*por Ricardo Scheffer
A evolução da tecnologia sempre esteve associada ao aumento de produtividade, especialmente no ambiente empresarial e industrial. No entanto, o avanço acelerado da automação introduz uma tensão estrutural inédita. Se, por um lado, as companhias ganham escala, eficiência e previsibilidade, por outro, o papel do ser humano em diversas atividades passa por uma redefinição, o que levanta questionamentos sobre geração de renda, inclusão e acesso aos benefícios da inovação.
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Esse paradoxo exige uma mudança de perspectiva. A inovação não pode mais ser analisada apenas sob a ótica da eficiência operacional; é fundamental considerar seu efeito sistêmico, já que mercados são sustentados por pessoas. Sem inclusão produtiva, não há geração de renda. Sem renda, não há demanda consistente e, sem demanda, não há crescimento sustentável.
Em uma recente entrevista, a futurista Monika Bielskyte trouxe uma provocação que deveria ecoar nos conselhos de administração e nas lideranças de tecnologia: é urgente reconectar a tecnologia à vida. Ou seja, mais do que impulsionar o crescimento de empresas, é preciso garantir que essa evolução gere impacto concreto na sociedade.
A história recente mostra que nem toda inovação gera valor duradouro. Soluções que ignoram contexto social, acessibilidade ou impacto ambiental tendem a enfrentar resistência, seja de consumidores, reguladores ou do mercado de talentos. Nesse cenário, emerge uma nova exigência: inovação com responsabilidade, não como elemento periférico, mas como parte central da estratégia.
Um exemplo simples ajuda a ilustrar esse ponto. A automação no agronegócio, ao otimizar colheitas, não está apenas associada ao ganho de eficiência produtiva, mas também ao aumento da oferta de alimentos e à redução de desperdícios, fatores diretamente ligados à segurança alimentar e ao acesso da população a recursos básicos, sem excluir o crescimento do mercado agrícola.
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Além disso, o uso de Inteligência artificial aplicada, IoT (Internet das Coisas) e Gêmeos Digitais em soluções voltadas a setores como logística, saúde e varejo demonstram como a tecnologia pode atuar como suporte à vida. Sistemas inteligentes otimizam cadeias de suprimentos, ampliam o acesso a diagnósticos e aumentam a eficiência produtiva, ao mesmo tempo em que preservam o foco na experiência e na qualidade de vida das pessoas. Da mesma forma, plataformas de monitoramento e videomonitoramento inteligente fortalecem a segurança pública e a gestão urbana, contribuindo para ambientes mais seguros, eficientes e resilientes. Na prática, já existem caminhos concretos.
Em conectividade, projetos de infraestrutura digital, como infovias de fibra óptica em regiões menos atendidas, contribuem diretamente para a redução de desigualdades ao ampliar o acesso à internet de qualidade, conectam pessoas a oportunidades reais de educação, saúde e desenvolvimento econômico.
Esses exemplos deixam claro que o debate não está no “se” a tecnologia deve avançar, mas no “como”. Quando orientadas por propósito, soluções digitais deixam de ser apenas ferramentas de produtividade e passam a atuar como instrumentos de transformação social.
Por isso, projetar tecnologia com intencionalidade, orientando o desenvolvimento para problemas reais da sociedade e não apenas para viabilidade técnica, é um fator estratégico. Da mesma forma, é fundamental investir em inclusão produtiva, garantindo que a automação caminhe lado a lado com a criação de novas oportunidades, por meio de requalificação e acesso. Isso se traduz na colaboração entre humanos e máquinas, potencializando capacidades em vez de substituí-las.
Esse movimento se consolida no conceito de Industria 5.0, uma evolução em relação ao modelo atribuído à versão 4.0 e que implica sair de um imaginário centrado apenas em avanços técnicos e construir soluções que reflitam impacto positivo, inclusão e propósito. Não se trata de frear o progresso, mas de direcioná-lo.
Como aponta Monika Bielskyte, o futuro depende diretamente das escolhas feitas hoje por empresas e lideranças. A discussão está longe de ser abstrata, ela é profundamente prática. A questão que se impõe ao mercado não é se a automação vai avançar, pois isso já está em curso, mas como garantir que esse avanço seja sustentável, inclusivo e, sobretudo, considere o aspecto humano.
Reconectar tecnologia à vida não é apenas um imperativo ético. É, cada vez mais, uma decisão estratégica que decidirá o futuro da convivência entre humanos e máquinas.
Fonte: https://itforum.com.br/artigos/futuro-tecnologia-sociedade/

