Cabo Verde: das canções de Cesária Évora aos gramados do Mundial

“Terra de paz, terra de alegria”. Foi assim que Cesária Évora descreveu Cabo Verde na canção Cabo Verde Terra Estimada. Décadas antes do arquipélago chamar atenção nos gramados, a artista conhecida como a “diva dos pés descalços” já havia apresentado ao mundo um arquipélago onde praias, montanhas e uma cultura de raízes africanas e portuguesas dividem o mesmo horizonte.

Até esta Copa do Mundo, Cabo Verde raramente aparecia no noticiário esportivo. Vale enfatizar o raramente aparecia: bastaram dois jogos para isso mudar. Em sua primeira participação no torneio, a seleção segurou um empate sem gols contra a favorita Espanha e depois arrancou um 2 a 2 diante do Uruguai, bicampeão mundial. Entre os destaques do time está o goleiro Vozinha, veterano de 40 anos que defendeu com garras e luvas o gol cabo-verdiano. Agora é aguardar o que vem do embate com a Argentina na sexta-feira (3).

Localizado em pleno Oceano Atlântico, a cerca de 600 km da costa africana, o arquipélago de Cabo Verde costuma despertar, em quem desembarca por lá, uma sensação que vai além da geografia e beira a familiaridade. O país lembra, em alguns aspectos, um Brasil colonial: moradores falam português, acompanham novelas brasileiras e compartilham referências culturais que atravessaram o Atlântico. Em seu artigo Brasil e Cabo Verde – uma ponte de afetos, a escritora cabo-verdiana Fátima Bettencourt destaca as semelhanças entre os dois países na cultura, na música, na culinária, no ritmo, na espontaneidade e até no jeito de ser. Não por acaso, muitos brasileiros descrevem os cabo-verdianos como parentes distantes.

Veja 10 curiosidades sobre Cabo Verde:

1. Dez grãozinhos de terra

“Esses dez grãozinhos de terra que Deus espalhou no meio do mar”. A imagem cantada por Cesária Évora ajuda a visualizar um país que não forma um território contínuo, mas um arquipélago de dez ilhas vulcânicas espalhadas pelo Atlântico, cada uma com características próprias.

No total, são cerca de 4 mil km² divididos entre dois grupos de ilhas. Ao norte, as ilhas Barlavento (de onde sopra o vento) reúnem Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia – a única ilha desabitada do país -, São Nicolau, Sal e Boa Vista. Ao sul, as ilhas Sotavento (para onde o vento escoa) concentram Maio, Santiago, Fogo e Brava.

As diferenças entre elas ajudam a explicar por que tantos viajantes combinam mais de uma ilha no mesmo roteiro. Sal e Boa Vista concentram praias e esportes aquáticos. Santiago, a maior delas e onde fica a capital Praia, reúne vida urbana e marcos da colonização portuguesa, como a Cidade Velha.

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São Vicente é considerada o coração cultural do arquipélago, especialmente na cidade do Mindelo, berço de Cesária Évora. Já Santo Antão guarda algumas das paisagens mais impressionantes de Cabo Verde, com vales profundos e trilhas que cortam a ilha. Fogo se destaca pelo Pico do Fogo, vulcão ativo que alcança 2.829 metros de altitude, enquanto Brava é conhecida pela vegetação mais verde.

Pequeno no mapa, Cabo Verde reúne dez ilhas com identidades próprias (Peter Fitzgerald/Wikimedia Commons)

2. Uma das democracias mais estáveis da África

É dito que os portugueses chegaram em Cabo Verde no século 15 e encontraram o arquipélago desabitado. Por conta da sua localização entre a África, a Europa e as Américas, as ilhas logo ganharam importância nas rotas marítimas e se tornaram um dos principais entrepostos do comércio de escravizados. O país permaneceu sob domínio português até conquistar a independência, em 1975.

Cinco décadas depois da independência, Cabo Verde costuma chamar atenção por sua estabilidade política. No Relatório da Democracia 2025, do instituto V-Dem, o país aparece entre as democracias mais consolidadas da África, enquanto em 2024 a Mo Ibrahim Foundation o colocou em 3º lugar em qualidade de governança entre 54 países africanos, atrás apenas de Seicheles e Maurício.

Desde a adoção do multipartidarismo, em 1991, o país já passou por diversas alternâncias de poder sem golpes de Estado ou episódios significativos de violência política. Isso não significa ausência de desafios: o relatório do V-Dem aponta questões como desigualdade social e queda na participação eleitoral.

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3. Português? Sim e não

Os brasileiros que desembarcam em Cabo Verde conseguem ler placas e jornais sem grandes dificuldades. Isso porque o português é a língua oficial do país, utilizada nas escolas, na imprensa e nos serviços do governo.

A sensação de familiaridade dura até você ouvir uma conversa na mesa ao lado. No dia a dia, quem domina é o crioulo cabo-verdiano, língua materna da maior parte da população. Resultado do encontro entre o português e diferentes idiomas africanos ao longo dos séculos, ele alterna entre o familiar e o desconhecido.

