Por Ana Santos, Maria Luiza Ribeiro e Malu Vieira, da equipe de reportagem do Jornal do Campus, especial para o DCM
A Vigilância Sanitária de São Paulo instaurou processo administrativo e multou duas empresas terceirizadas responsáveis pelo serviço em dois restaurantes universitários da Universidade de São Paulo (USP), após uma onda de reclamações de estudantes e servidores a respeito da má qualidade da comida servida, da presença de larvas e utensílios sujos nos alimentos servidos e de doenças causadas pela ingestão dos produtos servidos
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Larvas, objetos não alimentares e diarreia marcam relatos sobre supostos problemas nos RUs (como são chamados os restaurantes universitários). As alegações fomentaram a greve estudantil e provocaram a fiscalização dos estabelecimentos pela Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa). Em 22 de abril, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que dois deles foram autuados por apresentarem “não conformidades”.
Os detalhes sobre as irregularidades encontradas não foram divulgados pela prefeitura paulistana. A reportagem apurou, porém, que a empresa “Starbene Refeições Industriais”, responsável por um dos RUs do campus da USP do bairro do Butantã (conhecido como “Bandejão das Químicas”), foi autuada em 15 de abril. Em 6 de maio, um recurso da defesa foi indeferido, mantendo a autuação devido aos maus serviços prestados. A empresa não se pronunciou. Veja abaixo.

Questionada sobre a situação geral dos bandejões, a reitoria da USP afirma que “eventualmente ocorre a presença de insetos ou de algum material estranho num universo de 20 mil refeições servidas diariamente”, e que, na ocorrência de incidentes, a equipe ajusta aspectos operacionais do preparo.
Relatos questionando a qualidade dos RUs têm sido compartilhados em redes sociais desde o início do ano. No dia 16 de março, alunos da Faculdade de Direito da USP protestaram contra o RU da unidade, administrado pela empresa Básica Fornecimento de Refeições.
Dias depois, o Centro Acadêmico XI de Agosto, junto a outras entidades, apresentou um relatório com as reclamações e fez uma denúncia à ouvidoria municipal do Sistema Único de Saúde (SUS). O arquivo de 14 páginas apresenta 13 ocorrências, seis relacionadas a questões sanitárias.

A estudante Júlia Milani denunciou o suposto caso mais expressivo: o frango verde. A aluna de Direito teria sentido um gosto “esquisito” no jantar do dia 2 de março, e, quando notou a coloração da carne, parou de comer: “Aquilo não é normal”.

A reportagem verificou que há um longo histórico de processos administrativos vinculados à Básica, todos devidamente registrados e publicados no Diário Oficial do município. Dentre as irregularidades apontadas nos documentos estão: utensílios mal higienizados, não aferição da temperatura dos alimentos, falta de funcionários para atender aos alunos e atrasos nas refeições. Procurada, a empresa não se manifestou.
Outro alvo de denúncias foi o restaurante da Faculdade de Medicina, administrado pela PKJ Comércio de Refeições. Gabriela Zanini, diretora do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC), enviou à reportagem um conjunto de fotos registradas no bandejão de Medicina: “Talheres sujos todo mundo vê todo dia”, relata a estudante. Em 25 de fevereiro, o aluno João Tomás de Camargo filmou pedaços de papel encontrados no filé de peixe que comia. Veja abaixo.


O estudante João Lucas Morais diz ter passado mal em 12 de março, devido a um fricassê servido no mesmo RU. Ele afirma que a comida estava com “um cheiro forte e gosto de leite estragado” e que só comeu “algumas garfadas”, quantidade que já teria sido suficiente para fazê-lo sofrer com fortes cólicas e diarreia. Zanini confirma a percepção do colega: “O fricassê estava com gosto e cheiro de estragado, tive que jogar a comida toda fora”.
Em nota, a Reitoria da USP confirma que foi comunicada sobre o caso e declara que “apurações internas” confirmaram que a comida estava “apropriada para consumo”.
Já Andréa Boanova, perita que trabalhou na Vigilância Sanitária, contesta a declaração e pontua que incidentes como insetos e pedras não devem ser tolerados. O manuseio indevido de ingredientes pode causar intoxicação alimentar, enquanto a presença de corpos estranhos gera risco de engasgos, danos aos dentes e reações adversas, como alergias. Nesses casos, é necessário reavaliar os métodos de higienização.
Segundo a perita, a qualidade do RU depende de muitos fatores: treinamento dos profissionais, limpeza de caixa d’água, controle de pragas nos arredores e calibragem de equipamentos são alguns deles. Como prestadores de serviços, os RUs são passíveis de denúncia a órgãos de saúde e de defesa do consumidor, essenciais à responsabilização das empresas, reforça Boanova. “Contaminações físicas são pontuais. Mas quando se tornam frequentes, demonstram falha”, conclui.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/exclusivo-vigilancia-sanitaria-multa-e-processa-restaurantes-da-usp-apos-denuncias-de-comida-podre/

