Nêgo Bispo em palestra no Instituto de Artes da Unesp, em São Paulo, 2023 (acervo nêgo bispo)
Caro Mestre Bispo,
Escrevo para falar da aprendizagem e das trocas que tivemos em nossa materialidade; e recorro a este meio, a carta, tantas vezes usada para transmitir alegrias e tristezas dos que deixavam sua terra, nem sempre conseguindo ter condições de voltar para rever os seus. Hoje quase em desuso, a carta também servia – quando nem todos sabiam ler – para o remetente enviar dinheiro a seus familiares. Mas esta que escrevo é para falar sobre coisas que tivemos tempo de fazer e refletir juntos, e sobre outras coisas que não houve tempo de amadurecer antes da sua partida. Quero falar do seu legado, do quanto você nos ensinou.
Tenho visto muitas pessoas, dentro e fora da academia, falarem de você. Às vezes, falam seguindo seus ensinamentos; outras vezes, porém, destoam do seu pensamento, o que é natural, pois nem sempre é fácil para a academia interpretar um pensar tão complexo e enraizado nas vivências quilombolas. A construção de um pensamento tão profundo que deslocou, incomodou, acomodou, inspirou e acalentou tanta gente não é para qualquer um. Você, Mestre, começou a contar quem eram seus próprios mestres e mestras – a exemplo do Tio Norberto, que lhe ensinou como a História e a ancestralidade podem se manter vivas e como podemos alimentá-las (em suas palavras: “Se você ensinar o que te ensinei, mesmo estando morto, estarei vivo, mas se você não o fizer, mesmo estando vivo, estarei morto”), ou de Mãe Joana, sua mãe, em quem você se inspirava tanto. Você nos contou as lições que aprendeu no (e com o) quilombo e ao sair
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/carta-ao-mestre-nego-bispo/