E nem existe apenas um crioulo cabo-verdiano. Cada ilha desenvolveu suas próprias variantes e sotaques. Um morador de Santiago pode falar de forma diferente de alguém de São Vicente, embora todos consigam se entender. Hoje, o crioulo cabo-verdiano passa por um processo de normatização e há um debate sobre seu reconhecimento como segunda língua oficial do país, ao lado do português.

Rua de paralelepípedos com pessoas caminhando e conversando em frente a uma mercearia azul com mapas amarelos pintados na parede e um prédio vermelho ao lado, sob céu azul claro
A ilha do Sal, de casas coloridas, revela a mistura cultural que define Cabo Verde (Petr Ganaj/Pexels)

4. Palavras sem tradução

Você já deve ter ouvido algum brasileiro dizer que a palavra “saudade” não tem tradução. Em Cabo Verde, existem duas expressões que provocam uma discussão parecida: morabeza e sodade.

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Morabeza costuma ser descrita (ou tentar ser descrita) como uma mistura de hospitalidade com alegria. É uma forma de receber as pessoas, de tratar desconhecidos como amigos e de fazer qualquer visitante se sentir em casa poucos minutos depois de chegar. Em outras palavras, é a essência calorosa do povo cabo-verdiano.

A sodade é o sentimento de quem parte. Calma, não é exatamente a nossa saudade! A palavra carrega uma melancolia mais profunda, ligada à distância e ao desejo de voltar para casa. A sensação conversa bem com o contexto de Cabo Verde, que tem uma das diásporas mais expressivas da África. Com cerca de 500 mil habitantes, estima-se que mais de um milhão de cabo-verdianos e descendentes vivam em outros países, especialmente em Portugal, Estados Unidos, França e Holanda. 

Ao cantar “Sodade des nha terra São Nicolau” (‘saudade’ da minha terra São Nicolau), Cesária Évora transformou em música algo que atravessa gerações de cabo-verdianos espalhados pelo mundo: a ligação afetiva com as ilhas, mesmo quando elas ficam do outro lado do oceano. Na letra, versos como “Quem te mostrou esse caminho distante?” evocam a incerteza de quem parte sem saber quando voltará.

Pessoas relaxam em um restaurante de praia com teto de palha e plantas, sob palmeiras. Um barco colorido com Restaurante Barracuda está na areia, e um grupo caminha ao fundo
Movimentada e acolhedora, Santa Maria ajuda a traduzir a morabeza (Florian K./Unsplash)

5. A música é um dos maiores orgulhos nacionais

Em Cabo Verde, falar de música é quase tão inevitável quanto falar de futebol no Brasil (e você já deve ter notado pelos inúmeros trechos de músicas da Cesária Évora aqui). Ela está nos bares, nas festas de bairro e nos encontros entre amigos.

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O gênero mais conhecido é a morna, marcada por melodias lentas e letras que falam de amor, despedidas e da famosa sodade cabo-verdiana. Comparada ao fado português ou ao blues, ela nasceu há cerca de dois séculos e em 2019 foi reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Mas quem pensa que a trilha sonora do país é feita apenas de melancolia se engana. A coladeira surgiu como uma espécie de prima mais animada da morna, com ritmos dançantes e letras bem-humoradas. E não é preciso procurar muito para ouvir tudo isso ao vivo. Em Cabo Verde, existe uma boa chance de você sair para jantar e acabar assistindo a um show sem ter planejado.

Cantora negra de meia-idade com cabelo preso, usando brincos dourados e blusa preta estampada, segurando um microfone prateado com a mão direita e cantando em um palco escuro
Cesária Évora levou a morna cabo-verdiana para os palcos do mundo (Cesária Évora/Wikimedia Commons)

6. O pedaço mais brasileiro de Cabo Verde

O Carnaval é a principal festa popular de Cabo Verde, e seu epicentro fica em Mindelo, na ilha de São Vicente. Todos os anos, as ruas da cidade recebem carros alegóricos, fantasias elaboradas, baterias e desfiles que lembram, à primeira vista, os carnavais brasileiros.

Não por acaso, São Vicente ganhou o apelido de “Brazilin”. Terra natal de Cesária Évora, a cantora eternizou essa comparação na canção Carnaval de São Vicente, ao cantar “São Vicente é um brazilin, cheio de alegria, cheio de cor”.

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As influências brasileiras são evidentes, mas a festa desenvolveu uma identidade própria, incorporando ritmos cabo-verdianos e tradições locais. Exemplo disso são os mandingas, grupos que desfilam com o corpo pintado de preto e trajes inspirados nos povos mandingas da África Ocidental. É uma celebração da herança africana e uma forma de reafirmar identidades historicamente marginalizadas.

