Ex-assessor do gabinete de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e uma espécie de ideólogo da comunicação do clã, o publicitário Felipe Cruz Pedri fez coro com o influenciador Paulo Figueiredo na rede X, que em ataque misógino e machista afirmou que “mulher vota mal, principalmente solteiras”. O levante acontece após vídeo-bomba de Michelle Bolsonaro (PL) focado em evangélicos e no eleitorado feminino, onde o enteado está cerca de 20 pontos atrás de Lula.
Na madrugada desta terça-feira (30), Pedri mirou a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), que anunciou que entrou com ofício junto à Procuradoria-Geral da República para pedir providências contra Figueiredo e enquadrou o caso como violência política de gênero.
“Bicho, isso é aqui é o retrato número um da ditadura moderna. O câncer do feminazismo, instrumento perverso contra a masculinidade no Ocidente”, escreveu o ex-assessor de Flávio Bolsonaro, que foi levado por Onyx Lorenzoni (PP-RS) para o Ministério da Casa Civil logo no início do governo Jair Bolsonaro.
Cinco dias após deixar a Casa Civil em abril de 2020, Pedri foi nomeado assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro e voltou poucos meses depois para um cargo ainda mais relevante no Palácio do Planalto, tornando-se secretário de Comunicação Institucional.
https://x.com/FelipePedri/status/2071811045820096873
Atuando na milícia digital de Eduardo e Flávio Bolsonaro que decretou fogo-amigo contra Michelle Bolsonaro, Pedri também compartilhou uma publicação em que Paulo Figueiredo reitera o ataque misógino e machista ao compartilhar um print de reportagem da Folha de S.Paulo.
“Deixa eu me retratar: mulher não vota muito mal, mulher vota mal PARA CARALHO. Especialmente as solteiras. Se trabalha na Folha então, pior ainda”, escreveu Figueiredo, ressaltando que “nem sempre foi assim”.
“Isso tem a ver com o avanço desta ideologia demoníaca feminista que está destruindo a vida das mulheres. Posso e vou provar. Se ficaram chocados, preparem-se para o Paulo Figueiredo Show de amanhã porque vai faltar pentelho…”, emendou, expondo o esgoto bolsonarista.
https://x.com/pfigueiredo08/status/2071633623724233214
Pedri: ideólogo da comunicação e a porta-giratória
Pouco conhecido do grande público, mas respeitado dentro da engrenagem bolsonarista, Felipe Cruz Pedri construiu sua trajetória transitando sem constrangimentos entre cargos estratégicos no Palácio do Planalto e o gabinete do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), num movimento de “porta-giratória” que revela como o clã sempre tratou Estado, governo e projeto político como partes de uma mesma estrutura de poder.
Publicitário de formação e militante da ala ideológica inspirada por Olavo de Carvalho, Pedri nunca foi apenas um técnico da comunicação. Desde os primeiros meses do governo Bolsonaro tornou-se um dos quadros políticos encarregados de dar forma à narrativa do bolsonarismo.
Sua ascensão começa na Casa Civil, então comandada por Onyx Lorenzoni. Ali ocupava um cargo de assessor especial quando passou a integrar o círculo de confiança responsável pela comunicação política do governo.
Ao mesmo tempo, consolidava sua posição entre os chamados “olavistas”, tornando-se um dos autores do manifesto de fundação do fracassado Aliança pelo Brasil, partido idealizado por Jair Bolsonaro após o rompimento com o PSL.
Casa Civil, gabinete de Flávio e Secom
Em abril de 2020, o general Walter Braga Netto promoveu uma reorganização da Casa Civil e exonerou diversos assessores ligados à ala ideológica. Entre eles estava Felipe Pedri.
Cinco dias depois, Pedri reapareceu nomeado para um dos cargos mais bem remunerados do gabinete de Flávio Bolsonaro no Senado. O episódio expôs, de forma cristalina, a fluidez com que integrantes do núcleo bolsonarista migravam entre funções de Estado e postos diretamente vinculados ao projeto político da família presidencial.
