Keir Starmer renuncia hoje ao cargo de primeiro-ministro britânico, deixando como legado a erosão do eleitorado do Partido Trabalhista e um feito inédito: a transferência quase automática do voto trabalhista tradicional para a direita fascista do Reform UK.
“Ele não foi apenas uma decepção. Ele é uma figura mendaz de decrepitude ética”, definiu Yanis Varoufakis, economista e ex-Ministro das Finanças da Grécia.
Starmer abriu as portas do Reino Unido ao fascismo. E começou de modo direto por sua própria política doméstica: uma “guerra ao terror” contra o apoio pró-Palestina, que criminalizou a sociedade civil britânica de maneira sem precedentes no Reino Unido do pós-guerra, sob leis de terrorismo e segurança nacional— algo de difícil comparação mesmo no cenário europeu contemporâneo de repressão à chamada “esquerda radical”.
Na política externa, Keir Starmer poderia ser levado ao Tribunal de Haia por sua ajuda militar, de inteligência e política ao genocídio em Gaza.
Andy Burnham, antigo prefeito de Manchester, emerge agora como o provável novo líder do Partido Trabalhista, e sucessor da cadeira vazia de Starmer. Ao contrário do que tem sido dito na mídia brasileira, Burnham não deve ser entendido como uma guinada à esquerda. Ele é o óleo da engrenagem de um partido estruturalmente comprometido com o sionismo, com o neoliberalismo e com o atlanticismo.
Ele emerge como herdeiro de um projeto bem calculado e financiado do grupo chamado Labour Together, que culminou no expurgo da esquerda e, inclusive, de seu líder, Jeremy Corbyn. Essa era a missão para a qual Starmer serviu — e que ele cumpriu. Andy Burnham será o próximo na linha de sucessão. Aqui, trata-se da troca de guarda da liderança executiva britânica com o aval das redes sionistas internacionais.
Na minha experiência pessoal como advogada do governo britânico em Westminster, vi Burnham sobretudo como um saco vazio: alguém que sabia muito bem cooptar qualquer insatisfação política para ganhar popularidade. Vi, inclusive, Burnham sabotar de forma enérgica e persistente políticas ambientais urgentes e necessárias, baseadas em ampla pesquisa científica, para benefício político próprio.
Por que Starmer sai e Burnham entra
Starmer não sai por vontade própria, mas como consequência de uma retirada forçada de apoio político dentro do Labour, inclusive de seus próprios ministros, depois que a maioria dos deputados concluiu que ele não conseguiria levar o partido à próxima eleição sem abrir caminho para Nigel Farage e o Reform UK — partido fascista de ultradireita em plena ascensão, que soube cooptar inclusive parte do voto trabalhista tradicional.
Pesou também o caso Epstein. Starmer confirmou que tinha conhecimento da relação de longa data de Peter Mandelson com o falecido bilionário pedófilo antes de nomeá-lo embaixador nos EUA.
No começo de junho, a YouGov colocou o Reform UK em primeiro lugar nas pesquisas, com 27%, enquanto o Partido Trabalhista aparecia empatado com os conservadores em 18%. A ultradireita aparece com 9 pontos de vantagem sobre o partido no governo.
A esse futuro nada promissor soma-se a derrota nas eleições locais de maio de 2026, tratada como histórica porque o partido do governo perdeu terreno em praticamente todas as frentes: para o Reform UK em áreas populares e ex-industriais; para os Verdes em setores progressistas e urbanos; e para os liberais-democratas em partes do sul da Inglaterra.
O resultado foi devastador: os trabalhistas perderam 1.496 vereadores e o controle de 38 conselhos locais.
Andy Burnham venceu agora a eleição suplementar de Makerfield com quase 55% dos votos, derrotando de forma expressiva o Reform UK. Com isso, volta ao Parlamento como deputado, deixando a prefeitura da Grande Manchester.
Burnham ascende com uma fórmula eleitoral apresentada como eficaz contra a ultra-direita populista, e sua vitória foi tratada como uma espécie de plebiscito interno contra Keir Starmer — e em favor de Burnham como novo líder do partido.
Burnham passou a ser vendido como o “Reform slayer”, isto é, o político capaz de recuperar eleitores populares e impedir Nigel Farage de capitalizar a crise social.
No sistema britânico, o primeiro-ministro não é eleito diretamente pelo povo. Ele é, na prática, o líder do partido que tem maioria na Câmara dos Comuns. Andy Burnham, portanto, emerge como o novo consenso de um partido que hoje é tudo, menos expressão do trabalhismo.
O “Novo Trabalhismo”
Starmer foi mantido no poder pelo establishment mesmo depois do escândalo Mandelson/Epstein, inclusive após ser acusado de mentir ao Parlamento sobre o processo de nomeação de Peter Mandelson para um dos cargos diplomáticos mais relevantes do Reino Unido: embaixador britânico em Washington.
Mandelson, arquiteto histórico do “Novo Trabalhismo”, virou um problema mortal para Starmer. Documentos e reportagens expuseram de forma mais contundente ao público que Mandelson manteve contato com Epstein mesmo depois da condenação de 2008; que havia dúvidas sobre sua relação com entidades ligadas a Ghislaine Maxwell; e que Epstein teria feito pagamentos a contas ligadas a Mandelson ou a seu marido brasileiro, Reinaldo Avila da Silva.
O Parlamento britânico é profundamente atravessado por redes de financiamento pró-Israel. Segundo a Declassified UK, organização britânica de jornalismo investigativo, um quarto dos parlamentares britânicos recebeu financiamento de grupos, indivíduos ou instituições pró-Israel. A mesma Declassified UK também revelou que mais da metade do gabinete de Keir Starmer recebeu financiamento de grupos ou indivíduos pró-Israel.
Burnham, um camaleão do oportunismo como poucos
Andy Burnham é exatamente o nome que atende ao projeto. Um vídeo antigo voltou a circular nas redes como pequena amostra da sua volatilidade e subserviência ideológica: quando disputava a liderança do Partido Trabalhista, Burnham dizia que, se chegasse a primeiro-ministro, sua primeira visita oficial ao exterior seria a Israel.
“The first foreign visit I would do as leader of the Labour Party would be to Israel.”
A 2015 video of Andy Burnham has resurfaced online and is drawing renewed criticism, focusing on his statement that his first foreign visit as Labour leader would be to Israel.
The clip,… pic.twitter.com/JpkBGhL9jH
— Middle East Eye (@MiddleEastEye) June 21, 2026
Burnham também condenou o movimento BDS — boicote, desinvestimento e sanções contra Israel — e descreveu Israel como “uma democracia com longa história de proteger minorias e promover direitos civis”. Mais grave: recusou-se a chamar as ações de Israel em Gaza de genocídio.
O sentido dessas falas é mostrar às redes pró-Israel que hoje controlam o partido de que ele seria um líder “confiável” nessa pauta. Enquanto isso, Burnham se promove como trabalhistas e progressista entres as massas, uma tarefa que Sir Kier Starmer jamais se prestaria a fazer.
No Reino Unido, há uma piada que define bem Burnham: entra em um pub um apoiador de Corbyn e pede uma cerveja; entra um apoiador de Blair e pede uma cerveja; entra um conservador e pede uma cerveja. O garçom serve uma cerveja a Andy Burnham.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-andy-burnham-favorito-para-novo-premie-do-reino-unido-e-ainda-pior-que-starmer/

