A já destroçada unidade do clã Bolsonaro sofreu seu golpe mais público e constrangedor nesta quarta-feira (1º). O que antes se restringia a sussurros de bastidores e disputas surdas pelo controle do espólio político da extrema direita explodiu em uma lavagem de roupa suja que ameaça implodir o núcleo central da pré-campanha presidencial do Partido Liberal (PL). O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) decidiu reagir publicamente a uma postagem de sua madrasta, Michelle Bolsonaro, no que está sendo amplamente interpretado nos corredores de Brasília como o clássico gesto de quem “vestiu a carapuça”.
O estopim da crise ocorreu quando Michelle compartilhou em suas redes sociais um vídeo do ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. No registro, originalmente publicado pela jornalista Julie Milk, Garotinho afirma com todas as letras ter visto imagens de festas suntuosas promovidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, repletas de “mulheres peladas” e frequentadas por “homens que defendem a família”.
Embora o conteúdo mirasse a hipocrisia de figuras proeminentes da direita tradicional e a ex-primeira-dama não tenha citado nominalmente o enteado em momento algum, a reação de Flávio foi imediata. E ficou bem estranha.
Contra-ataque em meio a um esvaziado “encontro de mulheres”
Sentindo o impacto do golpe desferido dentro de sua própria casa, Flávio Bolsonaro aproveitou uma agenda desenhada justamente para tentar conter sua forte rejeição entre as mulheres para responder à provocação. Ao lado da esposa, Fernanda Bolsonaro, o senador disparou que a madrasta está “completamente desinformada” ao sugerir sua participação nos eventos de Vorcaro.
“Eu quero garantir para vocês aqui: a única relação que eu tenho com Vorcaro é sobre o filme do meu pai [Dark Horse]”, declarou o parlamentar.
Tentando equilibrar-se entre o revide e a necessidade de não dinamitar pontes de vez, Flávio ensaiou elogios protocolares ao trabalho de Michelle à frente do PL Mulher, mas destilou ironia ao sugerir que ela estaria sendo manipulada por terceiros ou agindo de forma incompreensível. “Talvez ela esteja sendo induzida, ou não dá para entender muito bem”, alfinetou. O senador tentou contemporizar o tamanho do racha afirmando que “respeita demais” a ex-primeira-dama e manifestando a convicção de que ambos superarão o “momento difícil” para marchar juntos contra o presidente Lula (PT).
A explicação oficial do senador, contudo, foca em um ponto que tem tirado o sono de seus estrategistas. O avanço das investigações sobre o caso Master e os laços financeiros com o criminoso banqueiro, a quem Flávio pediu dinheiro para supostamente financiar o longa-metragem sobre Jair Bolsonaro, são hoje o principal calcanhar de Aquiles da candidatura. Ao tentar se defender de uma acusação que sequer havia sido explicitada por Michelle, o senador acabou jogando ainda mais luz sobre o escândalo que seu comitê tenta, a todo custo, abafar.
Boicote e isolamento: o plano de contenção que deu errado
A reação intempestiva de Flávio ocorreu no pior cenário possível. A reunião com lideranças femininas havia sido articulada às pressas como uma contraofensiva de imagem para construir uma agenda positiva para o senador, fustigado pelo desgaste contínuo nas pesquisas de intenção de voto.
O evento, no entanto, acabou expondo o tamanho do isolamento político do pré-candidato dentro do próprio campo conservador:
Ausência de Michelle: No epicentro do conflito, a ex-primeira-dama entregou a presidência do PL Mulher na última terça-feira (30) e ignorou sumariamente o evento.
Boicote de Damares: A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), uma das principais pontes do bolsonarismo com o eleitorado evangélico feminino, recusou-se a participar da agenda.
Falta de nomes de peso: Apesar de a assessoria de Flávio inflar os números falando em “mais de 50 lideranças”, o quórum foi composto majoritariamente por pré-candidatas de menor expressão que disputarão as eleições deste ano.
Para tentar conferir alguma densidade ao ato, Flávio postou-se ao lado da esposa e de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica e principal coordenadora do plano “Brasil Por Elas”, projeto com foco em propostas para mulheres que será lançado no dia 15 e que serve como teste para cacifá-la ao posto de vice na chapa.
O saldo do dia, contudo, foi desastroso para o bolsonarismo. Ao rebater de forma defensiva uma publicação que não o nomeava, Flávio Bolsonaro forneceu ao país o retrato de uma campanha acuada, fragmentada por disputas paroquiais de ego e assombrada pelos fantasmas de suas conexões financeiras. A guerra fria entre o senador e Michelle Bolsonaro agora é oficial, aberta e jogada à luz do dia. E sabe-se lá o que virá.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/vestiu-a-carapuca-flavio-bolsonaro-rebate-michelle-festinha-vorcaro/

