Jogar por música: Nietzsche e o futebol brasileiro

Multidão, agitação, comoção — o futebol, quase automaticamente, soa próximo do que há de mais popular no Brasil: a associação não é natural; foi necessário um período superior a um século para que fosse formulada a relação do esporte com essas grandes mobilizações. É ingênuo imaginar que esse processo histórico foi linear, espontâneo ou sem ruídos, isento de intencionalidade e conflitos entre perspectivas. O estrondo que se instaura em torno do jogo põe abaixo qualquer suposição nesse sentido.

Sobretudo porque a modalidade se consolida no país no século XX, quando a população atravessou as restrições à participação política da República Oligárquica, o recrudescimento da violência política do pré-guerra até a derrota do Eixo durante o Estado Novo, e a perseguição implacável a opositores empregada pela Ditadura Civil-Militar. A elaboração do caráter popular do futebol se desenvolveu sob diferentes atos de agressividade, entre ensaios de democracia e longos intervalos autoritários. 

Em nenhuma hipótese seria apenas uma livre expressão da vontade. A brutalidade se soma ao ímpeto de grandes contingentes populacionais, em ambiente urbano, amplificado por transformações em vários níveis. A circulação de valores, principalmente com o desenvolvimento da paisagem urbana, fazia com que expressões do futebol atravessassem distâncias e fossem pronunciadas por pessoas diferentes, quando sentidos previamente fixados eram alterados. Deriva disso também a visão de que a multidão é incontrolável.    

Irrompe, então, a dimensão agônica do esporte: no interior da sociedade, são travadas disputas de significados a partir das ambivalências próprias ao futebol. Inicialmente limitada aos círculos aristocráticos brasileiros, a modalidade extrapola fronteiras de público com arquibancadas de capacidade cada vez maior e audiências mais abrangentes na emergência da radiodifusão; capaz de dar vazão aos ânimos da população espremida em cidades com o intuito de manter a ordem, o esporte tem sido ainda pródigo em instaurar tensões.   

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Os conceitos de Friedrich Nietzsche (1844-1900) não exibem qualquer desconforto quando na esfera do conflito. A despeito das ranhuras na obra do filósofo, por excelência fragmentária, existe uma continuidade nessa disposição para o confronto: mesmo que as disputas assumam feições distintas, até opostas a depender das situações que deram origem às publicações. Em um momento anterior e com a Alemanha diante dos olhos, a cultura popular também vai aparecer sob o domínio da agonística.

Já em O Nascimento da Tragédia — Ou Helenismo e Pessimismo, de 1872, Nietzsche vai se debruçar sobre a índole da multidão e identificar problemas estéticos. O livro veio a público no ano seguinte à fundação do Império e a proximidade de datas não é uma coincidência. O filósofo se imbui da missão de estipular os parâmetros para uma arte efetivamente trágica séculos após a Antiguidade Clássica e, simultaneamente, de enaltecer o gênio do compositor Richard Wagner (1813-1883) enquanto referência para a Alemanha nascente.    

A posição seria revisada na fase madura e as defesas de Wagner ganhariam contornos de escárnio. Permaneceria, contudo, algum interesse nietzscheano por encarar o popular sob a ótica da estética — ou melhor, de conflitos estéticos. A vinculação ao wagnerianismo tem incentivado que sejam encaradas com detalhamento as delicadas nuances políticas do filósofo. O preconceito, a inclinação antissemita e o apelo à força, por exemplo, podem ser examinados a partir disso, já que as associações do músico com esses valores são frequentes.

As disputas, assim, vão se deslocar para o interior da obra. Ora devido aos vaivéns do próprio autor com o passar do tempo; ora com as múltiplas leituras feitas de seus textos, em conjunturas distintas ou por comentadores diferentes. E até os estímulos sonoros entram em cena para a reivindicação ou a negação de Nietzsche. O juízo estético das multidões será retomado, inclusive, por meio da música e dos seus efeitos corpóreos para dar conta do frequente arrebatamento que marca manifestações da cultura popular.   

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Sob o estrondoso desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938, Gilberto Freyre (1900-1987) reagiu à provocação de um repórter sobre a campanha no torneio, aos solavancos de uma imaginada “multidão patriótica” – a cena é descrita logo no princípio da coluna publicada pelos Diários Associados. No registro, paradigmático, o autor classifica o modo de praticar o esporte no país por meio de referenciais da Antiguidade Clássica, a exemplo da estética de Nietzsche na Alemanha unificada.

