Trump compensa fracasso no Irã mirando América Latina e Brasil é alvo óbvio. Por Sara Vivacqua

Trump e a América Latina, seu quintal

Em 14 de junho de 2026, os Estados Unidos e o Irã assinaram um memorando de entendimento de 14 pontos para encerrar uma guerra de três meses e meio que fechou o Estreito de Ormuz, abalou os mercados globais de energia e custou mais de 11 bilhões de dólares apenas nos primeiros seis dias de operação.

Os elementos do acordo não alcançam nenhum dos objetivos de guerra declarados pelos EUA e por Israel, incluindo a eliminação do programa nuclear iraniano, o desmantelamento do estoque de mísseis balísticos, o fim do apoio iraniano a grupos de oposição ao Ocidente e a criação de condições para a queda do regime. Trump ainda prometeu US$ 300 bilhões para a reconstrução do país persa.

Na história americana — das negociações do fim da Segunda Guerra Mundial ao Vietnã, do Iraque ao Afeganistão —, os Estados Unidos jamais assinaram um acordo aceitando todos os termos da outra parte. Nem mesmo comercial. Nem em acordos de paz, muito menos ao final de uma guerra que eles próprios iniciaram. Tal acordo deveria ser chamado pela mídia pelo que é: uma capitulação americana.

A conclusão incontornável a partir da assinatura do memorando é que o Irã ganhou a guerra. Trump precisa desesperadamente não apenas de uma vitória política — ele precisa de uma vitória militar para restaurar o que foi quebrado de mais precioso na psique nacional americana: a supremacia militar e o excepcionalismo americano.

Em entrevista ao Axios Show, quando perguntado se uma ação em Cuba seria tão rápida quanto a realizada na Venezuela, Trump respondeu: “É possível. Esses lugares ficam perto. Enquanto o Irã é uma viagem muito longa… a Venezuela é relativamente perto e Cuba é um pulinho.”

Impérios em contenção não recuam — se redirecionam. A América Latina, desde o primeiro dia do segundo mandato de Trump, já era com Marco Rubio o novo centro da guerra ao terror, com a arquitetura jurídica montada: designações terroristas do PCC e do Comando Vermelho, bases no Paraguai e na Argentina, FBI no Equador, Escudo das Américas. O balão de ensaio já foi executado com sucesso: a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-combatente Cília Flores. Como explica o comandante Farinazzo, as invasões militares americanas partem do princípio do risco administrável — e uma aventura na América Latina se apresenta como vitória fácil e barata.

Em 10 de junho de 2026, Pete Hegseth, secretário de Defesa, visitou a base naval de Guantánamo — um centro de tortura instalado em território cubano ilegalmente ocupado pelos EUA. Na saída, pediu publicamente a execução dos prisioneiros de Guantánamo. Anunciou às tropas que Washington estava “retomando o nosso hemisfério” — com a mesma inteligência, as mesmas redes e a mesma força militar usadas contra a Al-Qaeda e o ISIS no Oriente Médio. Citou a Estratégia Nacional de Contraterrorismo de 2026 de Trump como a magna carta doutrinária para a nova guerra ao terror na América Latina. As viagens de Hegseth não são deslocamentos protocolares — são atos de comando e doutrinação das tropas para operações em curso.

No encerramento do G7, Trump declarou que o Brasil “tornou-se um país perigoso politicamente”, confundiu Eduardo Bolsonaro com Flávio Bolsonaro — o candidato à presidência —, e interferiu abertamente nas eleições brasileiras de outubro: “Acabei de me despedir dele e ouvi que prenderam o Bolsonaro Jr. Ele estava indo bem nas pesquisas e o prenderam porque fez uma declaração no Texas.”

O Brasil é o único país de peso na América Latina que resiste ativamente à arquitetura do Escudo das Américas. Uma vitória de Flávio Bolsonaro em outubro entrega aos EUA o maior país da América do Sul — com suas fronteiras amazônicas, seu peso diplomático no BRICS, sua relação com a China e sua resistência histórica à militarização americana do continente. A insistente associação de Lula ao PCC tampouco é retórica aleatória: Lula poderia ser sancionado e sofrer perseguição judicial por supostamente se opor a redes designadas como terroristas. Esse é o script — e não deve restar dúvida de que existe uma ameaça clara à soberania brasileira sendo declarada pela administração Trump.

