Alvo da Operação Distrato, deflagrada nesta quarta-feira (15) pelo Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo (CIRA/SP), o advogado Nelson Wilians tinha recuperado, há duas semanas, o direito de utilizar um helicóptero de R$ 41,5 milhões apreendido na investigação de outro crime: fraude no Instituto Nacional de Seguro Social (INSS).
A Operação Distrato investiga suposto esquema de comercialização de créditos tributários falsos do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS) utilizado por empresas para reduzir ilegalmente o pagamento de impostos ao Estado. Segundo os investigadores, a fraude teria causado prejuízo superior a R$ 3,8 bilhões aos cofres públicos.
De acordo com informações da coluna Painel, na Folha de S.Paulo, a aeronave foi apreendida por determinação de André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), relator da Operação Sem Desconto, a primeira contra fraudes no INSS, a pedido da Polícia Federal (PF).
Porém, no dia 30 de junho, o próprio Mendonça autorizou que Wilians voltasse a usar o helicóptero. O ministro determinou o envio de um ofício à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), mantendo restrição, somente, à transferência ou alienação da aeronave, liberando sua circulação.
Atuação de escritórios e consultorias
De acordo com o CIRA/SP, empresas ligadas a Nelson Wilians ofereciam créditos de ICMS com desconto, apresentados aos clientes como parte de planejamentos tributários supostamente autorizados pelo Fisco.
Segundo a investigação, após aderirem ao modelo, as empresas deixavam de recolher integralmente o imposto devido e remuneravam os intermediários por meio de honorários de êxito que poderiam chegar a 70% do valor dos créditos utilizados.
Os investigadores afirmam que o grupo fornecia documentação para viabilizar a inserção dos créditos nas escriturações fiscais das empresas, permitindo a compensação indevida dos tributos.
Além de Nelson Wilians, a advogada Mayra Fahur de Paula, do escritório De Paula Advogados e Consultoria Jurídica, também foi alvo da operação. Segundo o CIRA/SP, ela exerceria papel de liderança na suposta organização e teria atuado em conjunto com Wilians. A reportagem tenta contato com a advogada e sua defesa.
As investigações apontam ainda a participação de escritórios de advocacia, consultorias e empresas intermediadoras responsáveis por captar clientes, elaborar contratos, emitir pareceres jurídicos e orientar a utilização dos créditos tributários considerados irregulares.
Investigado em caso do INSS
Esta não é a primeira vez que Nelson Wilians se torna alvo de uma operação policial. Em setembro de 2025, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em sua residência e em seu escritório durante a Operação Cambota, segunda fase da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos não autorizados em benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Na mesma operação, também foi alvo de buscas Fernando dos Santos Andrade Cavalcanti, ex-sócio de Wilians. Durante o cumprimento dos mandados, os agentes apreenderam esculturas e obras de arte nos imóveis ligados ao advogado.
Na investigação sobre o INSS, relatórios da Polícia Federal apontaram movimentações financeiras consideradas expressivas entre empresas ligadas a Nelson Wilians e o empresário Maurício Camisotti, apontado como um dos operadores do esquema. Em depoimento ao Congresso Nacional, o advogado negou participação em qualquer irregularidade. Sua defesa sustenta que todas as movimentações decorreram da atividade regular do escritório e afirma que ele colabora com as investigações.
Ostentação nas redes sociais
Além da atuação jurídica, Nelson Wilians construiu uma imagem pública marcada pela exposição de seu patrimônio nas redes sociais. Em seus perfis, costuma compartilhar registros de mansões, aeronaves particulares, carros de luxo, viagens internacionais e outros bens de alto valor, reunindo mais de 1,4 milhão de seguidores no Instagram.
Fundador do Nelson Wilians Advogados (NWADV), escritório criado em 1999 e que atua em todo o país, o advogado passou a se apresentar também como empresário do setor jurídico. A banca afirma contar com mais de 1.100 advogados distribuídos em 29 unidades no Brasil.
A estratégia de comunicação adotada por Wilians transformou sua rotina de luxo em uma marca pessoal e provocou debates dentro da advocacia sobre os limites da publicidade profissional e da exposição da vida privada de advogados.
Relações institucionais e atuação pública
Ao longo da carreira, Nelson Wilians manteve relações profissionais com agentes públicos e clientes de diferentes setores econômicos, como bancos, empresas de telecomunicações, varejo, energia, agronegócio e infraestrutura.
Em 2018, assinou um manifesto de apoio à candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Posteriormente, afirmou em entrevistas que seu escritório mantém relações institucionais com governos de diferentes orientações políticas e que sua atuação não está vinculada a partidos.
Nos últimos anos, também integrou a equipe jurídica da campanha de Pablo Marçal e atuou como advogado do ex-governador João Doria em processos judiciais.
Fonte: https://revistaforum.com.br/politica/andre-mendonca-helicoptero-advogado/