A desenvoltura com a bola nos pés seria, aqui, uma expressão da agilidade para assimilar, dominar, amolecer em dança, em curvas ou em música técnicas com origem nos Estados Unidos ou na Europa. O diferencial brasileiro era, por esse prisma, a capacidade de converter para o som a concretude dos métodos preestabelecidos por estrangeiros. A julgar pelos efeitos esportivos, o potencial causaria muito barulho internacionalmente, com os elogios à atuação dos jogadores e o terceiro lugar no torneio — a melhor colocação até então.

Há uma contraposição entre brasileiros e estadunidenses ou europeus que reafirma a dimensão de conflitos no futebol. Isso não é mera sugestão da influência de Nietzsche: no mesmo texto o autor menciona Oswald Spengler (1880-1936), conhecido leitor do filósofo alemão. São muitos os indícios de que o pensamento freyriano se apropriou desse panorama conceitual para apresentar a noção de esporte e, especificamente, as implicações disso para o contexto brasileiro. Na mesma direção, o registro na imprensa dá outros indicativos.

A dissolução de individualidades, a comoção experimentada coletivamente e o horizonte trágico, presentes na experiência artística, remetem a Nietzsche e à música. Se a modalidade se caracteriza como dança lírica nessa perspectiva, não é possível ignorar a ambiência sonora que ditava a cadência do jogo. O alvoroço dos torcedores define o ritmo do futebol no Brasil.  Apesar do interesse no transcorrer das partidas, os ouvidos se voltam para o que acontece fora dos gramados. E, com efeito, dos estádios também.

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A atenção para as influências da sociedade, externa ao jogo, é sinalizada pelo próprio Freyre no jornal ainda em 1938: é traçada uma hierarquia que subordina as decisões do Barão do Rio Branco (1845-1912) às de Nilo Peçanha (1867-1924). Ao som dos choques entre ambos, no texto, fica explícita a correlação entre o futebol e os conflitos de ordem política no Brasil. Logo se instaura, sob a ótica nietzscheana, uma linhagem de escritores interessados pelo futebol: todos nitidamente influenciados pelo autor pernambucano.

Executivo de mídia, comentarista esportivo e escritor, Mario Filho (1908-1966) cultivou tamanha proximidade que Freyre chegou a assinar o prefácio do livro O Negro no Futebol Brasileiro em 1947. Dessa relação se sobressaem a tentativa de assimilação por meio do esporte e uma proposta coletiva – em uníssono com as tendências da época para formular orientações para o país diante da urbanização, da industrialização e das vertiginosas mudanças em curso. Na mesma família, ecos de Nietzsche foram mais audíveis.

Não é à toa que uma antologia teatral de Nelson Rodrigues (1912-1980) foi batizada de Eterno Retorno: o uso do conceito nietzscheano escancara os múltiplos cruzamentos entre ambos. Reconhecido como um dos principais intérpretes do futebol no país, o jornalista e dramaturgo brasileiro tem escritos que abusam da tragicidade e dos ataques à moral – inclusive ao tratar da modalidade, de seus principais personagens e jornadas épicas. Politicamente, nunca houve hesitação para se posicionar como conservador ou reacionário.

Em contraponto, Darcy Ribeiro (1922-1997) enxerga no futebol a capacidade de afirmar a exuberância do Brasil para o mundo. O sociólogo e político desloca o esporte para o horizonte de emancipação do país da condição de subalternidade ao cantar a plenos pulmões a vocação para criar uma nova Roma, apta a oferecer uma resposta à civilização após séculos de violência contra negros e indígenas. Ambições de grandeza, sentidos nacionais, demonstrações de força – indicativos que igualmente ressoam Nietzsche.

Helcio Herbert Neto (@exarrobasom) é doutor em História Comparada pela UFRJ e pós-doutor em Estudos Culturais e Mídia pela UFF, com estágio pós-doutoral no Museo de la Memória y los Derechos Humanos do Chile. Mestre em Comunicação pela UFF, é formado em Filosofia (UERJ) e Jornalismo (UFRJ). É autor dos livros “Conte Comigo” (2022) e “Palavras em Jogo” (2024), tem passagens por algumas das principais redações do país e escreveu para as versões brasileiras de The Intercept, Le Monde Diplomatique e VICE.

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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/jogar-por-musica-nietzsche-e-o-futebol-brasileiro/