Uma exposição que reproduz uma chuva de aproximadamente 7 mil gotas suspensas no ar transforma a CAIXA Cultural Belém em um ambiente de contemplação e reflexão sobre a importância da água. Intitulada “Lágrimas de São Pedro”, a instalação do artista visual baiano Vinícius S.A. foi inaugurada na terça-feira (6), após circular pelo Brasil e pelo exterior. Com entrada gratuita, a mostra apresenta uma das maiores montagens de sua trajetória e permanece aberta ao público até 24 de janeiro de 2027, no complexo Porto Futuro II, no bairro do Reduto.
A exposição oferece aos visitantes a experiência de caminhar entre milhares de gotas que parecem congeladas no tempo. Produzidas com bulbos de lâmpadas preenchidos com água e sustentadas por fios de nylon em diferentes alturas, as peças recebem iluminação especial, criando uma paisagem que combina transparência, movimento imaginário e sensações visuais.
A chegada à capital paraense tem significado especial para o artista, que encontrou na relação dos moradores com a chuva uma conexão direta com sua obra. “É a primeira vez que vou expor em uma capital, em uma metrópole, que tem essa relação mais íntima, talvez mais afetiva, com a chuva”, afirma Vinícius.
A passagem por Belém também encerra o circuito da instalação pelas unidades da CAIXA Cultural no país. Apresentada inicialmente em Salvador, em 2008, a obra já esteve em diferentes cidades brasileiras e chegou a Las Vegas, nos Estados Unidos, e Frankfurt, na Alemanha.
Chuva transformada em poesia e reflexão
O conceito da instalação surgiu das experiências pessoais de Vinícius S.A., especialmente das lembranças da infância no sertão baiano, onde a chuva era aguardada com expectativa e celebrada como símbolo de esperança.
A proposta é permitir que o público observe um fenômeno natural cotidiano de maneira diferente, percebendo detalhes que normalmente desaparecem com a velocidade da água.
“É como se tivéssemos o poder de pausar a chuva, uma chuva de gotas grandes, limpas, transparentes, leves e com isso poder contemplar sua beleza, seu poder, seu símbolo, sua necessidade”, explica.
Apesar da aparência delicada, a instalação exige planejamento técnico. A disposição das peças depende de cálculos de volume, peso e sustentação, combinando conhecimentos científicos com experimentação artística.
Outra referência importante surgiu durante uma caminhada pela Chapada Diamantina, quando o artista permaneceu envolvido por uma intensa neblina.
“Tive a felicidade de caminhar por dentro de uma nuvem na Chapada Diamantina. Passei umas três horas dentro de uma neblina muito forte. Eu estava no alto da montanha, a nuvem baixou e fiquei dentro dela”, recorda.
A experiência contribuiu para a construção de uma obra que procura reproduzir a sensação de estar dentro de um fenômeno atmosférico.
Arte e consciência ambiental na Amazônia
Além da dimensão estética, “Lágrimas de São Pedro” propõe uma reflexão sobre a escassez de água, a crise hídrica e a necessidade de preservar os recursos naturais.
A temporada na Amazônia amplia essa discussão diante dos impactos das secas sobre comunidades ribeirinhas, ecossistemas e atividades que dependem dos rios.
“É uma obra sobre chuva, mas também sobre a seca. É uma chuva poética”, define Vinícius.
Para o artista, a água representa não apenas um elemento natural, mas também um símbolo de vida, espiritualidade e esperança. Durante apresentações anteriores, em Salvador, ele observou visitantes que rezavam diante da instalação.
“Eu entendo a arte como um artifício político, como um artifício de diálogo com as pessoas”, afirma.
Segundo Vinícius, a linguagem artística pode contribuir para despertar a atenção do público sobre questões ambientais que afetam diferentes regiões do planeta.
“O objetivo é usar a poesia para construir uma linguagem visual capaz de dialogar com o espectador para que ele também se sensibilize com essas causas”, acrescenta.
Trajetória internacional e visitação
Com obras presentes no acervo do Museu de Arte Contemporânea da Bahia e experiências em residências artísticas na Holanda e na Alemanha, Vinícius S.A. desenvolve instalações que transformam materiais cotidianos em experiências sensoriais.
Ao longo de sua trajetória, o artista passou a explorar a relação entre ciência, memória, natureza e percepção visual, utilizando objetos simples para construir ambientes de grande impacto estético.
A montagem apresentada em Belém reforça essa proposta ao transformar milhares de pequenas estruturas transparentes em uma representação monumental da chuva, fenômeno profundamente associado ao cotidiano amazônico.
Visitação gratuita até janeiro
A exposição foi aberta em 6 de outubro de 2026, às 19h, com visita guiada pelo artista. Na quarta-feira (7), a programação contou com o bate-papo “Uma conversa entre centros: Lágrimas de São Pedro em Belém”, seguido de visita guiada por Vinícius S.A.
A mostra pode ser visitada até 24 de janeiro de 2027, de terça-feira a domingo, das 10h às 21h, na CAIXA Cultural Belém, localizada na Avenida Marechal Hermes, sem número, Armazém 6A, no Porto Futuro II, bairro do Reduto. A entrada é gratuita.
Ao aproximar a arte contemporânea de questões ambientais, a instalação oferece ao público paraense a oportunidade de contemplar a chuva sob uma perspectiva que combina beleza, memória e reflexão sobre a preservação da água.
Serviço
“Lágrimas de São Pedro” — instalação de Vinícius S.A.
Visitação: de 7 de outubro de 2026 a 24 de janeiro de 2027, de terça-feira a domingo, das 10h às 21h.
Local: CAIXA Cultural Belém.
Endereço: Avenida Marechal Hermes, s/n, Armazém 6A, Reduto — Porto Futuro II.
Entrada franca.
Fonte: https://diariodopara.com.br/belem/exposicao-lagrimas-de-sao-pedro-chega-a-belem-com-chuva-de-7-mil-gotas/


