Augusto Cury é o pai da Síndrome do pensamento acelerado, que identificaria pessoas com hiperatividade mental decorrente do excesso de informação. Cury é psiquiatra, mas colegas dele não localizam nenhuma base científica na sua teoria capaz de transformar um fenômeno do século 21 em algo classificável como síndrome.
Desde antes da internet alguém disse que vivíamos a era da bulimia da informação. As pessoas não conseguem engolir e processar tudo o que consumem com rapidez cada vez maior, mas enfrentam esse sofrimento desde muito antes do final do século 20.
Cury enquadrou a seu modo o que pensadores e especialistas de todas as áreas já abordaram por todos os lados. Há relatos de psiquiatras que recebem pacientes queixando-se da incapacidade de absorver e processar com tudo que estão ouvindo, lendo e vendo.
Eu sofro dessa síndrome da aceleração do doutor Cury, dizem os que chegam apressados aos consultórios, como já contou a psiquiatra Elisa Brietzke em entrevista à TV GGN. Estão tão acelerados que se antecipam ao próprio diagnóstico.
Cury, agora envolvido com a política, poderá se dedicar ao estudo do eleitor distraído, perdido no um terço do que chamam de eleitorado independente ou indeciso. Esse eleitor independente correu em direção a Cury nas últimas semanas e lhe garantiu até 10% da preferência no primeiro turno, segundo algumas pesquisas.

O brasileiro com a síndrome do eleitor distraído parece não entender o que Lula e Flávio representam, procura alguém que o conforte com certezas fora da polarização e assim se aquieta um pouco até o segundo turno. Na rodada final, pode ficar em casa, votar em branco, ou anular o voto, ou engolir um dos dois finalistas.
O eleitor distraído empolga-se ao saber que sua alternativa é homem das ciências da mente e milionário e ainda, o que é decisivo hoje, um pouco disruptivo. Cury sabe fazer muito dinheiro e sugere que saberá destruir tudo isso que está aí e que chamam de Estado ou de setor público. É uma combinação infalível em qualquer país.
Mas, como é distraído, o eleitor demora para ficar sabendo que Cury é mais do mesmo da direita que vive da distração dos que os viabilizam como influenciadores, vendedores de cursos, milagrosos, escritores e até como políticos pregadores da prosperidade acelerada.
O eleitor distraído levará um tempo para saber o que os outros, inclusive os que se dedicam à polarização, já ficaram sabendo. Que Augusto Cury não tem o diploma de doutor em psicologia que diz ter, que omitiu a propriedade de empresas na declaração ao TSE, que faturou alguns milhões em contratos sem licitação com prefeituras de amigos.
E que há suspeitas de manipulação de redes sociais em torno da sua candidatura, com impulsionamentos ilegais.
Cury é o candidato do eleitor que acredita, como o seguidor de Pablo Marçal, que uma ruptura o encaminhará para as portas da mudança, às vezes sob uma tempestade no meio do mato do Pico dos Marins.
Esse eleitor distraído e não necessariamente em desalento compra o que Cury vender: seus livros, seus cursos, seu currículo com sombras, a retórica de homem sensato e até a promessa de que robôs irão nos salvar dos gastos com servidores públicos. Cury não fala com marcianos, é quase o próprio marciano aqui na Terra.
O eleitor distraído que encontra um Cury na esquina, porque saiu a procurá-lo, é o cara que pode decidir a eleição. Ele descobriu Cury porque não queria saber da conversa de bolsonarista meia boca de Zema e Caiado e agora tem em quem votar no primeiro turno.
Esse eleitor independente e distraído, que finge não saber direito por que rejeita Lula e por que já andou perto de Flávio, esse brasileiro, conforme as pesquisas, irá na maioria em direção ao filho ungido no segundo turno. Isso nos leva a uma conclusão que os analistas dos humores desse eleitor se negam a dizer.
O eleitor que chega atrasado, porque demora a tomar decisão, é um macho branco, rico ou de classe média antilulista (uma síndrome que tem graduações variadas) que só arranja um pretexto para votar em nome diferente no primeiro turno, para cumprir o que está programado para fazer no segundo. Votar no antilula.
O eleitor distraído de Cury, que parece não saber o que ele de fato representa como mais um do sistema, é o nosso parente chato que ninguém leva muito a sério. Ele decidirá o que acontecerá com todos nós a partir de 2027 e nos próximos quatro anos.
O eleitor distraído pode nos empurrar para o inferno do fascismo aperfeiçoado, que o filho escolhido pretende construir com a paciência, o método e o suporte internacional que o pai dele não teve.
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Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/eleitor-de-augusto-cury-finge-nao-saber-o-que-esta-acontecendo/

