A Entre Investimentos e Participações, empresa usada para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, foi a maior pagadora da ACX ITC Serviços de Tecnologia Ltda. em um período de nove meses. A companhia investigada por suspeita de lavar dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) recebeu 14 transferências da Entre entre agosto de 2024 e abril de 2025.
O levantamento foi publicado nesta segunda-feira (13) pelo Metrópoles, com base em um relatório da Polícia Civil de São Paulo encaminhado à 1ª Vara de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens da capital paulista. O documento policial registra R$ 26 milhões em repasses. A soma individual das 14 operações feita pelo portal chega a cerca de R$ 28 milhões.
A Fórum já havia mostrado que a Entre transferiu R$ 26,2 milhões à ACX ITC somente entre fevereiro e abril de 2025. O novo levantamento amplia o período analisado e coloca a financiadora de Dark Horse no topo da lista de empresas que enviaram recursos à companhia investigada.
A investigação ainda não estabeleceu a origem e a finalidade de cada transferência da Entre para a ACX ITC. Também não há, nos elementos divulgados até agora, indicação de que o dinheiro enviado à empresa investigada tenha sido usado na produção do filme sobre Bolsonaro.
Financiadora de Dark Horse supera demais pagadores
Segundo a relação elaborada pela Polícia Civil, a Entre Investimentos transferiu mais que o dobro do valor atribuído à segunda maior pagadora da ACX ITC no período. O relatório apresenta R$ 26 milhões em operações da empresa, enquanto a soma publicada pelo Metrópoles chega a R$ 28 milhões.
- Entre Investimentos: R$ 26 milhões no relatório policial e cerca de R$ 28 milhões na soma das transferências;
- Supaluh Transportes e Serviços Empresariais: R$ 11,7 milhões;
- Rinanileo Gestão Consultoria: R$ 9,3 milhões;
- Alpha Capital: R$ 3,4 milhões;
- JJV Intermediações e Cobranças: R$ 2,8 milhões.
O delegado Júlio Jesus Encarnação registrou no relatório que a ACX ITC apresentava “fortes indícios de envolvimento com recursos oriundos do tráfico”. De acordo com dados de inteligência financeira citados na investigação, a empresa movimentou R$ 918,3 milhões.
A ACX ITC estava formalmente registrada em nome de Ericsson Azevedo, que afirmou à polícia trabalhar com a venda de pipas e rabiolas por meio de rifas. Ele relatou ter recebido R$ 5 mil para emprestar seus dados e figurar como proprietário da companhia.
Segundo seu depoimento, a proposta foi apresentada em um campo de futebol no bairro do Jaçanã, na Zona Norte de São Paulo. A polícia investiga se a empresa era controlada, na prática, por operadores responsáveis pela circulação e ocultação de recursos de origem criminosa.
Entre Investimentos também movimentou dinheiro de Vorcaro
No papel, a Entre Investimentos pertence a Antônio Carlos Freixo Júnior. Segundo a Polícia Federal, porém, a empresa foi utilizada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para realizar pagamentos e ocultar patrimônio.
Os investigadores ressaltam que a companhia também teria sido utilizada em negócios sem relação com Vorcaro. Por isso, a presença da Entre nas operações com a ACX ITC não permite concluir, por si só, que o dinheiro tenha sido enviado pelo ex-banqueiro.
Foi por meio da Entre, no entanto, que Vorcaro teria transferido R$ 61 milhões ao Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos. A operação ocorreu após uma negociação com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para financiar Dark Horse.
Documentos e diálogos apreendidos pela Polícia Federal indicam que o acordo previa até R$ 134 milhões para a produção. Os pagamentos identificados, realizados entre fevereiro e maio de 2025, somaram R$ 61 milhões.
A Fórum publicou a planilha que detalha o fluxo dos R$ 61 milhões e as conexões do fundo norte-americano com pessoas ligadas ao projeto do filme e ao entorno de Eduardo Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro confirmou que procurou Vorcaro para tratar do financiamento da cinebiografia do pai. O senador afirma que a negociação era privada e nega ter oferecido qualquer contrapartida política ou institucional ao então controlador do Banco Master.
Ligação entre Dark Horse e Vorcaro chegou ao STF
As suspeitas sobre a origem e o destino dos recursos destinados a Dark Horse chegaram ao Supremo Tribunal Federal. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu a ampliação do Inquérito 4.995 do STF para incluir os valores negociados entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
O parlamentar também pediu o compartilhamento de provas obtidas nas investigações sobre o Banco Master, além do rastreamento de movimentações envolvendo Vorcaro, a Entre Investimentos, fundos, produtoras e demais empresas vinculadas ao projeto Dark Horse.
A Procuradoria-Geral da República defendeu que o episódio fosse analisado pelo ministro André Mendonça, relator de procedimento relacionado ao Banco Master. A apuração sobre o financiamento do filme ficou sob a relatoria do magistrado indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro.
A investigação da Polícia Civil sobre a ACX ITC, batizada de Operação Saturno, também foi remetida à Polícia Federal após a identificação de conexões com apurações sobre o Banco Master, o PCC e fraudes contra aposentados e pensionistas do INSS.
Em nota ao Metrópoles, a Entre Investimentos afirmou que realiza suas operações em conformidade com as regras aplicáveis ao setor financeiro e que permanece à disposição das autoridades. A empresa não explicou a natureza das 14 transferências para a ACX ITC.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/dark-horse-acx-itc/

