O escritório de advocacia da ministra do Superior Tribunal Militar (STM) Verônica Sterman recebeu R$ 700 mil, no fim de 2024, da ACX ITC Serviços de Tecnologia, empresa cujo dono oficial disse à Polícia Civil de São Paulo que era apenas “laranja”. O pagamento ocorreu antes da posse dela no tribunal.
Ericsson de Azevedo, de 50 anos, aparece formalmente como proprietário da ACX ITC, que declara capital de pouco mais de R$ 100 milhões. Em depoimento prestado em 23 de janeiro ao delegado Julio Jesus Encarnação, da 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Entorpecentes, ele afirmou que nunca controlou a firma.
“Informa que, por volta do ano de 2021, forneceu seus dados, no Jaçanã, em um campo de futebol, para abertura da empresa acima referida (a ACX ITC Serviços), e que, para isso, recebeu o valor de R$ 5.000,00”, diz um trecho do depoimento. Azevedo também declarou que “recebia o valor de R$ 1.000,00 cada vez que precisava assinar algum documento”, sempre em dinheiro.
No mesmo relato, Azevedo afirmou que não sabia o conteúdo dos papéis que assinava nem conhecia as pessoas que os levavam. Ele disse viver da confecção de pipas e rabiolas e da venda de rifas, com renda mensal de cerca de R$ 1 mil. Verônica Sterman, advogada paulista de 41 anos, foi nomeada ministra pelo presidente Lula (PT) em setembro passado.

Relatório financeiro cita pagamento e rede ligada à CPMI do INSS
Os R$ 700 mil aparecem em um Relatório de Inteligência Financeira referente ao período entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025. A ACX ITC fez o repasse em parcela única, por meio de uma conta no Banco do Brasil aberta em São Caetano do Sul (SP). Questionada em janeiro, Sterman disse que o valor se referia a três pareceres jurídicos sobre temas criminais ligados às atividades da empresa; procurada novamente nesta quinta-feira (02) pela assessoria do STM, não respondeu.
A ACX ITC entrou no relatório final da CPMI do INSS como parte de uma rede de lavagem de dinheiro atribuída ao empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. A estrutura reuniria mais de 40 empresas relacionadas entre si e teria movimentado R$ 39 bilhões, segundo a comissão. A mesma rede inclui a Victory Trading, sancionada pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos por suspeita de ligação com o PCC.
A empresa também pagou R$ 595 mil ao escritório do ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Nefi Cordeiro, depois de sua saída da Corte, em março de 2021. Um relatório do Coaf enviado à CPMI registra três lançamentos que somam R$ 445 mil entre outubro de 2023 e outubro de 2024, além de um cheque de R$ 150 mil sacado pelo ex-ministro. Nefi afirmou nesta quinta-feira (02) que “o pagamento foi recebido como honorários advocatícios, na prestação de serviços jurídicos em ações judiciais já encerradas” e disse desconhecer Ericsson de Azevedo.
O depoimento de Azevedo integra a Operação Saturno, deflagrada pela Polícia Civil de São Paulo em outubro de 2025. No relatório final do inquérito, encaminhado à Justiça e ao Ministério Público de São Paulo em 12 de maio, o delegado Julio Jesus Encarnação afirma que a ACX ITC possui “fortes indícios de envolvimento com recursos oriundos do tráfico”. A empresa movimentou R$ 918,3 milhões e aparece em relatórios financeiros como “possível integrante de estrutura voltada à ocultação e dissimulação de valores de origem ilícita”.
A promotora Ana Carolina Welligton Costa Gomes defendeu o envio do caso à Justiça Federal dias depois da conclusão do relatório. Ela escreveu que a autoridade policial apontou que “parcela substancial dos investigados — estimada em aproximadamente 95% — já figura em apurações em curso no âmbito da Justiça Federal, notadamente em operações que envolvem crimes financeiros complexos, lavagem de capitais e fraudes de alcance interestadual e, potencialmente, transnacional”.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/firma-pagou-ministra-stm-larnja-vendeu-dados/