Além de ser o berço de Cesária Évora, São Vicente também é onde nasceu o goleiro Vozinha, que virou fenômeno da Copa por suas defesas que já entraram para a história. Se a cantora apresentou Cabo Verde ao mundo por meio da música, agora é o futebol que ajuda a levar o nome do arquipélago ainda mais longe.

 

7. Um país pequeno com uma missão gigante para as tartarugas marinhas

Além das águas cristalinas que renderam a Cabo Verde o apelido de “Caribe africano”, o arquipélago desempenha um papel fundamental na conservação da vida marinha.

O país abriga uma das maiores populações reprodutivas de tartarugas-cabeçudas (Caretta caretta) do planeta. Todos os anos, entre junho e outubro, milhares de fêmeas emergem do mar para depositar seus ovos nas areia. Quando os filhotes nascem, semanas depois, eles correm em direção ao oceano pela primeira vez. Boa Vista é um ótimo lugar para observar esse fenômeno, especialmente a Praia de Ervatão.

De acordo com a ONG Biosfera Cabo Verde, o arquipélago é o 2° maior sítio de desova de tartaruga-cabeçuda no Atlântico e abriga a 3ª maior população mundial, após Omã e Flórida. A responsabilidade é grande porque se trata de uma espécie vulnerável à extinção, e a captura dos animais é proibida por lei.

Para os viajantes, acompanhar a desova ou a corrida dos filhotes rumo ao mar deixa rastros na memória assim como as tartaruguinhas deixam pegadas na areia. Mas há uma regra básica: observar sem interferir. 

Tartaruga marinha com casco marrom e verde, nadando em água azul-turquesa, com a cabeça e parte do casco emergindo da superfície, criando pequenas ondas
As praias cabo-verdianas cumprem um papel fundamental para a conservação das tartarugas-cabeçudas (Turismo de Cabo Verde/Reprodução)

8. A cachupa é tão importante que já entrou para o Guinness

Se existe um prato capaz de resumir Cabo Verde em uma panela, é a cachupa. Preparada à base de milho e feijão, ela leva legumes e carnes que variam do porco ao peixe. Cada família tem sua própria versão, e a preparação varia de ilha para ilha. Em algumas regiões ela é mais caldosa; em outras, mais seca.

A cachupa nasceu da necessidade de aproveitar os ingredientes disponíveis e acabou se tornando presente tanto no cotidiano quanto em festas. Ela ocupa um lugar semelhante ao da feijoada para os brasileiros. Sua importância é tamanha que, em 2017, Cabo Verde entrou para o Guinness ao cozinhar a maior cachupa do mundo. A panela pesava cerca de seis toneladas e alimentou mais de 30 mil pessoas.

E se a cachupa é o prato que reúne os cabo-verdianos à mesa, o grogue costuma acompanhar a conversa. Produzida a partir da cana-de-açúcar, a bebida lembra a cachaça brasileira e também serve de base para os pontches, os licores.

 

9. Charles Darwin passou por lá antes de formular suas teorias

O destino mais associado a Charles Darwin costuma ser as Ilhas Galápagos. Mas, muito antes de publicar A Origem das Espécies, o naturalista fez uma parada em Cabo Verde.

A ilha de Santiago foi o primeiro lugar onde Darwin desembarcou durante a viagem do HMS Beagle, em janeiro de 1832. A parada nem estava nos planos originais da expedição, o navio pretendia seguir para as Ilhas Canárias, mas acabou fracassando e teve que seguir para Cabo Verde.

Em Santiago, Darwin observou as formações vulcânicas, os fósseis marinhos e os sinais de transformações geológicas. Com isso, ele começou a questionar algumas das explicações científicas aceitas na época e concluiu que a Terra devia ser muito mais antiga do que achavam.

10. A primeira cidade colonial dos trópicos fica aqui

Na Ilha de Santiago está a Cidade Velha, considerada o primeiro assentamento colonial europeu nos trópicos. Fundada em 1462, o lugar recebeu navegadores como Cristóvão Colombo e Vasco da Gama durante suas viagens pelo Atlântico e guarda marcas do passado escravagista.

Hoje, o conjunto histórico é Patrimônio Mundial da Unesco. Entre as atrações estão o Pelourinho, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário – considerada uma das mais antigas igrejas coloniais ainda em funcionamento no mundo – e o Forte Real de São Filipe.

Caso você queira conhecer Cabo Verde caminhando, vale conferir a Rua Banana. Lá, você encontra casas simples cercadas por história, das paredes de pedra aos telhados de palha. Primeira rua pavimentada dos trópicos, suas construções foram restauradas para preservar a arquitetura original.

Praça de paralelepípedos com um pelourinho de pedra no centro, cercado por correntes. Ao fundo, carros e vans estacionados, casas brancas com telhados de terracota e árvores frondosas sob céu parcialmente nublado
O pelourinho é o monumento mais antigo da Cidade Velha (Los viajeros 77/Wikimedia Commons)

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Fonte: https://viagemeturismo.abril.com.br/mundo/cabo-verde-das-cancoes-de-cesaria-evora-aos-gramados-do-mundial/