Nêgo Bispo com crianças na comunidade quilombola Saco do Curtume, em São João do Piauí (PI), em 2009 (acervo nêgo bispo)
Que saudade tenho de você, amado avô Mestre Bispo! Toda vez que escuto a música “Lambada de serpente”, de Djavan, desaguo de saudade. Um consolo que me abraça nas idas e vindas do luto e da luta é lembrar, é saber e sentir o quão inteiro e pleno foi nosso encontro, nossa amizade. Eu me lembro que toda vez que nos víamos era uma festa. Uma das sensações mais fortes que trago comigo todos os dias é de como eu me sentia bem-vinda no mundo. Sentia que eu, meu povo, nossos povos, tínhamos o direito de estar aqui e agora, de cabeça erguida, sorrindo. Esse é seu legado mais precioso no meu coração.
Iniciei este texto com um prelúdio a Mestre Bispo porque não consigo nem quero falar de sua obra de forma “neutra” ou distanciada, pois não foi assim que sua vida se encontrou com a minha, que sua luta se somou às nossas. Compartilharei aqui alguns dos principais pontos de confluência entre suas perspectivas e as nossas, indígenas.
Uma das apostas de Mestre Bispo era de que aquilo que ele nomeava como lógica euro-cristã colonial se constituía como uma das principais bases da continuidade do colonialismo. Essa lógica inspira o capitalismo, reforça as explorações contra os seres humanos e não humanos, bem como orienta a política institucional. Por isso, dentre as muitas contribuições de Mestre Bispo, será nesse eixo a minha maior interlocução aqui. Ele relacionava tal processo à nomeação colonial, parte do que chamava de “adestramento”. Em suas palavras: “Os colonizadores, ao nos generalizarem apenas como ‘índios’, estavam de
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Fonte: https://revistacult.uol.com.br/home/comeco-meio-comeco/

