Logo na entrada do Cemitério Santa Izabel, em Belém, um túmulo chama atenção pela quantidade de homenagens. Construída em mármore preto, a sepultura de Camilo Salgado está cercada por placas de granito com mensagens de agradecimento, flores, garrafas de água e marcas de velas acesas por visitantes.
Assim como ocorre em outras sepulturas famosas do cemitério, o local recebe pessoas que atribuem graças e pedidos à memória do médico. Muitos dos frequentadores talvez não conheçam a trajetória do homem que, décadas após sua morte, se transformou em um dos personagens mais cultuados da devoção popular paraense.
Camilo Salgado viveu em Belém e morreu em 1938.
A trajetória de Camilo Salgado
Filho de um professor de francês, Camilo Salgado mudou-se de Belém, ainda jovem, para estudar medicina na Bahia, já que àquela época não existia a possibilidade de cursar a faculdade na capital paraense.
A graduação foi concluída, porém, no Rio de Janeiro. O aprimoramento da formação se deu na França, onde o médico adquiriu muito conhecimento e experiência na área cirúrgica antes de retornar a Belém.
Na capital paraense, Camilo Salgado começou a operar em diversos hospitais espalhados pela cidade.
O médico que atendia até quem não podia pagar
Além da habilidade profissional, Camilo Salgado ficou conhecido por atender o maior número possível de pessoas, mesmo quando elas não tinham condições financeiras de pagar pela consulta.
Neto do médico, o dermatologista Ubirajara Salgado conviveu durante mais de três décadas na antiga residência do avô e ouviu inúmeras histórias sobre sua rotina.
“A minha vó contava que, quando ele ia almoçar em casa, encontrava uma fila de pessoas na porta esperando ele para consultar. A minha avó insistia para que ele almoçasse, mas ele só ia comer depois que atendia todas as pessoas”.
Uma vida dedicada à medicina
Segundo Ubirajara, nem os últimos momentos de vida afastaram Camilo Salgado da profissão.
Ele havia participado de uma cirurgia complexa quando começou a sentir dores no peito ainda no centro cirúrgico. Mesmo assim, concluiu o procedimento. Depois, retornou para casa e, após deitar em uma rede, morreu vítima de um infarto.

O fundador da medicina acadêmica no Pará
Além do trabalho nos hospitais, Camilo Salgado também dedicou parte da vida ao ensino médico.
Ao retornar da França, identificou a necessidade de criar formação médica em Belém. A partir dessa iniciativa, tornou-se um dos fundadores da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará.
Inicialmente, a instituição funcionou nas dependências do Colégio Paes de Carvalho. Posteriormente, deu origem ao curso e à Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará (UFPA), responsável pela formação de profissionais até os dias atuais.
Como nasceu a devoção popular
A morte de Camilo Salgado, em 1938, não foi suficiente para encerrar a peregrinação de pessoas que iam até o médico em busca da cura de alguma doença.
Desde sua partida, dezenas de pessoas param diante do túmulo do médico para fazer pedidos relacionados à saúde ou agradecer graças alcançadas.
Segundo Ubirajara Salgado, a devoção surgiu espontaneamente e se fortaleceu ao longo das décadas.
“Apesar de todo o prestígio que ele tinha, ele caracterizava-se por duas coisas fundamentais: a humildade e a caridade. De alguma forma isso ficou no imaginário das pessoas”.
Hoje, mais de oito décadas após sua morte, o túmulo de Camilo Salgado continua sendo um dos locais mais visitados do Cemitério Santa Izabel, mantendo viva a memória do médico que dedicou a vida ao cuidado dos outros.
Fonte: https://diariodopara.com.br/cotidiano/camilo-salgado-o-caso-do-medico-que-virou-santo-popular/