Não se tratava de uma simples acomodação funcional. A nomeação demonstrava que, mesmo afastado formalmente do Executivo, Pedri permanecia dentro do círculo de confiança do clã Bolsonaro.
A permanência no Senado foi igualmente breve.
Meses depois, Pedri retornou ao Palácio do Planalto, desta vez promovido ao cargo de secretário de Comunicação Institucional da Secretaria Especial de Comunicação (Secom), área estratégica responsável pela comunicação oficial da Presidência.
O movimento fechava o ciclo da porta-giratória: saiu da Casa Civil, foi acolhido pelo gabinete de Flávio Bolsonaro e voltou ao coração do governo federal em posição ainda mais influente.
Na prática, sua trajetória evidenciava que a confiança política depositada pelo clã pesava mais do que qualquer rearranjo administrativo.
O ideólogo da comunicação
Dentro do bolsonarismo, Pedri nunca foi visto apenas como um assessor.
Seu nome aparece ligado à elaboração do manifesto do Aliança pelo Brasil, documento que sintetizava as bandeiras do movimento: combate ao chamado “globalismo”, defesa do conservadorismo moral, liberalismo econômico e forte influência do pensamento de Olavo de Carvalho.
Nas redes sociais, também protagonizou declarações alinhadas ao discurso mais radical do bolsonarismo, criticando medidas de isolamento durante a pandemia e reproduzindo teses que circulavam entre os setores ideológicos do governo.
Esse perfil o transformou em muito mais que um gestor de comunicação. Tornou-se um formulador político e um operador da narrativa bolsonarista.
A confiança do clã
Embora sua passagem institucional mais evidente tenha ocorrido pelo gabinete de Flávio Bolsonaro, Pedri sempre orbitou o núcleo familiar do ex-presidente.
A circulação entre Casa Civil, Secom, gabinete do senador e, posteriormente, Secretaria do Audiovisual demonstra que sua permanência no primeiro escalão dependia menos da estrutura administrativa e mais da confiança política acumulada junto ao bolsonarismo.
Essa proximidade voltou a aparecer em 2026.
Em meio ao reposicionamento político de Flávio Bolsonaro, Pedri ressurgiu como um dos articuladores mais próximos do senador, acompanhando agendas nos Estados Unidos e participando de encontros do núcleo bolsonarista ligados também a Eduardo Bolsonaro e aliados do trumpismo.
Pedri participou de reuniões promovidas por Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, integrando um grupo de dirigentes, estrategistas e aliados encarregado de discutir comunicação, organização partidária e estratégias eleitorais do bolsonarismo.
O episódio reforça um padrão observado desde o início do governo Bolsonaro: Pedri atua como quadro político compartilhado pelo núcleo familiar, transitando entre diferentes espaços de poder sem perder acesso às principais lideranças do grupo.
Um operador da engrenagem bolsonarista
A trajetória de Felipe Cruz Pedri ajuda a compreender como funciona a engrenagem política construída pela família Bolsonaro.
Mais do que ocupar cargos públicos, ele personifica um modelo em que funções de governo, mandatos parlamentares e projeto político se entrelaçam continuamente. Sua carreira é marcada por um trânsito permanente entre o Estado e a estrutura privada de poder do bolsonarismo, sempre impulsionado pela confiança do clã.
Num movimento raro até mesmo na política brasileira, Pedri deixou um ministério para assumir cargo com Flávio Bolsonaro e, poucos meses depois, retornou ao centro do governo federal em posição ainda mais estratégica.
Hoje, continua figurando como um dos operadores discretos do bolsonarismo raiz, mantendo interlocução com os principais integrantes da família, especialmente Flávio e Eduardo Bolsonaro, em agendas de articulação política dentro e fora do país.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/ex-assessor-flavio-bolsonaro-ataca-mulheres-cancer/