Em 18 de junho de 2026, a Reuters reportou a saída de diplomatas experientes focados na América Latina da OEA, em conflito com aliados de Trump. O enviado especial da administração para a região, Mauricio Claver-Carone, já havia declarado abertamente sua preferência pelo engajamento bilateral em detrimento dos fóruns multilaterais. Diplomatas profissionais que divergem dessa linha se afastam. Entram operadores políticos com lealdade ideológica direta a Trump. As embaixadas americanas sempre foram extensões do aparato de inteligência. O que muda agora é que esse aparato opera sem os protocolos diplomático — mais rápido, mais agressivo, e com uma doutrina explícita.

O Senado quer investigar possíveis crimes da Administração Trump do governo dos EUA

Em um movimento raro e politicamente significativo, o Senado americano aprovou, em maioria republicana, uma medida para bloquear até 75% dos fundos de viagem de Pete Hegseth, enquanto o Pentágono não entregar ao Congresso investigações sobre crimes de guerra encobertos. O dispositivo foi inserido na Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA) de 2027. Os senadores responsáveis são o republicano Roger Wicker, presidente do Comitê de Serviços Armados do Senado, e o democrata Jack Reed, seu vice.

O Senado exige do Pentágono a liberação de vídeo não editado dos ataques americanos a embarcações próximas à Venezuela. O Pentágono conduziu uma campanha de meses de ataques a barcos no Mar do Caribe e no Pacífico Oriental, matando ao menos 211 pessoas. Em pelo menos um caso, sobreviventes foram mortos em ataques subsequentes — o que especialistas classificam como violação do direito militar e das regras de engajamento. A lista de exigências também inclui o que poderia ser um dos maiores crimes de guerra das operações militares americanas nas últimas duas décadas: o massacre das meninas da escola de Minab, no Irã.

O ataque inaugurou o primeiro dia da guerra EUA-Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2026. O bombardeio matou mais de 165 pessoas — a esmagadora maioria crianças — no campus adjacente a uma base da Guarda Revolucionária. A alegação da administração Trump é de que inteligência desatualizada, processada por inteligência artificial, teria levado ao ataque por erro. O Senado americano parece não acreditar nessa versão — e quer investigar o que se apresenta como um abuso da máquina de guerra do Pentágono para perpetrar crimes contra a humanidade.

É extraordinariamente raro que o Senado americano freie a lógica belicista de uma administração em plena expansão militar. Este movimento sinaliza, no mínimo, que a conduta de Hegseth gerou desconforto dentro do próprio establishment militar americano e entre os republicanos.

O bloqueio bipartidário do Senado, incluindo republicanos, não é apenas supervisão institucional, mas um sinal de que há uma fratura dentro da coalizão que sustenta Trump.

O custo político interno de Trump cresce na mesma proporção em que a derrota no Irã se consolida. As eleições de meio de mandato — as midterms de novembro de 2026 — se aproximam num momento em que republicanos no Senado já votam contra o seu secretário de guerra, Ted Cruz critica abertamente o acordo com o Irã, e o establishment militar questiona a condução de uma guerra lançada sem autorização do Congresso e sem evidência de ameaça iminente. Uma coalizão para o impeachment, ainda latente, deixa de ser improvável quando crimes de guerra documentados — o massacre de Minab, os bombardeios a pescadores no Caribe — aguardam investigação que o próprio Pentágono se recusa a entregar ao Congresso.

Trump precisa se salvar. E historicamente, presidentes americanos em crise política interna buscam a salvação onde o risco é administrável e a vitória é narrativamente simples. A América Latina é esse teatro. Perto. Barato. Com vassalos disponíveis e incondicionais como os Bolsonaros.

A derrota no Irã não esfria a doutrina belicista de Trump, ela muita o eixo e  aquece na América Latina.

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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/trump-compensa-fracasso-no-ira-mirando-america-latina-e-brasil-e-alvo-obvio-por-sara-vivacqua/