Pilar da memória: a intolerância religiosa é o dejeto da extrema direita

 

“Vós sois [filhos] do diabo, vosso pai; e quereis pôr em prática as vontades de vosso pai. Ele é homicida desde o princípio e não esteve nem está na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere a mentira, profere a partir dos seus, pois é mentiroso e é pai [da mentira]”
(Evangelho de João, 8: 44)

As mídias sociais estão incendiadas, outra vez. Agora em torno da invasão de policiais militares, em São Paulo, a uma escola pública da zona oeste, em novembro de 2025. Entraram armados, não para conter um crime, mas para interpelar uma direção escolar sobre uma atividade pedagógica que tratava de cultura afro-brasileira e da mitologia dos orixás. A cena, por si, já diz quase tudo. O resto é ruído — e o ruído, no Brasil, costuma vir vestido de distração em relação ao essencial.

Não é um episódio isolado. É repetição. E a repetição da violência é método histórico de uma sociedade que não a elabora. Falta-nos memória — ou, mais precisamente, há demasiada recusa ativa de memória. Recusa de comissões de verdade levadas até o fim, recusa de justiça histórica consequente, recusa do trabalho de luto em torno da escravidão, dos golpes, das ditaduras. O que não é elaborado recalca-se. E o recalcado retorna como ansiedade coletiva.

Às vezes penso que o Brasil é o avesso de Funes, o memorioso, de Borges. Funes lembrava tudo e, por isso, era incapaz de abstração, de conceito, de pensamento. Nós fazemos o contrário: esquecemos quase tudo e chamamos isso de normalidade democrática. Talvez seja nossa forma particular de insanidade.

E ainda assim — e aqui há uma tensão que não abro mão — pensar exige esquecer. Borges está certo nisso. A vida mental precisa de cortes, de seleção, de esquecimento produtivo. Mas há uma fronteira. Há fatos que não podem ser esquecidos sem que a própria ideia de civilização se degrade. Escravidão não é ruído. Ditadura não é detalhe. Violência de Estado não é opinião divergente.

Por isso me vejo, neste país de amnésia induzida, como uma espécie de exceção incômoda. Não por virtude pessoal, mas por insistência: há coisas que eu não aceito ver dissolvidas na poeira do esquecimento conveniente que a classe dominante brasileira, historicamente autoritária e racista, administra tão bem.

É dessa posição que rememoro o caso do Queermuseu, encerrado em Porto Alegre em setembro de 2017, após uma campanha de pânico moral organizada nas redes sociais por setores da extrema direita brasileira, com protagonismo do Movimento Brasil Livre. Fotografias descontextualizadas, acusações falsas de “pedofilia” e “zoofilia”, e a fabricação deliberada de um inimigo público: a arte contemporânea reduzida a ameaça moral.

O Santander Cultural, então responsável pela exposição, decidiu encerrá-la. Havia sido viabilizada com recursos da Lei Rouanet — isto é, dinheiro público canalizado para uma instituição privada. Não houve prejuízo financeiro. Houve algo mais revelador: uma rendição política. A cultura pode ser financiada, desde que não incomode.

O que se produziu ali foi um modelo. Um roteiro. Um aprendizado. E esse aprendizado não ficou restrito a 2017.

Porque há também contradição — e a contradição, no Brasil corporativo, raramente é inocente. O mesmo Santander que recuou diante da campanha de ódio ao Queermuseu trouxe ao país, no Farol Santander, em São Paulo, a exposição Saramago – Os pontos e a vista, incorporando material audiovisual do documentário José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes. Ali estavam José Saramago e Pilar del Río, não como ícones distantes, mas como presença biográfica, cotidiana, atravessada por imagens de convivência, trabalho e pensamento.

Foi nesse contexto que Pilar del Río me convidou para a abertura da exposição. Não foi um gesto protocolar. Foi um gesto de coragem — contra a covardia anterior do próprio sistema cultural empresarial diante da ofensiva moralista; contra a impostura de quem financia cultura com dinheiro público e recua diante do conflito; contra uma máquina de pânico moral que já então anunciava a escalada neofascista que desembocaria na eleição de 2018.

Mas foi também, e talvez sobretudo, um gesto de generosidade pessoal. Eu já havia sido transformado em alvo privilegiado daquele tipo de comunicação política baseada em mentira organizada, amplificada por mídias sociais, estruturada pela fabricação de inimigos e pela circulação de calúnias com verniz de opinião. Eu já conhecia, na pele, o que significa ser convertido em personagem de um teatro de pânico moral.

Pilar del Río — hoje minha amiga — não apenas entendeu isso. Ela recusou a lógica da contaminação. E é por isso que, aqui, lhe ofereço estas flores em vida.

Pilar nasceu em Castril, Espanha, em 1950. Formada em jornalismo, tornou-se tradutora fundamental da obra de José Saramago para o universo hispânico. Mas isso é apenas a superfície biográfica. O que importa é sua atuação como intelectual pública e como presidente da Fundação José Saramago, em Lisboa, onde preserva e atualiza um legado que insiste na dignidade humana como núcleo irredutível da política.

Saramago — escritor português, Nobel de Literatura — dedicou a ela não apenas a vida, mas a espinha dorsal de sua obra tardia. Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim, romances decisivos, ele faz da ficção um dispositivo de crítica radical à violência inscrita na tradição religiosa ocidental, especialmente na leitura dogmática do Antigo Testamento. Não se trata de anticlericalismo superficial, mas de desmontagem das engrenagens simbólicas que legitimam a intolerância como se fosse verdade.

É impossível não reconhecer, hoje, a permanência dessas engrenagens. Elas reaparecem no ataque ao Queermuseu. Reaparecem na invasão policial de uma escola por causa de orixás ensinados a crianças. Reaparecem sempre que a diferença é convertida em ameaça e a cultura em delito.

Talvez por isso estas flores não sejam apenas homenagem. São também um modo de insistir que há memória onde tentam produzir esquecimento. E que, contra a pedagogia do medo, ainda há quem se recuse a esquecer o essencial.

Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Autor, entre outros livros, de Falsolatria (Editora Nós e Edições Sesc São Paulo) e O anonimato dos afetos escondidos (Tusquest Editores). É pré-candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo.

 

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/pilar-da-memoria-a-intolerancia-religiosa-e-o-dejeto-da-extrema-direita/