 milhões dessas notas comerciais foram compradas pelo fundo SDG II. Outros R$ 20 milhões foram comprados pelo fundo Reag High Yield. A Fórum já mostrou que fundos ligados ao escândalo de Vorcaro também aparecem em apurações sobre estruturas financeiras investigadas na Operação Carbono Oculto.

A defesa de Daniel Vorcaro disse ao UOL que não comentaria naquele momento e que se pronunciaria “no momento oportuno”. Gustavo França afirmou à reportagem que não fazia parte da estrutura e que o tema estava com advogados. Em seguida, bloqueou o contato. O advogado Maximiliano Garcia, também sócio-fundador da X3, não respondeu ao portal.

Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/banco-master-idosa-hortifruti/